Desporto

Ben David, um senhor do futebol - João de Brito Zeferino

Ben David, um senhor do futebol - João de Brito Zeferino
Em nossa modesta opinião, alicerçada em mais de quatro décadas ao serviço do desporto, concretamente do futebol, existem três personalidades que marcam de forma indelével, a evolução em outras tantas épocas, do desporto-rei nesta ilha, nesta Região, em especial no período antes do ingresso nos escalões nacionais. São elas o Professor Augusto Moura, João Gualberto Borges Arruda e Henrique Bem David.

Porque julgamos que qualquer deles merece uma referência tanto quanto possível em acordo com o seu valor, optamos por começar por Henrique Ben David, talvez por ter um passado que veio de longe para terminar em S.Miguel, depois dum percurso marcante, a nível nacional e internacional.

Nasceu Henrique Bem David em São Vicente de Cabo Verde, em 5 de Dezembro de 1926, iniciando a sua carreira nos infantis do Clube Sportivo Mindelense, onde mais tarde passaria para a categoria de honra. Em 1946 veio para Lisboa, tendo ingressado na C U F , embora desde bem cedo, Benfica e Sporting se tenham interessado pelos seus dotes de grande jogador, Chegou a estagiar no grémio de Alvalade, onde em 1951 acompanhou a equipa dos “leões” em digressão pelo Brasil (tal como Serafim dos Belenenses) jogando na grande catedral do Maracanã, onde revelou toda a sua categoria de marcador. Contudo e de regresso a Portugal, por conveniências de sua vida, Bem David ingressou no Atlético Clube de Portugal, onde fez toda a sua fulgurante carreira. Ao serviço dos alcantarenses, foi seis vezes internacional, jogando duas vezes contra a Inglaterra, e uma contra a Escócia, Bélgica, País de Gales e França, marcando quatro golos, dois dos quais aos ingleses, o que lhe valeu por parte dos jornais britânicos a consideração de ter sido Bem David o melhor avançado centro, que até então tinha jogado em campos ingleses.
Porém uma arreliadora lesão num joelho, que o levou a ser operado seis vezes, obrigou-o a terminar prematuramente, a sua fulgurante carreira como jogador. Em 1955 e pela mão do Comendador Furtado Leite, vem com a família para São Miguel, onde inicia a carreira de treinador no Santa Clara, clube onde escreve as mais brilhantes páginas da história encarnada daqueles tempos. Treinou ainda as equipas do União Sportiva, Marítimo, e União Micaelense, para além de ter sido seleccionador e treinador da representação micaelense, que se deslocou a Angra do Heroísmo, Funchal, e por duas vezes ás Bermudas e Estados Unidos da América do Norte.




Encerrada a carreira no futebol activo, Henrique Bem David entrou para a Televisão nos Açores, onde foi responsável pelo Teledesporto. Foi neste campo que mais privamos com ele e que tivemos oportunidade de conhecer melhor a sua forte personalidade, para além dos seus conhecimentos como grande vulto do futebol.

Certa vez e ao iniciar a sua actividade , Bem David com a humildade própria dos grandes vultos, procurou-nos , e frontalmente disse “ Mister (forma amiga como nos tratávamos mutuamente ) , vou precisar da tua ajuda. Já fiz igual pedido ao Manuel Inácio Botelho de Melo (outro grande amigo e então já em São Miguel depois de longa ausência em Moçambique), e porque não estou por dentro destes meandros do jornalismo, quero que vocês me ajudem. Claro que a resposta foi logo um sim de forma sincera e franca, e nunca mais esquecerei que no seu primeiro programa com convidados em estúdio, lá estávamos o Manuel Inácio e eu. Ficámos amigos para sempre, até que a morte o levou, por ironia do destino a 4 de Dezembro de 1976, sendo o funeral no dia seguinte, precisamente quando completava 50 anos de idade. Durante alguns anos, e já com o Santa Clara na 3ª Divisão Nacional, sempre que o Atlético vinha a São Miguel, uma representação sua ia ao Cemitério de São Joaquim, depositar uma coroa de flores, na campa dum dos melhores avançados portugueses da sua geração, e que nascendo na doce e bonita ilha de São Vicente, ficaria para sempre a repousar na Ilha de São Miguel, que também amou e o aceitou como filho.

Uma sincera e justa homenagem, Mister, que há muito tinha para te fazer.

João de Brito Zeferino