Sociedade

Estados Unidos instrumentalizaram a FLA, diz Avelino Menezes (Som)

O professor catedrático e historiador Avelino Menezes defendeu hoje que a Frente de Libertação dos Açores (FLA) não atingiu os seus objetivos devido a razões internas e externas, como a “traição” dos EUA.


“A FLA também acaba por falhar por razões externas, fundamentalmente pela traição dos EUA, que nunca aceitaram apoiar, declaradamente, o movimento”, declarou à agência Lusa o ex-reitor da Universidade dos Açores.

A 06 de junho de 1975, cerca de 10 mil pessoas saíram à rua, em Ponta Delgada, predominantemente lavradores, quando imperava a incerteza política em Lisboa, e que se batiam por diversas revindicações. A manifestação acabou por ficar conotada com a defesa da independência dos Açores e a Frente de Libertação dos Açores.

Avelino Menezes diz que os EUA se preocuparam “apenas em manter a FLA em lume brando, como um espantalho que, de certa forma, atemorizasse o governo esquerdista de Lisboa”.

“A FLA, nos EUA, sempre foi apoiada por agências não oficiais, algumas das quais muito pouco recomendáveis. E, na ponta final, os EUA fizeram uma opção pelo apoio aos moderados portugueses, a um partido e a um homem: PS e Mário Soares”, defende Avelino Menezes.

O historiador frisa que esta opção dos EUA não significa que o PS e Mário Soares “fossem propriamente a menina dos olhos dos americanos”, mas “estava-se numa altura em que não havia alternativa”.

“Sá Carneiro tinha deixado o então PPD, que era dirigido por um homem chamado Emílio Guerreiro, que não gerava grande confiança nos americanos e que disse que iria ultrapassar o PS pela esquerda”, refere.

Avelino Menezes aponta como razões internas para o falhanço da FLA o facto de ser uma “espécie de caldeirão onde cabiam os que admiravam a velha ideologia emancipadora e os que admiravam o grito de Ciprião de Figueiredo ("antes morrer livres do que em paz sujeitos", pronunciado na ilha Terceira, no século XVI contra os espanhóis)”.

O historiador reforça que o “caldeirão” era ainda composto pelos que defendiam o lema da ‘livre administração dos Açores pelos açorianos’ proclamado, sobretudo pelos micaelenses, contra Lisboa, nos finais do século XIX, bem como os anticomunistas, interessados em derrubar o gonçalvismo em nome da democracia, e ainda alguns “seguidores” do Estado Novo.

“A FLA falhou também do ponto de vista interno porque consegue apoio significativo em São Miguel, mas não tanto nas outras ilhas. Tudo isto faz que com houvesse falta de unidade na ação” , defende o historiador.

Avelino Menezes considera que foi verdadeiramente em 1976, com a salvaguarda da autonomia no texto da Constituição portuguesa, que tudo acabou.

“Mas sem o 06 de junho nunca teríamos chegado tão longe”, declara o professor universitário, que refere, contudo, que esta data “ainda divide alguma opinião pública açoriana” e foi “um confronto entre a esquerda e a direita à luz do que se passava em Portugal desde 1974”.

“Esta data ainda não foi devidamente enobrecida, mas vai sê-lo à medida que o tempo for passando e as memórias se forem esvanecendo. Sem o 06 de junho de 1975 não se teria chegado tão longe”, refere Avelino Menezes.

Lusa
Antena 1 Açores