Cultura

Cantorias populares voltam a estar na moda (vídeo)

Não há fim de semana na ilha Terceira que não fique marcado por uma cantoria popular.
Para angariar fundos para festas, para obras ou para ações sociais, os salões enchem-se de gente que paga para ouvir uma nova vaga de cantadores.

Novos cantadores populares: Fábio Ourique e Bruno Oliveira. © Foto:Multimédia RTP/Açores


"O recrudescimento do interesse pelas cantorias, em particular por parte dos mais novos, começou com o aparecimento da Maria Clara, depois acentuou-se com o Bruno Oliveira", disse ao Acores.rtp.pt o entusiasta das cantigas ao desafio, Fernando Pereira.

Funcionário da empresa de transportes aéreos dos Açores, Fernando Pereira dedica-se a registar em vídeo as cantorias e a publicá-las na internet, registando milhares de visualizações por cada vídeo.

A explosão das cantorias - outrora confinadas às festas de Verão e tidos como interessando apenas a velhos - é um fenómeno com pouco mais de dois anos.

Professor de Moral e Religião em São Jorge, Bruno Oliveira - implacável no palco e tímido nas entrevistas - é o novo ícone da juventude da ilha Terceira. Onde ele canta, há garantia de casa cheia.

Igualmente entrevistado, na segunda-feira à noite, na RTP/Açores, no programa Acores.rtp.pt, Bruno Oliveira - que se licenciou em Engenharia do Ambiente, pela Universidade dos Açores - nega que seja uma vedeta.

Prepara-se para as cantorias?, perguntam-lhe no programa. "Não, a minha única preocupação é chegar a tempo", responde, desconcertante, o jovem cantador popular.

Hoje, os cantadores possuem habilitações académicas superiores, o que os ajuda a diversificar o vocabulário.

Fernando Pereira lembra, no entanto, o papel magistral que João Ângelo - a quem os mais novos chamam o Mestre - continua a desempenhar no meio das cantorias.

"É uma personagem com um vocabulário popular riquíssimo e dono de uma fina ironia", explica.

Mais buriladas nos versos, não menos acutilantes no despique - que, às vezes raia o absurdo - as cantorias são hoje totalmente abertas às mulheres.

Maria Godinho, natural da ilha Terceira e atualmente cantadeira no Canadá, recorda-se de há trinta anos cantor com a Charrua nos terreiros da ilha.

Era a ressaca dos tempos em que as mulheres eram aconselhadas a não ir às cantorias para não ouvirem os alegados desmandos da Turlu, a única mulher que, em plena ditadura, ousou pisar terrenos particularmente masculinos.

Hoje, Maria Clara, Fábio Ourique, António Isidro ou Bruno Oliveira dão um novo rumo à popular cantoria ao desafio.

Luciano Barcelos, Multimédia RTP/Açores