Quinta, 23 de Maio de 2013
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Cláudia Cardoso

Envelhecer

Publicado: 2011-09-08 15:48:58 | Actualizado: 2011-09-08 15:48:58
Por: Luciano Barcelos
Envelhecer



No envelhecimento não há só o encanto romântico que apregoam. Há uma espécie de tranquilidade que cobre como um véu os sentidos. Depois as mãos entediam-se dos gestos de sempre. Extenuadas de os repetir à exaustão. O espelho devolve uma e outra vez a imagem do que somos. E entretemo-nos a procurar debaixo desta aqueloutra que é sabido reconheceríamos com agrado. Nos cantos da boca o riso atordoa-se devagarinho. Tímido e silencioso. A cada vislumbre estamos mais longe da imagem mental que tínhamos de nós mesmos. Sobra no envelhecimento o gesto sereno de quem já cruzou um caminho. Mas falta o vigor que o percurso de antes dava. Quando a mão pega na caneta para se encostar ao papel é como se uma manta de celofane a cobrisse com severidade. Impedindo outra destreza. Quando a caminhada já vai longa as pernas entorpecem o percurso. E atrasam o passo antes apressado. Mas, para que precisamos afinal da pressa? De que nos serve a correria que concentra num dia o que poderíamos fazer em dois. Testamos os nossos limites. O da paciência também. Que a velhice tece com mais sabedoria. E os velhos que o sabem ser desfrutam dela com embevecimento. Afinal, quando o corpo parece teimar em entorpecer, o espírito aguça-se e corre desenfreado. A contragosto, espreita o corpo caduco. Demorado. Na planície dos dias a fazer-se sonâmbulo e trôpego. E o mar dos olhos à procura do vigor dos músculos, sob a pele mortiça. E o pensamento arguto à procura dum ser dentro daquele. E a força interior à espera dum lampejo de força que anule a demora dos dias. O vagar dos gestos. Os velhos, que somos todos nós a cada dia, à espera dum milagre que os devolva a si mesmos. Querendo esquecer a sensação de que se vão perdendo devagarinho. Num choro lento, mas que não deve ser, só por isso, necessariamente triste.

claudia.cardoso9@gmail.com

 
Cláudia Cardoso Cláudia Cardoso

Deputada regional, Cláudia Cardoso é cronista da imprensa açoriana e da RDP.

A sua escrita escorreita e realista cativa o leitor.

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