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Quinta, 20 de Junho de 2013
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Cláudia Cardoso

Luísa

Publicado: 2012-06-17 19:21:36 | Actualizado: 2012-06-17 19:21:36
Por: Luciano Barcelos
Luísa



Havia nas mulheres que habitavam a Rua do Pisão uma forma diferente de pisar o chão. Engalanadas pela altura das festas traziam envolto o cheiro do mar. Com um salero insuspeito, aprendido na cadência do andar de sucessivas gerações, debulhavam nobreza. Dum calibre que nada deve à realeza, mas ao carácter. Pequenas costureirinhas de casaco de malha aos ombros transfiguravam-se rainhas no passo miúdo pelas calçadas. Luísa era assim. O corpo estreito envolto nos xailes que mãe lhe bordara no conforto da janela. Perseguia a vida com o ânimo da juventude. Rua acima, rua abaixo, arregaçando a saia a cada passo. Dentro de casa o mundo era outro. O das linhas e agulhas a debulharem tecidos inertes. Fazendo do pano mais indiferente o vestido lustroso dos outros. As senhoras que frequentavam a casa tinham para com Luísa a sobranceria dos imbecis. Recusavam com desprezo os seus trejeitos de delicadeza. Que lhes parecia sempre superior à que a sua condição lhe permitia. Luísa cresceu por isso entre a mesquinhez deste olhar de soslaio e a certeza de que haveria algo mais da vida a ser-lhe permitido. Anos a fio a subir a bainha das senhoras fez dela exímia observadora. Dos pormenores, dos tiques e das aptidões. Que também existem nos pretensiosos. Fez-se mulher na entretela das conversas. E registou em segredo a matéria-prima de que o seu futuro seria feito. Cumpriu o sonho de sair da ilha. Estreita margem dos seus sonhos. Quis cumpri-los. Aventurar-se numa vida sem botões e sem bainhas. Não por que lhe desagradasse a singeleza, mas por haver em si outros mundos. No silêncio da caixa colorida tecia diariamente o seu caminho. Quando emigrou para o outro lado do mundo pôs em prática o que aprendeu em silêncio. Agora que volta à Rua do Pisão reencontra na velha caixa de botões os restos de uma bainha e da vida que então decidiu suspender. Pela janela vê o xaile ondulante a serpentear na calçada. Sem a leveza de antes, mas com o mesmo salero.

claudia.cardoso9@gmail.com

 
Cláudia Cardoso Cláudia Cardoso

Deputada regional, Cláudia Cardoso é cronista da imprensa açoriana e da RDP.

A sua escrita escorreita e realista cativa o leitor.

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