Desporto

Recordando a fundação do União Sportiva

João de Brito Zeferino

Recordando a fundação do União Sportiva

Foi a 1 de Janeiro de 1921 que nesta cidade de Ponta Delgada, foi fundado o Clube União Sportiva, uma das mais prestigiadas colectividades do desporto açoriano. Morto e enterrado pelas vicissitudes do tempo, nem por isso deixa de merecer a honra e a glória que lhe é devida, pelo seu nobre passado. Segundo rezam algumas crónicas, teve as suas origens no Benfica Açoriano Sport Clube, nascida em 1914, mas com vida efémera, sendo igualmente admissível que alguns dos seus elementos fizessem parte da Associação de Classe dos Empregados do Comércio e Indústria do Distrito Oriental dos Açores, com estatutos existentes desde 1907.Daqui terá surgido o Clube União Sportiva dos Empregados do Comércio, alterado em A.G. de 1922 para Clube U.Sportiva, com sede na Rua da Canada.

Dos seus fundadores e para que se recorde, consta o nome do popular desportista e homem de letras, Manuel Inácio de Melo (MIM), e do então alferes José Joaquim de Sousa, este na origem da fundação de quase todos os clubes de Ponta Delgada. Foi o Clube verde-branco um dos fundadores da Associação de Foot-Ball de São Miguel em 1923.

Começa então a gloriosa carreira do novel clube, considerado da década de 1920/1930 a melhor equipa do futebol micaelense e umas das melhores dos Açores. Venceu os primeiros cinco campeonatos de S.Miguel , venceu 1º Campeonato dos Açores, disputado na cidade da Horta,  cilindrando na final o gloriosos Lusitânia, por 6-2.em 3 de Março de 1928. Para que conste e sob a arbitragem do inglês Mr. Rew, o U.Sportiva apresentou: Tibério; Esteves e Castro: Agostinho, Manuel Jesus e Sousa; Alberto, Ferreira, Fernando Jorge, Jaime Sousa e Cunha.



Por iniciativa dum grande dirigente Joaquim Maria Cabral, e por acordo de cavalheiros com o responsável pela Fábrica de Cervejas Melo Abreu, António Diogo, foi a sede transferida para a Rua de Lisboa, onde construiu o seu Estádio Margarida Cabral, santuário do hóquei em patins nesta ilha, e ainda hoje recordado com enorme saudade pelas noites de glória ali vividas.

Pelas suas fileiras passaram dirigentes da mais alta estirpe, recordando com saudade, entre outros, os nomes do Dr.Jeremias da Costa, Ângelo Quintanilha Machado da Luz, Joaquim Maria Cabral, Manuel Bernardo Cabral, Fernando Silva, Eduardo Neves, António Tapia, Arq. Francisco Quintanilha, José Carvalho, Drs. Hugo Nunes da Silva, Carlos Roberto Pacheco, Artur Lobato de Macedo, o entusiasta Norberto Melo Pacheco, Gil Teixeira Aurenio Furtado e muitos outros.

No campo futebolístico, entre centenas, recordamos Carlos Flamengo, Alberto Castro, Jaime de Sousa, Tarzan, Salsa, Jaime Estrela, Goyanes, Norberto Pacheco. No hóquei em patins, João Bernardo, Hélio, Fontes, Macedo, entre outros.

Na sua longa história entre muitas iniciativas, regista-se a vinda a São Miguel em 1923 do glorioso Casa Pia Atlético Clube, onde pontificava Mestre Cândido de Oliveira, bem como os jogos com a Académica de Coimbra e Sporting Clube de Portugal, de quem era uma das antigas filiais.

Mas deste glorioso passado, pouco ou nada resta nos dias de hoje. Depois de várias vicissitudes, com a saída do hóquei do velho Margarida Cabral, com a quase semi-profissionalização do futebol, o União Sportiva perdeu a carruagem, e com ela entrou na extinção. Hoje pouco ou nada resta do seu glorioso passado e muito menos do seu valioso espólio desportivo. Por várias vezes temos interrogado o que se passa com o valioso tesouro verde-branco, mas encontramos pela frente, silêncio, escuridão e nada mais. Aliás um pouco como outras colectividades, caso do Micaelense Futebol Clube e outros que, infelizmente se hão-de seguir. A questão que gostaríamos de colocar, é a seguinte. Uma vez desaparecida da circulação as quase centenárias colectividades, será do mais elementar dever desportivo, alguém tomar a sua guarda, o espólio das mesmas, que encerra sangue, suor e lágrimas. Tal como noutros campos da cultura se faz. Em tempos muito recuados, constava que o Museu Carlos Machado possuía uma secção destinada a tal fim. Aida existirá? Caso contrário, sugerimos que a Associação de Futebol de Ponta Delgada, agora habitando vetusto e amplo palácio com espaço mais do que suficiente, como fiel representante dos clubes seus filiados, chame a si a missão de ser fiel depositária dos seus patrimónios, não com a mórbida finalidade de ser crematório da sua história, mas como louvável salvadora duma herança, que é de todos, que faz a história de todos, da própria Associação. Julgamos ser esta uma nobre missão ao alcance da casa-mãe do futebol micaelense e mariense, e que, com a boa  vontade e o desejo de servir o nosso desporto-rei, tanta vez apregoado e seguido pelo seu elenco directivo, prestaria um nobre serviço, ás cinzas daqueles que em vida, engrandeceram o desporto micaelense e açoriano.

Fica o alerta se for digno de merecer a atenção de quem decide,
Fica a recordação de quem recorda com saudade, o desaparecimento destas glórias de sempre, como no caso presente foi o glorioso Clube União Sportiva.

João de Brito Zeferino