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525 anos de Vila



    Se a razão tivesse vencido o sentimento eu aqui não estaria e em meu lugar, alguém com mais conhecimentos e maior erudição vos daria a ouvir palavras bem mais sábias do que as minhas. Mas sou um sentimental e deixei que o coração me levasse a esta imprudência.

   Há 525 anos atrás era elevado a vila este lugar de Santa Cruz. Pretende agora a Câmara Municipal, e muito bem, assinalar essa data com o lançamento de um selo comemorativo e é por isso que aqui estamos.

   Não sendo filatelista, nem investigador de história e ainda menos historiador, quedando-me apenas na qualidade de leitor interessado pelo objecto dessa disciplina nada de novo vos posso aqui trazer.

  


Há 525 anos atrás era elevado a vila este lugar de Santa Cruz
Assim, optei por organizar alguns dados da história da nossa vila de Santa Cruz tentando uma viagem no tempo ao longo desses 525 anos. Viagem que não contínua, antes discreta, salpicada de lacunas, de avanços e recuos, marcada pela subjectividade que marca a escolha dos factos e a relevância aos mesmos atribuída.

 Segundo investigações do meu grande e saudoso amigo Oriolando Machado de Sousa Correia da Silva tudo leva a crer que o 1º Capitão do Donatário, Pedro Correia da Cunha, se fixou de forma permanente nesta ilha em 1475 depois de ter perdido a capitania do Porto Santo onde residia. É nessa altura que ao fixar-se em Santa Cruz, construindo habitação no Outeiro ou Pico das Mentiras começa a ter crescente importância este pólo habitacional no lado norte da ilha em detrimento do até então mais relevante, por ter sido o primeiro  a ser habitado e por onde possivelmente entraram os primeiros povoadores, a Praia.

  Vem Pedro Correia da Cunha encontrar a nossa vila, ainda antes de o ser, reduzida a modestas habitações junto à Igreja de Santo André no espaço do actual largo Conde de Simas onde talvez já repousassem os restos mortais de Diogo de Melo, ao que se diz, descobridor da Graciosa.

  Do então Monte das Violas poder-se-ia avistar aquilo que Paulo Gouveia nos  define como a primeira fase do desenvolvimento urbanístico de Santa Cruz e que cito "O assentamento original mais primitivo organiza-se a parir da primeira ermida de Santo André (demolida em 1844), localizada no que é hoje o Largo Conde de Simas ( antigo Largo de Santo André), progredindo como estrutura de vias paralelas até outro elemento urbano organizador, o Largo da Calheta. A via principal que ligava directamente estes dois pontos era a tradicional rua Direita (hoje rua Dr. Manuel Correia Lobão), que, como se sabe, estabelecia normalmente a ligação entre as 'portas' do aglomerado."

  Mas nem todas as opiniões coincidem exactamente com esta. Assim Oriolando Silva afirma " É a partir de 1475 que se inicia o povoamento de Santa Cruz, a partir da Barra para o centro, e que se inicia também o povoamento do Arrabalde, Calheta, Corpo Santo e rua da Casa da Pólvora, ficando assim delineada, fisicamente a Vila de Santa Cruz tal e qual como ainda a conhecemos."

  Por cá os dias iam decorrendo monótonos, porém alguns sobressaltados por ameaças reais ou sonhadas vindas do mar ou por ocorrências de algum modo significativas para as gentes que então aqui viviam e, sem dúvida a notícia de elevação de Santa Cruz a vila em 1486 foi uma delas se calhar transmitida ao povo pelo almoxarife de então Nuno Martins Palha.

  

pedra após pedra entre 1486 e 1500 daquela que seria a Matriz da Vila de Santa Cruz
Afadigava-se certamente a população nas tarefas agrícolas das terras férteis da planície de Guadalupe que certamente constituíram o mais forte motivo de atracção conducente à formação do principal povoado na costa norte da ilha ou na busca de alimento que o mar então farto em peixe poderia proporcionar. Mas, se do corpo deviam tratar não menos o deveriam fazer da alma nessa época de grande crença e força da igreja católica. Movimentos significativos para os lados do Outeiro vão mostrando o crescimento, pedra após pedra entre 1486 e 1500 daquela que seria a Matriz da Vila de Santa Cruz.

  Assim e seguindo o já referido estudo de Paulo Gouveia, se demandássemos o ainda Monte das Violas pois a ermida de Nossa Senhora da Ajuda que o baptizou com o seu actual nome só se ergueria mais adiante, no século que então nascia, poderíamos e seguindo as palavras do referido arquitecto dar conta, e volto a citar " Outro núcleo de casario começa entretanto a formar-se a Este, um pouco distante do primeiro, cujos elementos ordenadores são as 'Casas do Capitão do Donatário' e Igreja Matriz, de sistema construtivo mais nobre, e ainda a Ermida de S. Pedro, pronta antes da Matriz, a Igreja da Misericórdia e o Hospital que rematam o povoamento neste lado da Vila, por certo ligado ao caminho conducente à Vila da Praia e ao Porto da Barra, lugar importante ao tempo." E ainda, segundo a mesma fonte, entre estes dois pólos urbanísticos, que delinearam a imagem de Santa Cruz já no início de Quinhentos  se poderia talvez dar razão ao menos por indícios às palavras de Gouveia: "Entre estes dois núcleos, ficam os pauis, de provável origem natural, certamente aproveitados pela urbe para cumprir uma determinada função, e à volta dos quais surge logicamente o 'Rossio'. Ainda neste período a Vila cresce aparecendo o largo de Barão de Guadalupe e a Rua do Arrabalde, o Largo e rua do Corpo Santo e a antiga rua da Casa da Pólvora."


os pauis, de provável origem natural,  e à volta dos quais surge logicamente o 'Rossio'

  Os primeiros anos de vida de Santa Cruz como vila devem ter sido ocupados pelas gentes na consolidação das bases fundamentais para a subsistência alimentar e espiritual sem esquecer, como é óbvio, a defesa. Assim, construir fortificações que defendessem dos perigos vindos do mar, foi tarefa que ocupou certamente muitos dias, meses e anos desses nossos antepassados.

  Os Correia da Cunha, os Vaz Sodré, os Furtado Mendonça, os Correia Picanço, os Espínolas, etc. arroteavam terras que sendo muito férteis permitiram dar alimento a uma população crescente.

 


as ruas da nossa vila muitas e interessantes histórias teriam ouvido
Mas o espírito de aventura não abandonava estas gentes e as ruas da nossa vila muitas e interessantes histórias teriam ouvido contar se os dois filhos desta terra, João da Silva e Gaspar Dias não tivessem perecido na viagem que Fernão Magalhães empreendeu no primeiro quartel do século XVI.

  Mas se as vozes desses companheiros de Magalhães por cá não se ouviram , ouviam-se agora algumas referirem-se a uns homens que arribaram à Barra, lançados por piratas holandeses borda fora. A natural curiosidade moveu os residentes ao seu encontro e, acolhendo-os e acompanhando-os numa missa de acção de graças por se terem salvo da morte na então já existente Igreja da Misericórdia, ignorariam certamente que nessa ano de 1645 a Vila de Santa Cruz recebia um dos maiores vultos da língua portuguesa, o Padre António Vieira.

  Ao dirigir-se da Barra para o centro da vila passou pela cruz que agora ilustra o selo comemorativo que hoje aqui se apresenta, cruz que, diz-se, mandada levantar por António de Freitas em 1520 e durante os seus quase cinco séculos de existência ali se tem mantido alimentando a imaginação de histórias díspares quanto à sua origem e natureza.

 Já grandes transformações a essa altura se haviam verificado, o Padre António Vieira vem encontrar duas ermidas no cimo do monte já denominado então de Nossa Senhora da Ajuda por uma delas ser dessa invocação e a outra de S. João. Quarenta anos antes já os franciscanos chegados a pedido da população se haviam instalado e construído modesto convento e igreja.

  Não foi essa igreja nem esse convento, mas sim maiores edifícios que em 1791 Chateaubriand ao aportar a esta vila em viagem para a América, fugido à Revolução Francesa, nos refere como "edifício com varandas, cómodo e bem iluminado" onde se alojou como era hábito à altura fazer-se nos conventos. Embora saibamos exagerada e da qual aliás posteriormente se retratou a frase do político francês afirmando "sem exagero, me parece que metade da Graciosa era povoada por frades e que, outra lhe pertencia por ternos laços" não nos é difícil imaginar a paisagem da nossa vila salpicada frequentemente pelas vestes franciscanas quiçá misturadas aos capotes negros com que se resguardavam as damas santacruzenses.

  E assim os tempos corriam e palpitava a Vila de Santa Cruz ao ritmo certo e preciso das estações entrecortado pelos sustos de algum sismo e pela apreensão perante a chuva que nem sempre chegava quando devia nem nas dozes mínimas necessárias a um ilha com poucas fontes naturais levando por vezes à espera ansiosa de barcos com água vinda da Terceira e a um permanente cuidado de manutenção, melhoramento e construção das estruturas daquilo a que podemos



com poucas fontes naturais levando por vezes à espera ansiosa de barcos com água vinda da Terceira
chamar arquitectura da água. Os pauis foram ao longo de toda a história da nossa vila objecto de cuidados, melhoramentos e mais tarde até de embelezamento pois sentiam-nos, a nossa gente, como fulcrais à agricultura que as sustinha e aos olhares que buscavam o belo naqueles espelhos de água. Hoje, de grande interesse estético, atravessam a pior fase da sua existência almejando as nossas gentes que daqui a 25 anos ao comemorarem-se os 550 anos de elevação a Vila de Santa Cruz possamos a eles nos referir com sentimento afastado da tristeza que agora nos causam.

 Mas se faço referência à água e às inúmeras estruturas que ao longo dos séculos foram construídas e conservadas  ser-nos-á fácil  imaginar a azáfama que iria, na última metade do século XIX lá para os lados do atalho onde mestres, cabouqueiros, pedreiros e trabalhadores indiferenciados se afadigavam na construção do fabuloso tanque no terreno doado por Raimundo Martins Pamplona Corte Real que aguarda hoje utilização diferente da de então e que urge equacionar.

  E a nossa vila continuava naquele respirar certo e pausado, próprio das regiões insulares podendo ver-se crescer um após outro durante o século XIX os edifícios mais imponentes que emolduram o largo do Rossio.



Quando naquele 28 de Setembro de 1818, o barco aportou em Santa Cruz

  Quando naquele 28 de Setembro de 1818, o barco aportou em Santa Cruz talvez ninguém ou muito pouca gente esperasse ver desembarcar tantos negros que do Brasil chegavam trazidos por Timóteo Espínola de Sousa Bettencourt que deles tinha feito músicos duma filarmónica que após se alojarem na sua casa do Arrabalde logo partiram para festa de S. Miguel Arcanjo. Imaginem o toque algo diferente dado à paisagem humana da nossa vila com esses negros sabedores de vários ofícios e que por cá se mantiveram durante dois anos.

  Enquanto por aqui, na nossa vila de Santa Cruz, os tempos corriam iguais a as ideias serenas agora que a filarmónica dos pretos mais não era que memória donde sobressaía o facto dos seus instrumentos musicais não terem voltado ao Brasil mas antes jazerem nos fundos da baía da Barra mas também faúlha a atear o gosto pela criação de similares conjuntos que até hoje se mantém, noutras paragens do território português acendiam-se fogos que opunham dois irmãos e mais que isso duas concepções de organização política dos povos.

  Estalavam então as lutas liberais com avanços e recuos para cada uma das partes mas que aqui não cabe descrever.

  



E a nossa vila continuava naquele respirar certo e pausado
Estaria serena aquela noite de 10 para 11 de Julho de 1831? Difícil saber mas a vila de Santa Cruz acordou sobressaltada por toda a movimentação que resultou na rendição do governador militar da ilha, o tenente coronel Manoel Freire de Freitas às forças fiéis a D. Maria II e à Carta Constitucional.

  O sossego que a seguir se instalou com a prisão dos oficiais miguelistas foi sol de pouca dura pois grande burburinho e reboliço de gentes poderíamos ver, se olhos retrospectivos tivéssemos para isso, varrer o lado leste do Rossio tendo como causa alguns soldados que não tinham aderido ao movimento e tendo-se evadido da prisão e em conjunto com elementos da população ("mal intencionados" dizem as vozes liberais, "grandes patriotas" afirmam os miguelistas ) tentam o assalto à casa do capitão de milícias João Ignácio de Simas e Cunha, sita à actual rua Castilho, onde muito armamento existia em depósito. O tinir das espadas cortou então o silêncio normal da vila de Santa Cruz e o capitão de milícias e seu irmão Manoel da Cunha Simas, travaram o assalto acabando os assaltantes na prisão. Diz-se que uma vida se perdeu e que o sangue manchou o chão de Santa Cruz.

  A notícia da adesão da ilha à causa liberal rapidamente se fez através do jornal terceirense "A Chronica" elogiando o facto de ser a única ilha a conseguir opor-se vitoriosamente ao absolutismo exclusivamente pelos seus próprios meios.      E lentamente a vida na vila de Santa Cruz volta ao seu ritmo próprio mantendo aquela saudável distância das grandes convulsões políticas de que os lugares isolados e pequenos beneficiam.

  Um século depois, outras políticas muito pouco liberais, trariam à nossa vila, gentes que deportadas vinham por terem tido a ousadia de dizer não ao ditador de Santa Com ba. Para muitos dos vivos com mais idade ainda será memória mas, para os outros, penso não ser muito difícil um exercício de imaginação que nos leve a entender quanto de curiosidade mesclada de  receio pautou as relações da população de Santa Cruz com estes novos e forçados habitantes. E quando, em 1939, foram as pedras das calçadas desta vila  pisadas por agente secreto da então PVDE seriam em relatório relembrados de forma condenatória aqueles que de algum modo com esses deportados se relacionaram.

  O tempo corre cada vez mais próximo e a nossa viagem imaginária torna-se mais real porque os factos agora mais recentes fazem, muitos deles,  parte do espólio das recordações de muitos de nós.

  



Cada vez mais Santa Cruz estava menos distante do mundo
Cada vez mais Santa Cruz estava menos distante do mundo, cada vez menos os acontecimentos eram motivo de espanto das nossas gentes. Mas a capacidade de deslumbramento não se esgota e, naquele Abril de 1925 começam a chegar a Santa Cruz vozes vindas dos lados da Vitória, contando que na baía do Calhau Miúdo havia encalhado um navio italiano de nome "Mazzini" no primeiro dia do mês. Talvez ensombrados pela dúvida, por a data apontada ser propícia a brincadeiras de mentiras inocentes, começam os santacruzenses, utilizando os mais variados meios de transporte, uma movimentação rumo à baía do Calhau Miúdo para tomarem directamente conhecimento da invulgar ocorrência, regressando a Santa Cruz com relatos a fazer àqueles que lá não se puderam deslocar e povoando a nossa vila com objectos dos mais variados que ao navio naufragado iam sendo subtraídos.

  Viveu Santa Cruz o cinzentismo dos anos 30, 40 e 50 do século XX de forma semelhante à maioria das vilas do nosso país, iniciando a sangria da emigração no desconhecimento de que a década seguinte lhes traria uma guerra, longínqua no seu teatro  mas bem próxima nos seus efeitos de mortes e estropiamentos.

  E em Novembro de 1967 a morte invade Santa Cruz vinda do mar. O regresso de mais uma saída para a caça ao cachalote que há longos anos marcava a existência dos habitantes da vila tanto pelo reforço económico que fornecia a muitas famílias como pela presença que a toda a gente impunha nas bandeiras hasteadas no Monte de Nossa Senhora da Ajuda e nas correrias pelas ruas em direcção ao porto de onde os botes partiriam, saldou-se, nesse dia, em grande desastre que a vida roubou a seis homens. E aí Santa Cruz vestiu-se de luto.

  O tempo tudo apaga e várias vezes depois, de festa se vestiu e numa delas para fazer luzir nas suas ruas em 1986 um grandioso e festivo cortejo comemorativo dos 500 anos da sua elevação a vila. Vinte e cinco anos volvidos aqui estamos.


a nossa viagem termina e fica-nos aquela sensação de incompletude

  E a nossa viagem termina e fica-nos aquela sensação de incompletude, de que abusámos demasiadamente da subjectividade e da vossa paciência e da distância que vai entre o conseguido e o sonhado. Mas o sonho que foi nosso é diminuto junto ao sonho e labor com que durante cinco séculos e um quarto homens e mulheres sonharam dando forma a esta vila que agora temos. E se ao passearmos pelas suas ruas disso não nos esquecermos e a concebermos como algo de vivo e dinâmico da qual somos elemento, então poderemos acreditar que a merecemos.

 

Santa Cruz da Graciosa, 11 de Agosto de 2011*

(na apresentação do Selo Comemorativo dos 525 anos de vila)             

Manuel Jorge Lobão