Graciosa Online

Victor Rui Dores




Estou farto de ser apalpado
  2011-11-17 

Entendamo-nos. Nada tenho contra as novas medidas de segurança nos aeroportos nem contra os polícias ou civis que estão ali a fazer o seu trabalho. Mas tenho direito aos meus escrúpulos. Defendo, com unhas e dentes, a inviolabilidade do meu corpo! Pergunto: em nome da segurança, será mesmo justificável que eu tenha que passar pela humilhação de tirar os sapatos e de ser apalpado daquela maneira? Trata-se de uma actuação preventiva, dizem-me. Está bem, mas a verdade é que são muito ténues os limites entre a actuação preventiva e a violação do meu espaço territorial.



O palco do Parlamento  2011-11-22 

Comodamente sentados nas cadeiras do poder, os deputados vociferam, truculentos. Há mesmo quem compare o Parlamento à Praça Pública... Afirmação ociosa e falsa. É que numa Praça Pública nunca há aqueles gritos nem aqueles tumultos. E isto porque a polícia intervém. Impunemente, ao abrigo da Constituição, sem ingerência policial, uma arruaça só se pode dar na câmara dos deputados. Em mais nenhuma outra parte é permitido, pela legislação em vigor, ser-se tão excessivamente trocista e belicoso...



No aconchego do sofá  2011-11-29

Pois é. Os decisores da governação teimam em não enveredar por políticas que tenham, por base, a educação pela arte, pela qualificação e pela cidadania. E o resultado salta à vista de todos: vivemos num país que, a pouco e pouco, vai deixando de produzir homens com ideias; hoje Portugal já só fabrica tecnocratas em série, doutores e engenheiros a granel, arquitectos e economistas a eito e, sobretudo, burocratas, ó sim, muitos e desvairados burocratas...



Da profundíssima crise  2011-12-06

Sigo atentamente as notícias dos telejornais e não há dúvida: Portugal anda à deriva... Continuamos a ser aquele país que não governa nem se deixa governar. Na sua esmagadora maioria, o português é passivo e complacente, demite-se de pensar, de escolher, desconversa, olhando para a nossa situação de fora, como se não fosse connosco. 41% de abstenção nas últimas eleições é disso exemplo bem significativo.



Não posso ensinar a quem nao quer aprender...  2011-12-13 

Hoje sei (todos sabemos) que o insucesso do actual sistema educativo é, em última instância, o insucesso de Portugal. E, em matéria de Educação, estamos conversados: em 37 anos de democracia neste país, tivemos 29 Ministros da Educação, sendo que, destes, apenas três concluíram as suas legislaturas: Roberto Carneiro, Marçal Grilo e Lurdes Rodrigues. É óbvio que sem políticas educativas estáveis e sustentáveis não se vai a lugar nenhum e as mudanças serão sempre do mesmo para o mesmo...



Almeida Garrett na Terceira e Graciosa...  2011-12-20

E é na Graciosa que João Baptista escreve os primeiros versos, já reveladores do seu talento de homem de letras. Segundo a tradição oral, o futuro escritor apaixonou-se por uma donzela graciosense, de nome Lília, a quem escreveu várias odes, mais tarde publicadas no livro Os primeiros versos de Garrett (Porto, Livraria Magalhães e Moniz, 1902), de Mendo Bem, a partir do manuscrito original que Garrett oferecera ao graciosense Francisco Homem Ribeiro, intitulado Odes Anacreonticas compostas e offerecidas ao senhor Francisco Homem Ribeiro por J.B.S.L. seu menor criado - Graciosa.



Lembranças do meu Natal menino  2011-12-27

Não esqueço os primeiros amores intempestivos... As deliciosas brincadeiras proibidas... A Escola e as reguadas impiedosas do professor Louro... As missas do padre Genuíno, a cintilação do sacrário, a talha dourada do altar-mor, o pau preto da sacristia, as jarras de porcelana, os lustres de cristal... As intermináveis tardes de solfejo... Schmoll e o matraquear do velho piano...A cisterna de água fresca e límpida...As alegrias do cinema.... As minhas tias que me davam afectos, bolos e inesperados afagos... Os primeiros poemas e os vagos desejos de celebridade literária... Ambições enevoadas... Felicidades indefinidas...



O Princípio da incompetência 2012-01-02

Porém, a realidade é infelizmente outra: continuam a proliferar os compadrios e surgem, inevitavelmente, os carreiristas, os oportunistas, os camaleões... É preciso muito cuidado com os D. velhacos, pois todos sabemos, pela fábula, o que aconteceu à rã por querer encher-se de vento e transformar-se em boi... "Não vás sapateiro além da chinela", diz a sabedoria popular no que poderia ser uma versão outra do "Princípio de Peter".



Dos Açores ao Brasil  2012-01-10

Viajar é, para mim, uma forma de pensar. Por isso viajo não para ver paisagens, mas para captar atmosferas. E ainda sinto o cheiro do "Petisco da Vila" e o sabor da cerveja que bebi no mítico café "Garota de Ipanema". Para além do Rio de Janeiro, andei por São Paulo, Campinas, Curitiba (a mais europeia das cidades brasileiras) e Santa Catarina, em cujo Estado existe actualmente um milhão e quinhentos mil descendentes de açorianos.



Na rota de Frankfurt  2012-01-17

O grande patrono de Frankfurt é um seu filho predilecto: Goethe, escritor celebrado em cada esquina. (Assim soubéssemos nós promover, em Portugal, o nosso malogrado Camões...). Os alemães são soberanos e imperiais, quase frios. Contrariamente ao que muita gente julga, nem todos são altos e loiros e nem todos possuem olhos azuis... Mas contemplam, do alto da sua serenidade, um ilhéu nómada como eu que ousa dizer-lhes que é germanista - coisa tão fora de moda nestes tempos de massificação e globalização.



A segunda morte de Antero de Quental  2012-01-24

Custaria, sobretudo, ao poeta filósofo aperceber-se que outras formas de medievalismo, de senhorialismo, de censura, de repressão inquisitorial, de fanatismo e despotismo continuam a existir no Portugal dos nossos dias. Antero haveria de reescrever a gritante actualidade da sua palestra "Causas da decadência dos povos peninsulares", para nos lembrar que a submissão dos portugueses aos princípios cristãos condicionou sempre o seu desenvolvimento social, económico e cultural.



Nomes próprios recolhidos na ilha Graciosa  2012-01-31

De há muito que venho recolhendo, na ilha Graciosa, nomes próprios em desuso e que denotam origem arcaica, bíblica, toponímica e sobretudo brasileira (fenómeno de mimetismo cultural ocorrido, na ilha branca, entre finais do século XIX e primeiro quartel do século XX). Esta influência onomástica que nos chega via Brasil é uma característica original na Graciosa e praticamente única no contexto açoriano. De entre mais de uma milhar desses nomes que recolhi, fiz a síntese que aqui vai e que constitui o "top" preferencial das minhas escolhas...



Da homossexualidade na ilha Terceira  2012-02-07

Se os "maricas" ou "paneleiros" têm problemas de integração social pelos fenómenos de marginalidade que engendram um pouco por toda a parte, na Terceira pode afirmar-se que o problema assume proporções diminutas. Porquê? Porque, por um lado, homossexuais de outras ilhas açorianas escolheram a Terceira como sua casa, ou "quartel-general", ali se fixando e desenvolvendo as mais diversas actividades profissionais. Por outro, encontraram, naquela ilha, o melhor acolhimento social e ali se sentem perfeitamente integrados.



Escritores e escribas  2012-02-14

Alguém que diga a essa gente que não se pode pôr a linguagem à frente de tudo. Em literatura é necessário saber construir uma história para depois a desconstruir. Tal como em música é preciso saber solfejo antes de tocar jazz. O mesmo na pintura: antes de se avançar para o abstracto é importante passar-se pelo figurativo (Picasso é um bom exemplo disso mesmo). Ora, é este tipo de oficina, de traquejo e tarimba que me parece faltar aos nossos jovens escritores.



Do meu fascínio pelo cinema  2012-02-21

O cinema era a minha experiência de fantasia e a minha janela para o conhecimento do mundo. O senhor Belchior era o projeccionista da velha casa de espectáculos. Em noites de cinema, ele deixava-me entrar na cabine de projecção. Aquele era um espaço sagrado, onde se destacava a valiosíssima máquina de projectar, cujas entranhas causavam em mim um profundo espanto. O senhor Belchior, com gestos meticulosos, fazia deslizar a película por labirintos de prismas, espelhos, lentes, obturadores, diafragmas, rodas e rodinhas... Depois fechava a portinhola e ouvia-se o trac-trac do movimento circular da fita. Apagavam-se as luzes, rompia um sururu na sala...



Sabores e saberes da culinária açoriana  2012-03-06

Em tempo de "fast food" e num mundo globalizado, massificado e padronizado, julgo que é no peixe que, nos Açores, podemos marcar uma diferença qualitativa. Temos uma culinária tipicamente e especificamente açoriana. Mas temos mais do que isso: temos uma maneira de cozinhar, uma maneira de temperar. Temos esse segredo que não vem nos livros e que são os sabores e os saberes da mão que tempera...



Para que serve um Currículo Regional?  2012-03-13

Acho que devemos reconhecer as especificidades históricas e culturais dos Açores que mais de cinco séculos de vida insular comum sedimentaram e consolidaram. E, por conseguinte, para mim, o tão badalado Currículo Regional não é mais do que isto: aprender o universal mas sem descurar o local. Ou seja, é uma forma de mobilizar saberes culturais, científicos e tecnológicos para melhor compreender a realidade e para abordar situações e problemas do quotidiano...



As redes tecidas por Izalino  2012-03-20

A vida, sabemo-lo, corre caipora, mas ficam as inflexões do tempo, o ritmo dos costumes que ele impõe. Por detrás das redes estão sempre as mãos dos pescadores. E eu (que me criei à beira-mar) estou a vê-los: rudes e tisnados de sol, com camisolas aos quadrados, abeiros de palha encardidos, cozendo as malhas caídas, segurando nos dentes as agulhas de pau, manejando chumbadas e cortiças - com os olhos no mar e o pensamento no pescado.




Das freiras do convento de S. Gonçalo  2012-03-27

Começando por fazer referências elogiosas aos dotes das freiras do Convento de S. Gonçalo no respeitante à música, doçaria, confeitaria e licores, o marquês de Fronteira, nas suas Memórias, deixou escrito: "O convento das freiras de S. Gonçalo era um grande recurso para a officialidade dos Corpos, principiando pelo General. Todos ali tinham um derriço, como lhe chamavam, e nunca vi nada mais ridículo do que uma quinta feira de Endoenças na Egreja de S. Gonçalo. As lamentações eram applaudidas com o mesmo enthusiasmo com que são as árias e cavatinas no Theatro de S. Carlos".



A bola é minha!  2012-04-03

Hoje o futebol está ensombrado por vilões, criminosos e corruptos. Os donos da bola já não são os jogadores: são dirigentes desportivos, treinadores, presidentes de federações e associações... Tenho saudades do tempo em que os heróis eram os jogadores e havia uma verdade no futebol. Esse era o tempo em que o Eusébio marcava golos de meio campo, tinha aquelas arrancadas que deixavam os defesas para trás, e ficávamos pasmados com aquela velocidade incrível...



As titias  2012-04-10

Quando chegava a Páscoa, as tias faziam questão que eu e o meu irmão fossemos as Marias do Pé da Cruz. Vestiam-me de "Maria" e trajavam o meu irmão José de "Verónica". A gente finava-se a rir quando se via ao espelho, ante a reprovação benevolente das tias. Sabíamos que o Luciano, o Peixe-Rei e outros cegões da Barra iam fazer troça de nós... Mas as tias preparavam-nos para esses e outros incidentes de somenos importância. E caprichavam, durante dias, na costura das vestimentas, não dando descanso à velha Singer. Ajudavam-nos a aprender a melodia do vos omnes e a decorar o latinório... E ensaiavam toda a movimentação cénica.



Naufrágios e outras assombrações  2012-04-17

Mas não se naufraga só por mor de tempestades ou de manobras mal feitas - podemos naufragar metaforicamente na mentira e no plano inclinado do boato. Mesmo ancorados na baía. É preciso segurar bem o leme. Porque há rombos nas quilhas do défice, da bolsa, da economia, do endividamento, das finanças... Portugal vive um dos períodos mais nebulosos da sua história. Os nevoeiros escondem vagalhões e outros perigos. Tal como o "Titanic" ou o "Costra Concordia", há gloriosas viagens que acabam mal. Os ventos alísios estão a empurrar-nos para a bancarrota. Há timoneiros que desconhecem o destino e tripulantes que não sabem a rota...



No Monte da Ajuda com a lua em directo  2012-04-24

Graças ao engenho técnico do sr. Ramos (que do alto do Monte da Ajuda, na vila de Santa Cruz da ilha Graciosa, sintonizava a "Base dos Americanos" e as Canárias), vi, a preto e branco, aquelas imagens irreais e etéreas: Neil Armstrong a sair do módulo lunar da Apolo XI, descendo por uma escada, a inscrever a marca da bota esquerda sobre a superfície lunar, e a pronunciar a frase que ficaria célebre: "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade". O astronauta (após espetar, no solo lunar, a estaca com a bandeira norte-americana) parecia-me uma criança em dia de festa, caminhando aos saltos, naquele mar de tranquilidade.



Da musicalidade açoriana  2012-05-01

Tudo isto me leva a concluir que teremos atualmente nos Açores a maior concentração de músicos e cantores por Km2 a nível nacional. E dou aqui apenas o exemplo das nossas Filarmónicas. Em Portugal Continental, para uma população de 10, 6 milhões habitantes existem cerca de 700 Filarmónicas. Pois bem. Nos Açores, para uma população com pouco mais de 242.000 pessoas, temos as já referidas 102. Se a matemática me não falha, isto significa que temos nos Açores 1/6 das Filarmónicas do país inteiro.



A memória magoada da guerra  2012-05-09

O aerograma que mais me impressionou é aquele em que ele dá conta do ventre esventrado do sargento Casimiro, que lhe morreu nos braços... A sua Companhia havia sido alvo de uma emboscada. Quando os disparos cessaram e tudo ficou silencioso, ele olhou em volta. Quinze militares estavam mortos e muitos outros feridos agonizavam num imenso pranto. O chão ficou coberto de corpos estropiados. Coube a Guilhermino e a outros camaradas a dolorosa missão de apanhar, à mão, os pedaços de carne e empilhá-los para, depois, os meter em sacos.



O velho piano  2012-05-15

A casa da minha infância enchia-se de música, de manhã à noite... Toda a minha família tocava piano. Até a nossa gata "Princesa", para quebrar os (poucos) momentos de silêncio, saltava para o teclado, sobre o qual se passeava altivamente, compondo estranhas melodias, para gáudio dos meus irmãos mais novos... Nesse tempo não havia televisão na vila de Santa Cruz da Graciosa e todos nós vivíamos solidários e infinitamente felizes.



Memória do "Carvalho Araújo"  2012-05-22

O "Carvalho Araújo" era para mim um navio "a sério", com aquele aspecto atarracado e pesadão que o fazia pouco estável. A sua acentuada inclinação da proa à popa chegou mesmo a preocupar a minha inocente candura. Mas tais receios foram logo desfeitos pela opinião abalizada de meu pai. Subi ao "deck" superior (que era mais alto do que a torre da igreja da vila onde nasci) e fiquei-me a olhar os "batelões", lá em baixo, que descarregavam vacas destinadas aos matadouros continentais. E havia toda aquela mecânica de roldanas, o deslize de correntes que içavam plataformas e abriam porões...



Dos foliões da Graciosa  2012-05-29

Os foliões são em número variável, geralmente três: o "mestre", ou seja, aquele que "arma" cantigas e toca tambor; o porta-bandeira, que, tal como o nome indica, transporta, ao ombro, a bandeira, sendo esta encarnada, com o emblema do divino Paracleto ao centro, bordado a branco, e aos cantos a flor-de-lis na mesma cor, tendo no cimo da haste uma pomba branca de asas abertas); e o tocador de pandeiro ou pandeireta, ou ainda "testos" (sistros, pequenos pratos metálicos). Noutras ilhas eram (e são) utilizados o violão, a rabeca e os ferrinhos. 



Por uma autonomia de cultura  2012-06-05 

Hoje sabemos que a Autonomia, em todas essas vertentes, é a solução correcta para se prosseguir um caminho português nos Açores e a forma capaz de responder aos justos anseios de liberdade e auto-governo dos açorianos. Foi preciso que acontecesse o 25 de Abril para que tal fosse possível. É que, por parte do poder central, a Autonomia foi sempre coisa mal amada e que não passava de letra morta: primeiro, pelas cortes, depois pelos governos saídos da República e, durante 50 anos, pela ditadura do Estado Novo. E, já em pleno regime democrático, houve um primeiro ministro que não morria de amores pela Autonomia e que hoje é Presidente da República...




Dos pseudo pintores  2012-06-13

Parece que, para alguns pintores, o supremo refinamento é darem a impressão de que não sabem desenhar, alegando que isso representa uma busca do ingénuo, da pureza das linhas. E chamam àquilo obras de arte... Confunde-se, deste modo, criatividade com insolência. E, despudoradamente, esses "artistas" cobram, por cada um dos seus sórdidos e grotescos quadros, a quantia mínima de 400 e 500 euros, quadros que eu nem de borla queria e nem na minha garagem ficavam bem...

 

Na cauda do sonho  2012-06-19

Consta que, em chegando a casa, o pequeno aventureiro levou tamanha tareia do pai e, assim, pagou a sua falta e resgatou a sua culpa. Mas lá corajoso foi ele. É um facto que infringiu uma data de preceitos respeitáveis: fugiu à família e à terra, foi passageiro clandestino no cubículo da cauda de um avião, fez a vida negra à polícia aérea americana, ia criando complicações à bandeira do seu país... Mas não fez nenhuma pilhagem, não roubou, não feriu, não matou ninguém, nem cometeu nenhum ato terrorista. Simplesmente foi para onde o sonho o levou. Tal como aqueles miúdos que, durante o século XIX, embarcaram de salto nas baleeiras norte-americanas a partir das ilhas do Pico e do Faial. Ou como os mancebos que zarpavam para fugir ao serviço militar.



Do teatro que se faz nos Açores  2012-06-26

O teatro que nos Açores vamos fazendo situa-se entre uma tradição e uma inovação, sendo que encenar é uma troca de experiências e vivências. E sendo também que quem está no teatro amador (e portanto ama o que faz), está no teatro não por dinheiro, mas pelos afectos, pela amizade e pelas cumplicidades. E eu que sou um modestíssimo actor amador, posso garantir-lhe, caro leitor, que não há glória maior.

Há um processo evolutivo no teatro que se vai fazendo entre nós. As exigências são cada vez maiores, pelo que há que ser amador, mas possuir uma consciência profissional. O mundo hoje está globalizado e andamos todos a ler os grande teóricos do teatro como Stanislavski ou Peter Brook. Somos todos cinéfilos e já todos sabemos o que é o Actor Studio e o que é preciso para se ser um bom actor.



De que falamos quando falamos em povo açoriano? 2012-07-03

Entendamo-nos: os Açores são de Portugal e a sua cultura é inseparável e indissociável de dois milénios e meio de civilização europeia, nove séculos de história portuguesa e mais de cinco séculos de vivência nestas ilhas. Mas a verdade é que, passado todo esse tempo, o açoriano já não é mais o minhoto ou o alentejano que para cá veio nas naus do povoamento; não é mais o berbere ou o flamengo - é, sim, a mistura do fidalgo lusitano com o escravo moiro; do judeu tornado cristão-novo com o artesão da Flandres; do espanhol conquistador com o aventureiro sem eira nem beira e, também, o descendente acidental do corsário inglês ou
 argelino.



Em defesa da cultura  2012-07-10

Vivemos hoje de resignações televisivas, reality shows, concursos, telenovelas e outros futebóis. Os nossos jovens são um produto do audio-visual. Têm dificuldade em ler um texto literário de Eça de Queiroz, mas "papam" as 500 páginas do último "Harry Potter". A Língua de Camões está a saque. Não sou purista, mas custa-me muito ouvir diariamente as calinadas no léxico e os pontapés na sintaxe...



Eu, consumidor omnívoro de livros  2012-07-17

Não, nada poderá substituir o prazer de manusear os livros, de os sublinhar, riscar, dobrar, amarrotar as suas páginas e nelas fazer anotações... É por isso que ler é, para mim, uma necessidade orgânica. Ou seja, a minha relação com os livros é física e intelectual. Gosto do cheiro do papel, do lustro ou do mate das capas, sobretudo gosto do cheiro da tinta... (Confesso: adoro snifar os livros, e, nesta matéria, o meu irmão José Elmiro é muito mais viciado do que eu). Depois há esse dado inapelável: podemos ler os livros sentados, deitados, de bruços ou de cócoras, prazeres que as novas tecnologias da informação e da comunicação manifestamente não nos dão...



Dias de Melo e a necrofilia literária  2012-07-24

Este picaroto fez da sua vida e da sua obra um acto cívico. Agora que partiu, ecoam por aí muitos e desvairados elogios, sobretudo por parte daqueles que nunca escreveram nem disseram uma só palavra sobre a notável obra do escritor enquanto esteve vivo... As litanias de exaltação surgem da pena de quem menos se esperava. Mas já se sabe: a necrofilia literária instituiu-se em Portugal. Só depois de morto é que o escritor terá a sua consagração. Ao silêncio que se lhe votou em vida corresponderá a canonização post-mortem. Sim, a morte dos escritores facilita a vida a certos estudiosos da coisa literária...



Eu, contribuinte inocente, refém do endividamento  2012-07-31

A crise internacional não explica tudo. Fomos enganados por alguns governantes e outros economistas (nanja o Medina Carreira) que nos sonegaram informação e não nos disseram toda a verdade nem a verdade toda. Resultado: com um milhão de desempregados, o meu país vive atualmente no limiar da pobreza. E porquê? Porque quem, nos últimos 38 anos nos governou, não soube ou não quis apostar na cultura, na ciência, no conhecimento e na investigação como sectores prioritários. Como é possível, caros leitores, que a cultura não esteja hoje representada no Conselho de Ministros? Mas haverá ainda alguém que duvide que um país será tanto mais rico, quanto mais rica for a sua cultura?



  Dos historiadores locais  2012-08-07

Fotos de  Gravura antiga dos Açores.Quase sempre bem documentados e informados, os historiadores locais dão, ao que escrevem, tratamento criterioso e meticuloso, eles que possuem a capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, incorporando nos seus estudos os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da investigação. Lendo algumas das suas obras, fico a pensar na imperiosa necessidade de se reconstituir uma História das Artes dos Açores. Porque foi através das artes que os açorianos deram resposta às eternas perguntas da vida.



Exposição Fotográfica de José Nascimento F. Ávila  2012-08-14

Fotografar é um acto muito pessoal e muito solitário, é quase uma forma de meditação. Por isso nada, nesta exposição, é decorativo, ilustrativo ou linear. Jogando com a ambiguidade e a subjetividade, o fotógrafo não está aqui a conceber lugares imaginários, mas a imaginar formas menos evidentes de nos dar a ver coisas que estão bem perto de nós. Por exemplo, as formas gentis da natureza em estado puro. É este o desafio que nos é lançado.



Dos faialenses e dos picarotos - algumas especulações empíricas  2012-08-21

O faialense fez da montanha do Pico objeto diário da sua contemplação estética, arranjou sempre maneira de não se esforçar demasiado, até porque tinha outros a trabalhar por ele e para ele... Além disso, convirá não esquecer que muito do desenvolvimento faialense está ligado ao contributo estrangeiro: os flamengos que cultivaram e exportaram o pastel e a urzela; a família norte-americana Dabney e os negócios da vinha, da laranja, da baleia e do apoio à navegação; os ingleses, os americanos e os alemães dos Cabos Telegráficos Submarinos, os rebocadores holandeses e o iatismo internacional que, no Faial, deixaram marcas profundas a nível do social, do económico, do cultural e do desportivo ...




Os poetas meteorológicos  2012-08-28

Para lá de um formalismo cerrado e rígido (um soneto pode estar tecnicamente perfeito e não conter poesia alguma), os versos dos poetas meteorológicos abrigam em si uma profunda indigência espiritual, quando não a mais vil petulância moralista. Retrógrados e conservadores, para eles o importante é a descrição taxativa do real: a beleza húmida da ilha, a graça dos motivos rústicos, o suave folclore que encontram no viver do povo, as maravilhosas cenas campestres, as hortênsias, a susceptibilidade do tempo atmosférico (as estafadas quatro estações num só dia), o verde dos pastos e a ternura das vaquinhas... É uma poesia que não implica, explica; que não conduz ao sonho, mas ao sono...



Um bom malandro chamado Belarmino  2012-09-04


Certa vez, e como era seu hábito, o Belarmino, iludindo a vigilância, evadiu-se da prisão e, após caminhar muitos quilómetros, chegou à Candelária. Nesse dia havia festa rija em casa do cardeal Costa Nunes. O Belarmino rondou a casa e aguardou o momento propício para introduzir-se nos aposentos, o que viria a acontecer com a maior das facilidades. Dirigiu-se à cozinha de onde retirou abundante manjar que guardou numa saca. Depois percorreu o caminho de regresso à cadeia e, sem que os guardas o vissem, entrou na cela e dividiu a comida roubada com os outros reclusos.



Que turismo para as "Ilhas do Triângulo"?  2012-09-11

Nos tempos que correm, as Ilhas do Triângulo são um apetecido e apetecível destino turístico que interessa promover e defender em benefício de todos, havendo ainda um vasto mercado a explorar. As sinergias libertadas pela cooperação entre as três ilhas poderão tornar-se num decisivo contributo para o seu desenvolvimento económico e sócio-cultural. As vantagens são mais que evidentes, quer no sector dos transportes, hotelaria e restauração, bem como na dinamização do comércio local.



A arte de ser terceirense  2012-09-18

De resto, a Terceira, ilha agropecuária, é a hospitalidade da porta aberta e luz acesa - a casa aonde chego, vou abrindo e entrando: "Dão licença"? Resposta: "É entrar p´ra dentro". Como eu gosto e me identifico com esta brava gente da fraterna simpatia: os Andrades, os Barcelos, os Bettencourts, os Bretões, os Borbas, os Borges, os Coelhos, os Cotas, os Coutos, os Drummonds, os Fagundes, os Fourniers, os Godinhos, os Linhares, os Machados, os Martins, os Mendes, os Menezes, os Monjardinos, os Noronhas, os Pamplonas, os Pains, os Parreiras, os Regos, os Rochas, os Sieuves, os Silvas, os Sousas, os Valadões, os Vieiras, entre muitas outras famílias terceirenses.



Heróis ou loucos?  2012-09-25

Iniciou-se uma luta medonha mas desigual. Os franceses fizeram a abordagem e houve luta corpo a corpo. Francisco Correia Garcia sabia que aquele era um combate perdido. Porém empunhou a espada e, perante o espanto de todos, lutou estoicamente contra os franceses. Na refrega uma arma inimiga decepou-lhe a mão esquerda que ficou apenas presa por débil tendão... E foi então que, apesar de muito ferido, o faialense, num assomo inaudito de coragem e valentia, arrancou de um golpe de espada a sua própria mão inerte e, numa atitude de manifesto desprezo, atirou-a brutalmente à cara do inimigo.



Antonina Lobão  2012-12-11

Chamava-se Maria Antonina Medina Santos Lobão e viveu de cabeça erguida, olhando de frente o sol e o mar. Repartindo-se geograficamente entre Angra do Heroísmo e Linda-a-Velha, entregava-se ao bom gosto e ao requinte do seu lar na Rua do Rego, e gozava as doçuras da felicidade doméstica no apartamento do Largo Professor Pulido Valente. Mas tinha um só endereço: morava nos olhos do marido, da filha, do filho e dos netos. Tal felicidade só foi quebrada quando a morte a surpreendeu no dia 2 de Março de 2012. O seu desaparecimento físico representou, para quem com ela privou de perto, um profundo rombo no casco deste navio em que fazemos a viagem da vida.



Noite graciosense no Porto  2013-02-21


Foi uma noite memorável perante uma assistência atenta e entusiasmada que nos acolheu da melhor maneira. A fascinante exposição fotográfica "Graciosa, quietude e pureza", do "Josézinho", foi do agrado geral e serviu de convite a uma visita à ilha branca. Ao piano, Fábio Mendes arrancou aplausos com a interpretação de "Lac de Come". E eu, ao apresentar a 2ª edição do livro "A Graciosa ilha", defendi, pela enésima vez, a nossa "graciosensidade". Fizemos uma viagem pela história, geografia, usos e costumes, presente e passado da Graciosa, lançando olhares ao ciclo do vinho, aos valores patrimoniais, à arquitetura rural, à memória fotográfica, à onomástica e às atividades sócio culturais do espaço graciosense. Deixámos bem claro que a Graciosa pode ser pequena em termos de superfície, mas é grande na sua dimensão humana.

 

Por que gosto de toiros  2013-02-25

Bem sei que, nestes tempos de acelerada massificação e de preocupante globalização, gostar de toiros é quase uma heresia. Mas fico na minha. Gosto incondicionalmente do espetáculo taurino. Encontro grandeza na festa dos toiros. Descubro, numa tourada de praça, valores artísticos, estéticos e emocionais. Vejo arte no toureio apeado e no toureio equestre. E aprecio a coragem heroica dos forcados, aquela valentia, aquele arrojo, aquele companheirismo. E divirto-me, à brava, com a festa lúdica da tourada a corda, que é hoje, na Terceira, uma forma de tauromaquia popular única no mundo. Vou aos toiros pela mesma razão que assisto a uma peça de teatro, a um jogo de futebol ou a um concerto musical: quero viver emoções.



Breve recordação do Marianinho  2013-03-28

Estou a ver o Marianinho, rostozinho lívido, covinha no queixo, olhinhos fechados num aparente doce repouso, com as mãozinhas sobrepostas, metido num caixãozinho branco forrado de cetim, com fitas brancas recaindo em pregas franjadas... À cabeceira do mortinho havia um altar, duas velas e um copo de água benta com um raminho de alecrim a servir de hissope para as pessoas se benzerem e aspergirem o infeliz.




Noite graciosense em Faro  2013-05-21

A noite graciosense em Faro teve a importância de um acontecimento memorável perante uma assistência atenta e entusiasmada que nos acolheu da melhor maneira. A fascinante exposição fotográfica "Graciosa, quietude e pureza", foi do agrado geral e toda a gente saudou a qualidade estética e a beleza plástica da fotografia do "Josézinho". Seguiu-se o lançamento da 2ª edição do livro "A Graciosa ilha", com fotografia daquele e texto meu. Defendi, novamente, a nossa "graciosensidade" e lancei alguns olhares sobre o futuro da Graciosa.


Noite graciosense em Lowell  2013-11-05

A noite graciosense em Lowell teve a importância de um acontecimento memorável perante uma assistência atenta e entusiasmada que ultrapassava as quatro centenas. A fascinante exposição fotográfica "Graciosa, quietude e pureza", foi do agrado geral e toda a gente saudou a qualidade estética e a beleza plástica da fotografia do "Josézinho". Antes de se iniciar o jantar-convívio, usaram da palavra o anfitrião Rui Jorge Vasconcelos, o cônsul de Boston, Carlos Brum, o relator desta notícia e o "Josézinho", que, durante dez minutos, apresentou um bem conseguido (e aplaudido) powerpoint, intitulado "Trago a Graciosa Comigo", que mostrava aspetos do quotidiano da ilha branca: festas profanas e religiosas, usos, costumes e tradições.


Da cumplicidade musical do Sérgio e da Daniela  2014-01-23

Vivendo entre a ilha e a viagem, estes jovens graciosenses entregam-se à música sem horário fixo e em permanente desassossego criativo... E são dignos herdeiros de uma tradição musical graciosense com raízes nos "Selvagens do Ritmo" ou nos "Ritmo 2000", isto para dar apenas dois exemplos de duas formações musicais graciosenses correspondentes a duas épocas distintas. As referências musicais do José Berto, do Juventino Ramos, do Gasparinho ou do padre Simões estão certamente na mente deste duo que, deste modo, dá continuidade ao canto na "ilha branca".


Noite graciosense na Califórnia  2014-04-24

Depois de Lisboa, Porto, Faro, Lowell, Torres Vedras, Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, foi agora a vez da cidade de San José, na Califórnia. Assim, no passado dia 19 de Abril, realizou-se, no Portuguese Athletic Clube, uma Noite Graciosense promovida pela Luso American Education Foundation. O evento mobilizou numerosa assistência que seguiu, com agrado, a exposição fotográfica "Graciosa, quietude e pureza", de José Nascimento Fernandes Ávila, a que se seguiu o lançamento da 2ª edição de "A Graciosa ilha", com fotografia daquele e texto de Victor Rui Dores, que continua a promover, "urbi et orbi", a sua e nossa graciosensidade.



A Graciosa ilha  2014-08-05

A Graciosa faz parte da minha memória primeira e do meu imaginário afetivo. Foi nesta ilha que despertei para a vida, para o mundo e para o conhecimento das coisas. Saí um dia da Graciosa, mas a Graciosa não saiu de mim - ela navega em mim, carrego-a dentro de mim. Por isso mesmo sinto o direito e o dever de reivindicar aquilo que, dentro e fora de fóruns de debate, tenho vindo a chamar de graciosensidade, conceito que criei a partir de açorianidade, de Vitorino Nemésio. E a minha graciosensidade é precisamente o meu apego e o meu amor incondicional pela ilha Graciosa, é a minha marca de identidade e de identificação com o espaço graciosense.

  

Breves lembranças do “Paz e Sossego” 2015-08-28 

FOTO: Diário Insular Situada na Rua dos Canos Verdes, em Angra do Heroísmo, “Paz e Sossego” foi a mais castiça casa-de-meninas da ilha Terceira, sendo rota de aventuras e porto de abrigo de uma clientela variada: senhores respeitáveis, comerciantes, funcionários públicos, magalas do Castelo, operários, pescadores, caixeiros-viajantes e até americanos da Base das Lajes. Várias gerações de jovens virgens passaram por lá e foi ali que perderam o cabaço…



É sempre com grande emoção e comoção que regresso à ilha que há 57 anos me viu nascer. E estar na Graciosa significa para mim um regresso à minha infância enquanto paraíso irremediavelmente perdido. Porque não é impunemente que se nasce numa ilha, onde a terra é pouca, o mar é vasto e o sonho é enorme. Um dia eu saí da Graciosa, mas a Graciosa não saiu de mim – ela existe dentro de mim, navega no meu íntimo, e é uma ilha que, simbolicamente, eu carrego às costas.



Desventuras de uma frustração amorosa 2015-10-12

No dia em que fiz 18 anos de idade acordei com uma certeza: a melhor maneira de esquecer uma rapariga é arranjar outra rapariga (sendo o mesmo válido em relação aos rapazes). E foi o que eu fiz. Pus a render os dons e os talentos que a literatura e a música me haviam dado e fui em busca de outos enlevos amorudos. Aprendi a comunicar melhor e a melhor entender o universo feminino. E, de falhanço em falhanço afectivo, atingi o sucesso amoroso.



O fim do livro? 2015-10-27

É óbvio que livros em papel e livros digitais não são coisas incompatíveis – são apenas suportes diferentes para um mesmo fim: a fruição da leitura. O e-book, cuja circulação aumenta a olhos vistos, não consegue parar a torrente de livros em papel, pois a verdade é nunca se publicou tanto como agora. O que importa é ler. E hoje, sabemo-lo bem, não se lê nem mais nem menos do que noutros tempos – lê-se pior. O motor de busca não dá todas as respostas. Falo por mim que praticamente todos os dias vejo-me obrigado a ir às bibliotecas.
Victor Rui Dores