Graciosa Online

José Ávila



Apresentação
  2012-01-10

A abordagem deste tema terá uma formatação simples e tratará o assunto mais pela perspetiva de como a minha geração viu e vê estes nossos concidadãos, sem grandes recortes históricos ou formalismos literários. O ser humano tem a memória curta, já sabemos, mas é nossa obrigação, pelo menos cívica, de reconhecer e lembrar as contribuições que mulheres e homens deram para que possamos todos usufruir de um futuro melhor.



Manuel Barcelos 1916-1989  2012-01-17

O senhor Manuel Barcelos foi um empreendedor com visão de futuro. Perante as dificuldades da altura em que viveu, soube erguer uma conserveira, que primeiro se instalou no edifício da Casa do Povo da Praia e depois foi transferida para uma fábrica construída de raiz, na Rochela onde está hoje sedeada uma empresa de construção civil. Estava dotada de equipamento moderno e uma boa rede de frio. Construiu também uma frota de vários atuneiros, com uma capacidade apreciável para capturas de atum...



Luíz José Coelho 1925-1995  2012-02-01

Naquele tempo, quase ninguém tomava decisões sobre equipamentos, motores ou automóveis, sem receber a sua "aprovação" e, claro, de forma gratuita. Luíz José Coelho foi um homem multifacetado que deu muito de si e do seu saber aos outros, por isso tem lugar cativo na galeria dos Graciosenses que se destacaram...



Gaspar Cordeiro 1952-2011   2012-02-15

A música era uma das suas grandes paixões. Foi trompetista na Filarmónica Recreios dos Artistas, onde tocou com o pai, um tio e um irmão. Tocou guitarra e deu a voz nos conjuntos Selvagens do Rimo e Ritmo 2000, com quem gravou dois discos, Terra de Gente e Mar e Ritmo 2000 ao vivo nos Estados Unidos. Andou ainda muitos anos a animar os bailes de carnaval tocando no conjunto do Graciosa Futebol Clube...




Oriolando Silva 1938-2008  2012-02-29

Era um eloquente orador e, nessa qualidade, era convidado com muita frequência para dissertar em cerimónias públicas, efemérides ou lançamentos literários. Defendia os ideais de esquerda. Esta era a sua posição política que, no verão quente de 1975, lhe terá causado alguns dissabores, que soube enfrentar com coragem e determinação, rendendo-lhe, mais tarde, o respeito e admiração quer dos companheiros quer dos que não pensavam como ele...

 

Edmundo Ribeiro 1910-1987  2012-03-14

A tenda do senhor Edmundo, como era conhecida a sua oficina, funcionava, também, como ponto de encontro de muitos Graciosenses. O chão era de cimento frio, que contrastava com o calor humano que reinava naquele espaço. Nas paredes viam-se alguns cartazes amarelados pelo tempo. Tinha um banco corrido num dos lados onde se sentavam todos aqueles que procuravam saber as novas, que, naquele tempo demoravam a chegar, trazidas pelos frequentadores e clientes que eram também os seus amigos. Num dos cantos ficava uma cadeira de vimes, mais confortável, que estava informalmente reservada ao Dr. Gregório ou ao Comandante Silveira, duas figuras de referência que não dispensavam uma presença diária naquele espaço...



Firmínio Rodrigues 1931-2005  2012-03-28

A manobra não terá corrido como se esperava. O Cristovão Manuel, empurrado pela onda na carreira da Barra, terá ultrapassado a Estefânia Correia. O mestre José Vieira Goulart, oficial do bote, prevendo o desfecho, ainda tentou a todo o custo aguentar o leme em direção a terra, mantendo o bote na esteira da onda. Não dava tempo, era preciso cortar o cabo. Correu por cima dos bancos de machado em punho, mas era tarde demais. O cabo esticou e o bote voltou-se com os seus sete tripulantes a bordo. Não é difícil imaginar o pânico daqueles homens que, embora habituados às condições adversas do mar que lhes dava o pão, terão sido apanhados de surpresa, no início daquela noite de novembro de 1967.



Gui Louro 1936-1982  2012-04-11

Sei que foi o senhor Gui, presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa da altura, que chamou à atenção de todos os presentes e daqueles que viram através da televisão, como eu. Fez um discurso interrompido, de quando em vez, por silêncios em que fartas lágrimas escorriam pelo seu rosto. A emoção tomou conta de muitos dos presentes, que, naquele momento, também sentiram um aperto no peito. Foi a intervenção, de corpo e alma, de um homem que representava o seu povo num momento histórico em que se rompia definitivamente com um isolamento de séculos. O próprio primeiro-ministro referiu esse momento com uma contida emoção.




Brivaldo Santos 1895-1984   2012-04-25

No início dos anos vinte resolve abrir uma pensão. O Carapacho foi local escolhido para instalar o primeiro estabelecimento do género na ilha, impelido pelo despertar da procura das águas "milagrosas" daquela zona. Não deve ter sido fácil empreender tal estrutura num local que, na altura, era de difícil acesso. Em 1924 inaugura a Pensão Graciosa, na casa da família do senhor José Araújo. É nessa altura que a sua cozinha ganha fama. Passaram por lá excelentes cozinheiros como o Carlos Pereira Valentim ou o Caetano Álvaro da Cunha. Consta que este último terá sido convidado a ir até Lisboa pelo Presidente da República de então, General Craveiro Lopes, aquando da sua visita a esta ilha em julho de 1957, precisamente por ter gostado do que comeu.



Francisco da Cunha 1939-1987  2012-05-10

Esteve envolvido na elaboração de um projeto para a construção de uma nova e moderna embarcação, que chegou a apresentar e a discutir em várias assembleias gerais da empresa. As vicissitudes da vida desta empresa levaram-na noutro sentido. Em setembro de 1992, alguns anos depois da morte do senhor Francisco, o velhinho Espírito Santo, embora abrigado no interior do porto da Praia da Vitória, não conseguiu resistir às tempestades Boney e Charlie, que assolaram a Região quase em simultâneo, acabando por naufragar, desta vez de forma irremediável.




António Maria da Cunha 1918-2000  2012-05-23

O senhor António Maria veio à porta e ouviu da boca do aflito dono da "Caiada" a descrição do problema. Este ordenou que procurasse mais alguém para os ajudar e foi trocar o pijama por roupa quente e um fato de água, pois a noite não estava para brincadeiras e ainda por cima podia ser longa. De seguida mete-se na sua carrinha Peugeot, que mais parecia uma farmácia ambulante, e põe-se a caminho da pastagem do João, lá para os lados da Serra Branca. Depois de algumas injeções e de várias manobras, lá acabou por nascer o bezerro da "Caiada", aparentemente saudável. Já passava das três da manhã.



Diógenes da Silva Lima 1920-1988  2012-06-06

Em 1954 compra um chassis de um autocarro e trá-lo até à Graciosa no navio Lima. É colocado num batelão em Santa Cruz, mas devido à fraca capacidade do pau de carga do porto, esse batelão é rebocado por uma "gasolina" baleeira até à Praia, onde finalmente é descarregado para terra firme. A carroçaria é feita na Graciosa pelos irmãos João e Manuel Machado, em madeira e forrada posteriormente a alumínio. Até os estofes eram feitos cá. Esta opção pela importação de chassis tinha a ver com a inexistência de meios para descarregar um autocarro completo.

 

Cristovão Martins 1959-2004  2012-06-20

Lembro-me de ver o Cristovão construir o seu Rivoli. Quando subia a Avenida Mouzinho de Albuquerque, em direção a casa, entrava naquelas obras, observava a evolução dos trabalhos e via o entusiasmo que o Cristovão e a Rosa emprestavam a este seu projeto. O Rivoli era muito pequeno. A entrada dava para o corpo principal, em forma de L. À esquerda tinha um exíguo reservado, ao fundo, por trás do pequeno balcão, situava-se a cozinha. As casas de banho ficavam ao lado do balcão. O estabelecimento era forrado a madeira o que, em conjunto com a ténue iluminação, dava um ambiente acolhedor.




Valter Melo 1934-2011  2012-07-04

O senhor Valter Melo era daquele tipo de pessoas que não deixava ninguém indiferente. Muito alegre e sempre bem-disposto o senhor Valter destacava-se naturalmente em qualquer grupo, por ser o centro de todas as atenções. Tinha uma enorme facilidade para contar uma história e fazia humor a partir de uma qualquer banalidade. Conseguia arrancar gargalhadas dos amigos com muita facilidade, mesmo com histórias que a partir da boca de outros não teriam piada nenhuma. Estava sempre pronto para participar em convívios com os amigos que, normalmente, acabavam com ele a cantar músicas do reportório popular, sempre acompanhado pelo seu cunhado Serra, de quem era, também, inseparável amigo.



Juvenal Teles 1923-1996  2012-07-18

O senhor Juvenal começou a trabalhar naquele estabelecimento quando tinha apenas 15 anos de idade, logo a seguir ao seu exame da 4ª classe. Interrompeu esta atividade aos 19 anos para cumprir o serviço militar no Batalhão Independente de Infantaria nº 17, onde recebeu um Louvor. No seu percurso foi ganhando competências e estatuto. Passou a fazer domicílios para aplicação de injeções e tratar de feridas dos doentes acamados, fazendo-se deslocar primeiro de bicicleta, depois de mota e depois de carro. Mais tarde destacou-se na manipulação dos químicos que compunham muitos dos medicamentos que dali saíam. Fez também a contabilidade do estabelecimento.



Tomaz de Sousa da Luz 1922-1977  2012-11-16

Habituei-me a ver o senhor Tomaz num frenético vai vem nos dias de navio em Santa Cruz. Era ele que coordenava, a partir do Cais Novo, a ida e a vinda dos batelões, que, rebocados pelas lanchas, se encostavam no bojo dos navios e aguardavam pacientemente, baloiçando ao sabor das ondas, as mercadorias que eram arriadas suavemente pelos paus de carga existentes a bordo. Era dele, da sua experiência e sabedoria, que dependia a eficiência desta operação tão importante para a economia da ilha.




João Silveira Bettencourt 1896-1980  2012-11-30

Em março de 1926 o Tenente João Silveira Bettencourt decide revoltar-se devido à situação social do país e aos desentendimentos existentes entre os partidos políticos de então. Os revoltosos instalam o seu quartel-general na Travessa do Salitre. Os comandos revolucionários são constituídos pela Companhia da Estrela da Guarda Nacional Republicana, a Companhia das Janelas Verdes, a Companhia de Alcântara e a Secção de Metralhadoras Pesadas, comandadas pelo Tenente João Silveira Bettencourt.



Manuel da Ajuda 1943-2007  2012-12-14

Desde o início que o Manuel da Ajuda tocou nas danças do senhor Francisco Sampaio. Foi membro do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Praia. Tocava também em grupos de Reis pelos caminhos da Graciosa, visitando, nas frias noites de inverno, as casas em festa, espalhando alegria e boa disposição a quem os recebia. Era também muito solicitado para animar os bailes de carnaval com as modas de viola. Em 1988 participou num concerto com 24 violas da terra, na freguesia de Guadalupe, dirigido pelo incontornável Padre Simões Borges. Era agricultor de profissão. Vivia do rendimento que lhe dava o gado bovino que pastoreava nas suas terras.



Gabriel Melo 1923  2012-12-28

O surgimento do clube teve uma pequena história. O senhor Gabriel e um amigo, depois de autorizados a utilizar a casa de sua mãe para bailar, preparavam-se para proceder às respetivas limpezas na manhã seguinte. Durante a noite o senhor Gabriel pensou que seria do agrado da população a freguesia poder dispor de um clube definitivo e identifica a atual sede como um dos melhores sítios para a instalar, mesmo estando sem soalho e um pouco degradada. Nessa manhã e antes de procederem às limpezas na casa de sua mãe, conforme estava combinado, seguem até casa do procurador e fecham o negócio por 40 contos. E foi com este impulso que o Clube Central e Recreativo de Guadalupe é fundado a 31 de julho de 1955.



José Gil de Ávila 1908-1987  2013-01-11

Era naquela oficina que vi fazerem piões que depois comprava para jogar com os meus amigos na escola ou na praça. Bocados de madeira amorfos iam-se enformando à custa da rotação do torno e da mão ágil do mestre José Juventino. Foi também nessa carpintaria que vi construir o meu primeiro carro de ladeira que utilizei em inúmeras brincadeiras durante vários anos da minha infância. Dizem aqueles que o conheceram bem que gostava de fazer duas coisas na vida: trabalhar e tocar viola da terra. Só era visto de duas formas, ou curvado sobre a sua bancada ou então carregando a sua viola.



Manuel Gregório 1902-1986

Dava uma volta à ilha diariamente, com ele ao volante enquanto a sua saúde permitiu, ou então conduzido por alguém amigo depois de deixar de conduzir. Confessava que nesse passeio via sempre algo que lhe escapara nas vezes anteriores. Eram conhecidas as suas paragens, na companhia do Comandante Silveira, para ouvir o chilrear de um determinado pássaro que, segundo eles, os presenteava com uma exibição sempre à mesma hora. Já na fase final da sua vida cheguei a ter o privilégio de passear com ele e de ouvir as suas histórias e vivências contadas na primeira pessoa, com a sua inconfundível voz afável. 



Renato Neves 1936-1988


Via o Renato todos os dias, saltitando entre o quiosque da Praça Fontes Pereira de Melo e os baixos da casa do senhor Belchior. Era nesse dois sítios que estava quase sempre. O único ofício que lhe conheci foi o de engraxador. Com um banco e a sua caixa, que servia para arrumar os utensílios da profissão e de base para colocar o pé com o calçado à espera de atenção, procurava os clientes, sobretudo aos domingos, na Praça Fontes Pereira de Melo, para lhes dar brilho nos sapatos. Enquanto limpava, dava graxa e polia, o Renato conversava com os seus clientes, que eram todos seus conhecidos, sobretudo sobre futebol.

 

 

 

 

 

José Ávila