Graciosa Online

De que falamos quando falamos em povo açoriano?



Diz-se, com ironia, que o açoriano resulta do tal português povoador que passou tão mal de viagem que não teve coragem de voltar para trás...

O que é indiscutível é que esse primeiro povoador é um outro Robinson Crusuoe, ou seja, é um outro náufrago que vai lutar pela sua sobrevivência e pela sua subsistência, é um homem despojado que tem de refazer a sua vida a partir do nada.

Não nos esqueçamos que o início do povoamento das ilhas açorianas foi extraordinariamente penoso e difícil. Quando cá chegaram, os primeiros povoadores apenas encontraram mato cerrado e milhafres (e não açores, segundo se julga). Foi preciso fazer queimadas, desbravar o solo, ensaiar as primeiras culturas, garantir as subsistências. Foi também preciso reagir às tempestades, às intempéries ciclónicas, aos sismos e a muitos outros perigos. E tal só foi conseguido com um grande espírito de entreajuda e de solidariedade entre as pessoas.

É, por conseguinte, este povoador que, fortemente marcado pela geografia, dará origem ao povo açoriano.

O fenómeno da insularidade deixou marcas profundas no espírito dos açorianos. Mais de cinco séculos de isolamento físico, de contacto permanente com o mar, de horizontes finitos, de cataclismos vulcânicos, de uma religiosidade que foi gerada no terror sagrado de sismos e vulcões são factores que marcaram e moldaram definitivamente o modo de ser, de estar, de pensar e de agir do povo açoriano.

Somos, antes de mais, produto da geografia. E foi essa influência do meio geográfico no espírito dos açorianos que levou Vitorino Nemésio a criar, em 1932, o conceito da "açorianidade" (por decalque de hispanidad, conceito criado por Miguel de Unamuno). Ficamos, aliás, a dever ao autor de Mau Tempo no Canal a emblemática frase: "Para nós, açorianos, a Geografia vale outro tanto como a História".



o açoriano já não é mais o minhoto ou o alentejano que para cá veio nas naus do povoamento
Entendamo-nos: os Açores são de Portugal e a sua cultura é inseparável e indissociável de dois milénios e meio de civilização europeia, nove séculos de história portuguesa e mais de cinco séculos de vivência nestas ilhas. Mas a verdade é que, passado todo esse tempo, o açoriano já não é mais o minhoto ou o alentejano que para cá veio nas naus do povoamento; não é mais o berbere ou o flamengo - é, sim, a mistura do fidalgo lusitano com o escravo moiro; do judeu tornado cristão-novo com o artesão da Flandres; do espanhol conquistador com o aventureiro sem eira nem beira e, também, o descendente acidental do corsário inglês ou argelino.

Hoje os Açores são valorizados pela sua vocação atlântica e pela sua importância geo-estratégica. "Os Açores são um porta-aviões de 600 km tantos quantos separam Santa Maria do Corvo", escreveu Nemésio em Corsário das ilhas. Mas estas ilhas não são apenas o umbigo do Atlântico, ou a sentinela avançada da Europa no meio do Atlântico. Sendo um dos últimos redutos do medievalismo português e europeu, os Açores são, nos tempos que correm, um cais aberto ao mundo e constituem um espaço de cultura(s).

Lembremos que o povo açoriano é herdeiro de uma tradição cultural que começa por ser poética e musical (poesia trovadoresca, cantares de gesta medievais) e que, depois, é histórica, sociológica e mítica.

É toda esta riqueza que faz com que o povo açoriano (expressão que os novos colonialistas querem retirar da Constituição) seja um povo historicamente definido, dotado de um imaginário e de uma memória, possuidor de uma cultura e de uma identidade próprias. Só quem desconhece de todo a tradição histórica e literária dos Açores e anda muito distraído é que poderá pôr isto em causa.

Victor Rui Dores