Graciosa Online

Júlio Mendonça



Mel Gibson a Presidente!   2012-03-16

Não, não é apenas a política que se deixou levar pelas guerras de poder, de notoriedade, de privilégios ou pela crescente procura de analgésicos contra as feridas do orgulho. Deponham-se as armas, as máscaras e os apitos. E, num momento hollywoodesco, afirme-se com convicção Mel Gibsoniana que nos podem tirar metade do salário, os subsídios de férias e de natal e as reformas, mas não nos podem tirar a nossa liberdade (de agir e de cooperar).



O bom, o mau e o Padrinho...  2012-03-23

O único problema é que a única forma de o conseguir num país que já pouco produzia foi cortar a fundo em tudo o que fosse despesa, e esperar que a fada aumentasse as receitas. Resultado? (não deixem as crianças ler esta parte) As fadas não existem pah!! Acabámos por ficar com um buraco do tamanho de umas vinte ou trinta Madeiras e cada vez mais dependentes dos estados "centrais" da União Europeia e dos dólares de Eduardo dos Santos e Família Lda. Não só das suas "ajudas", mas também de tudo o resto, já que hoje cada vez menos se trabalha, cada vez menos se produz num Portugal de mão estendida e sem amor-próprio.  



"Ser ou não ser [do Braga], eis a questão"  2012-03-30

Infelizmente, penso que vivemos na era do ressentimento. Isto acontece, pelo menos em parte, porque já não conseguimos (nem nos deixam) acreditar na revolta e nas revoluções, pelas razões que todos conhecemos e que também envolvem outros dois famosos bigodes. Deus "morreu" (tal como Jesus no final desta época) e deixou ao homem a responsabilidade de criar o seu próprio mundo. Não tendo resultado os grandes projectos (comunistas, fascistas e neoliberais) do século XX, é tempo de dar oportunidade às pequenas acções e às boas - embora insignificantes - ideias. Se o Braga consegue ser primeiro, nós também conseguimos.



Muros de pedra   2012-04-06

Existem três tipos de asneiras. A saber, as insignificantes, as pechinchinhas e as verdadeiras asneiras. As primeiras são aquelas que facilmente se perdoam. As segundas, por seu lado, são feitas com um sorriso maroto nos lábios, como quem bebe mais vinho de cheiro do que devia ou quando se prepara meticulosamente uma partida a algum amigo. Por fim, as verdadeiras asneiras são aquelas que não lembram nem ao menino Jesus, como algumas respostas dos concursos televisivos ou certas façanhas do Youtube que resultam terrivelmente mal.




O fim da reforma antecipada das palavras...   2012-04-13

Por entre esta revolta que se sente mas não se diz, se um Eugénio de Andrade confessasse que hoje lhe "dói esta solidão de pedra escura" onde "cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas", olhariam para ele com desdém, já sem o halo da predestinação, como quem olha um louco. E sem qualquer pudor, diriam: vai trabalhar e deixa-te de coisas.




Ao fim-de-semana? Karaoke!!!  2012-04-28

E vinque-se este ponto: não é a possibilidade de irmos a outros sítios de carro ou de ter um programa cultural alargado que traz a felicidade e preenche a vida. Nada está mais longe da verdade. É o companheirismo, a amizade, a convivência e as relações de confiança entre as pessoas que tornam a vida mais rica e que dão ao ser humano uma razão de existir. Pode não ser suficiente, mas é condição fundamental. É também por isso que o espaço rural começa a ser visto com outros olhos. Temos maior liberdade e autonomia nas grandes cidades? Claro que sim! Mas de que serve essa liberdade se não temos por perto alegres cantadores e dançarinos Graciosenses com quem a partilhar?




Serei Portuense? (Diário pessoal...)  2012-05-21

Mas foi por entre essa juventude transbordante que me fui apercebendo que havia ilhéu em mim. O mar sempre me fez falta. O olhar dos outros sempre me fez falta. O silêncio sempre me fez falta. Mas não era só isto. Havia algo que não batia certo, que desafinava, algo que até hoje não estou certo de poder descrever por palavras. No entanto, tenho esse sentimento bem definido na memória. Quando hoje digo que gostaria de ficar na Graciosa, é desse sentimento que me lembro e ao qual procuro fugir a sete pés e pelo menos uns quantos pares de braços.



A procura do que nunca se escondeu...  2012-06-18

E o que fazer então com a injustiça, com a corrupção, com a depressão? Gosto da ideia de um senhor de barba rija que defende que a depressão, a inacção, é a única forma de luta que resta aos excluídos de uma sociedade de massas em constante competição (até ao ponto em que a massa fica demasiado cozida e se transforma em papa), uma sociedade em constante rivalidade e em permanente renovação estética, tal qual distopia Orwelliana. Mas não está aí a solução, pois claro. Como já antes disse, na minha pouco humilde opinião, a solução está em procurar os problemas certos e resolvê-los. Os outros problemas têm a infeliz característica de não possuírem solução.


O pequeno ditador barbudo  2012-07-06

Proibia-se então a televisão, ou racionava-se o seu consumo a uma hora diária por família, censurando todos os canais menos o Caça e Pesca, pois quem vive numa ditadura não precisa de saber as notícias. Em troca, o PDB construiria um Planetário gigante, para que os Graciosenses pudessem admirar, mesmo em noites de nevoeiro, o excelente céu estrelado que é privilégio de locais isolados como o nosso. Menos televisão e as pessoas passariam menos tempo em casa e mais tempo a admirar esta bela ilha! Como disse Thoreau, o gosto pelo belo é na sua grande parte cultivado ao ar livre.



A filosofia do canudo - prós e contras  2012-10-01

Diga-se em bom da verdade: temos a sorte de viver numa época de profunda transformação social. Crise significa necessidade de mudança. Mas temos também muito azar na nossa sorte: o de sofrer na pele os efeitos de uma sociedade que, na sua ânsia de anunciar o fim da história, esqueceu-se de planear o dia de amanhã. Abandonaram o campo e os camponeses, as fábricas e os operários, o saber popular e os artesãos de mãos tão enrugadas quanto sapientes. Todos felizes seguimos a cantar, com o Sérgio, "Arranja-me um Emprego"...



Carta Aberta à Disneylandia  2012-12-07

Não vamos pagar esta dívida (ponto final). Podíamos renegociá-la já, podíamos exigir uma moratória das prestações que pagamos e que nos permitisse investir durante cinco ou dez anos na produção nacional. Mas não, preferimos destruir o pouco que ainda resta do nosso país, preferimos deixar que os nossos jovens emigrem, preferimos esperar que os velhos mirrem e deixem uns ossinhos para roer. E, quando já não houver dinheiro para ninguém, nem para nós nem para eles, aí sim, vamos renegociar a dívida. COMO? POR FAVOR, alguém me explique como...



Não te deixes enganar, pá!  2013-03-02

Sei que é em vão o apelo que se segue. Mas é 2 de Março, e sinto-me mal se não der o meu contributo, que nem chegará a ser pequeno, dada a sua natureza insignificante. Mas as manifestações de hoje, por mais que se agigantem, serão também em vão. Dia 3 de Março é Domingo, dia de Igreja, descanso e, principalmente, de luto, pois no dia seguinte, os políticos - sejam eles reféns ou, pior ainda, crentes e rígidas marionetas da ideologia dos mercados - tal como Jesus, renascerão e lá estarão, às oito da manhã, a caminho do seu "trabalho": roubar os Zé Ninguéns que votaram neles ou os Zé(s) que ficaram em casa em vez de irem meter na urna o seu voto insignificante.



Dicionário Vivencial da Graciosa no Séc. XXI 2013-05-23

(Acaso o corajoso leitor, chegado até aqui, constate a indevida estranheza do presente artigo, fique desde já esclarecido que a mesma se deveu ao concentrado devaneio necessário para que este vosso humilde servo tenha conseguido escrever quatro parágrafos sem referir esse inesquecível momento da nossa história nacional que foi a revelação de que o último segredo de Fátima era a avaliação da troika e, além do mais, contendo com dificuldade a alegria por finalmente se ter a certeza de o Passos Coelho ter uma costela Graciosense: tal como nós, por mais voltas que dê, vai sempre parar ao mesmo sítio - mas no seu caso, acaba sempre no bolso do povo. Tal qual Robin dos Bosques invertido, tirar dos pobres para dar aos ricos parece ser a nova moda europeia a que os nossos governantes, modernos e originais como são, desde há muito aderiram. E como até se trata de um governo democraticamente eleito, havendo ainda quem o defenda, podemos duvidar se somos ou não o melhor povo do mundo, mas a taça do mais caridoso ninguém nos tira).

Júlio Espínola Mendonça