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Baile de Máscaras João Pedro

Argumentos de Óperas, Obra


Doctor Atomic

Ópera em dois atos

LibretoPeter Sellars

EstreiaSão Francisco 1 de outubro de 2005

AntecedentesJohn Adams tornou-se o compositor vivo mais tocado nos Estados Unidos, e talvez no mundo, graças à brilhante transformação a que submeteu a linguagem minimalista herdada de Glass e de Reich. Mantém o ímpeto imparável do minimalismo, mas alargada em muito os seus recursos expressivos, além de importar uma vasta gama de referencias culturais, tanto "eruditas" como "populares" - A realidade tem sido uma permanente, se não a principal, fonte de inspiração para Adams. Assim conseguiu com Nixon in China, com The Death of Klinghoffer e agora com Doctor Atomic.
Oppenheimer nasceu em Nova York, em 1904. Os seus pais, judeus bem sucedidos emigrados da Alemanha, valorizavam principalmente a educação e a cultura. Eles deram ao seu filho toda oportunidade para desenvolver os seus talentos intelectuais. Durante a sua juventude, Oppenheimer revelou diversos interesses: desde coleccionar minerais e escrever poesia a cavalgar pelo sudoeste americano. Mais tarde, ele iria impressionar os seus amigos com uma impressionante habilidade para aprender novas línguas. Aprendeu sânscrito para ler o Bhagavad Gita no original, e aprendeu holandês em poucas semanas para um seminário na Holanda.

Oppenheimer ingressou em Harvard decidido a estudar química, mas apaixonou-se pela física. Já nos seus anos de caloiro, recebeu permissão para frequentar os cursos de física ao nível de mestrado. Concluiu a licenciatura em química, summa cum laude, em apenas três anos. Então Oppenheimer viajou pela Europa, onde estudou nos pólos científicos da Universidade de Cambridge e da Universidade de Göttingen. Durante este tempo, ele fez importantes descobertas no campo da física, tal como a Aproximação de Born-Oppenheimer. 

Em 1929, Oppenheimer tornou-se professor, dividindo seu tempo entre Cal Tech e Berkeley. Em Berkeley, Oppenheimer desenvolveu o que talvez fosse seu maior talento: o dote para cultivar uma comunidade científica. Ele reunia-se com estudantes diplomados e pós-doutores diariamente, discutindo o problema de cada um com o grupo. Oppenheimer ajudou Berkeley a tornar-se numa verdadeira Meca da física moderna.
Nos anos 30, Oppenheimer criou interesse na política de esquerda. A América sofria com a Grande Depressão e o Fascismo alastrava-se pela Europa. Para muitos intelectuais, o socialismo parecia ser a grande esperança para o mundo. Apesar de não se ter filiado no Partido Comunista, Oppenheimer contribuiu financeiramente para muitas causas da esquerda. O seu irmão Frank e vários dos seus amigos eram membros do partido. Então, em 1940, Oppenheimer casou-se com Katherine Puening Harrison, outra intelectual simpatizante da esquerda. Juntos, os Oppenheimer tiveram dois filhos, Peter e Katherine.

Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial em 1942, Oppenheimer quis ajudar. Teve o seu momento com a nomeação para o cargo de Director Científico do Projecto Manhattan, a missão americana para construir uma bomba atómica. Oppenheimer teve dedo em todas grandes decisões. Além de escolher o local onde a bomba foi criada, o laboratório em Los Alamos, ele reuniu os melhores físicos, químicos e engenheiros do país no projecto. O físico Hans Bethe, colega no mesmo projecto, declarou: "Los Alamos talvez fosse um sucesso sem Oppenheimer, mas certamente com muito mais esforço, menos entusiasmo e mais lentamente".
Depois da Guerra, Oppenheimer tornou-se Director do Instituto de Estudos Avançados em Princeton. Tentando prevenir uma competição nuclear entre Estados Unidos e a União Soviética, ele lutou por um controle internacional para o uso da energia atómica. Mesmo sem obter resultados positivos, ele continuou envolvido em política nuclear, tornando-se o Director do Conselho Público da Comissão de Energia Atómica entre 1946 e 1952. Oppenheimer contrapôs-se à criação da chamada "super", a bomba de hidrogénio, que teria uma força infinitamente superior à bomba atómica. Isto gerou conflito com o físico Edward Teller, companheiro do Projecto Manhattan que advogava a favor da "super".

Os soviéticos testaram sua primeira arma atómica em 1949. O equipamento foi construído com base em heliogravuras fornecidas pelo físico e espião soviético Klaus Fuchs. Um novo clima de medo apoderou-se de Washington. O senador do Wisconsin, Joe McCarthy, começou a caçar comunistas infiltrados na vida pública e indústrias americanas. Muitos cientistas com laços à esquerda, incluindo Frank Oppenheimer, perderam seus empregos. Jules Robert Oppenheimer também ficou sob suspeitas por causa de sua conhecida oposição ao desenvolvimento da Bomba H e a sua ligação aos comunistas. A sua liberdade de movimentos era posta em causa - tiravam-lhe os acessos de segurança.

Ofendido, Oppenheimer apelou a decisão. Em 1954, testemunhou perante o senador McCarthy e a Comissão de Actividades Não-Americanas do Senado. Muitos cientistas testemunharam a favor de Oppenheimer, mas Edward Teller declarou que não confiava completamente nele. Teller nunca acusou Oppenheimer de traição, mas declarou que ele era um homem complexo, acrescentando "...Eu gostaria de ver os interesses vitais deste país em mãos que compreendo melhor e, consequentemente, confio mais... Se isso é uma questão de sabedoria e julgamento, pelo que foi demonstrado pelas suas acções em 1945, eu acredito que seria prudente negar-lhe os acessos de segurança". O comissão concordou. Oppenheimer sentiu-se esmagado.

Oppenheimer continuou a sua carreira como professor, dando palestras e escrevendo livros. Depois do senador McCarthy ter caído na popularidade, o presidente John F. Kennedy tentou compensar Oppenheimer, oferecendo-lhe a Medalha Fermi da Comissão de Energia Atómica, acompanhada por um prémio de 50 mil dólares. O presidente Lyndon B. Johnson conferiu a medalha a Oppenheimer em 1963. O físico morreu em 1967, aos 62 anos de idade, vítima de um cancro na garganta.


Leslie Groves (1896-1970)

Groves tornou-se o Director Militar do Projecto Manhattan em Setembro de 1942. Ele substituiu o Coronel James Marshall, Director anterior do Projecto, considerado ineficiente. Em contrapartida, Groves era um homem pragmático conhecido pela sua eficiência e rigor. Pouco antes, ele tinha supervisionado a construção do Pentágono em menos tempo e custo do que qualquer um esperava. O seu sangue-frio, inteligência ríspida e completa dedicação ajudou a fazer do Projecto Manhattan um sucesso.

 

 


Edward Teller (1908-2003)

Edward Teller, natural de Budapeste, era um dos brilhantes refugiados húngaro-judeus que participou do Projecto Manhattan. Desde os primeiros anos do Projecto, que Teller se mostrou obcecado com a ideia (inicialmente sugerida por Enrico Fermi) em criar uma "super" arma termonuclear, a bomba de hidrogénio. Como consequência, Teller negou-se a trabalhar nos cálculos de implosão para a bomba de plutónio em Los Alamos. Oppenheimer assentiu que Teller trabalhasse na Bomba H, e encontrou outros cientistas para trabalharem nos cálculos de implosão - um dos quais, Klaus Fuchs, que era um espião dos soviéticos.
Depois da União Soviética testar a sua primeira arma nuclear, Teller argumentou que a criação da "super" se tornara imprescindível. Mas quando o governo americano finalmente se decidiu a construir a bomba H, Teller, de comportamento difícil, não foi convidado para tornar-se o Director do Projecto. Ao invés, ele foi integrado no Laboratório Lawrence Livermore da Universidade de Califórnia. A ‘Super' foi criada e provou ser 500 vezes mais poderosa do que a bomba atómica original.
Seguindo o seu testemunho na audiência de J. Robert Oppenheimer perante a Comissão do Senado para as Atividades Não-Americanas, Teller foi ignorado pela comunidade científica, que sentia que ele tinha traído Oppenheimer. Teller tornou-se o cientista favorito dos apoiantes da direita, um partidário de forte defesa e oponente da interdição dos testes nucleares. Em 1980, ele promoveu a Iniciativa de Defesa Estratégica (também conhecida como o Guerra nas Estrelas).


Kitty Oppenheimer (1910-1972)

Katherine Puening nasceu na Alemanha, mas sua família mudou-se para a Pensilvânia quando ela era ainda uma criança. Ela tornou-se numa intelectual especializada em botânica e biologia. O seu primeiro marido foi um sindicalista próximo ao Partido Comunista, que morreu durante a Guerra Civil Espanhola. Kitty encontrou o amor da sua vida no seu quarto casamento com J. Robert Oppenheimer. Eles casaram-se em 1940. Quando Los Alamos foi inaugurado, Kitty mudou-se para lá com seu marido. Inicialmente ela trabalhou no laboratório, mas deixou o Projecto um ano depois. A sua filha Katherine nasceu em Los Alamos em 1944.

Na ópera Doctor Atomic, Kitty é voz da compaixão e empatia feminina, oferecendo um contraste à energia masculina dos soldados e cientistas. As suas palavras foram extraídas dos poemas de Muriel Rukeyser.


Robert R. Wilson (1914-2000)

Ainda jovem, Robert Wilson trabalhou na divisão experimental em Los Alamos, onde ele foi supervisor do Programa Cyclotron. Depois que a Alemanha nazista se rendeu, o pacifista Wilson questionou a necessidade de continuar construindo a bomba atômica. Ele organizou um encontro em Los Alamos para explorar "As Consequências do ‘Dispositivo' na Civilização". Com o fim da guerra, Wilson tornou-se o Director-Fundador do Fermilab, Laboratório Nacional de Aceleração Fermi.


Resumo

I. Acto

O Laboratório do Projecto Manhattan, em Los Alamos, Novo México. Junho de 1945. O trabalho para a criação da bomba atómica está no auge. Físicos, engenheiros e militares do exército norte-americano estão sob intensa pressão de Washington para testar e preparar a bomba para uso em apenas duas semanas. J. Robert Oppenheimer - apelidado "Oppie"s pelos seus amigos - reuniu as mentes mais brilhantes da física e da engenharia num planalto remoto, no que antes era uma corrida contra um grupo alemão congénere. Mas com a capitulação da Alemanha, muitos dos cientistas questionam o uso da arma contra o Japão. O comandante militar do Projecto, o general Leslie Groves, está ciente do envolvimento - indeterminado, porém preocupante - de Oppenheimer com o Partido Comunista. Mas até ao momento, ele tem conseguido que o governo ignore o assunto por causa da importância de Oppenheimer para o programa.

Depois do coro de abertura, Edward Teller confronta Oppenheimer no laboratório. A obsessão de Teller em construir uma arma termonuclear, a "Super", tem gerado problemas com outros colegas cientistas. Teller não se adapta ao trabalho em equipe e Oppenheimer dispensa-o da colaboração com o grupo. Teller mostra-lhe uma carta que acabou de receber de outro cientista, o húngaro Leo Szilard, recomendando que todos os cientistas envolvidos no Projecto de Energia Atómica tomem uma posição moral contrária ao uso da bomba e façam um abaixo-assinado para ser entregue ao presidente Truman. "Somente nós estamos em posição de declarar a nossa opinião". Oppenheimer adverte Teller e outros cientistas a não se envolverem com "manifestos políticos".

Robert Wilson, um físico dedicado e idealista (e o supervisor mais jovem em Los Alamos) está a organizar um encontro em sua ala técnica para discutir as consequências morais e sociais do "Dispositivo" (nome código para a bomba). Oppenheimer, ciente da propensão esquerdista de Wilson, desaprova do plano. "Tal reunião poderá trazer problemas". Wilson também tem uma petição para o presidente que ele anseia que todos assinem: "Os ataques atómicos no Japão não podem ser justificados até que nós deixemos explícitas as condições para a paz e lhes concedamos uma hipótese de se renderem". Oppenheimer, que acaba de regressar de Washington, explica a decisão de lançar a bomba em cidades japonesas, usando civis como alvo: "Nós precisamos de criar uma profunda impressão psicológica no maior número de pessoas possível".

A Casa dos Oppenheimer em Los Alamos. Oppenheimer e sua esposa Kitty estão a sós em casa. É uma linda noite de verão, mas Oppenheimer está preocupado, a ler os relatórios. "Estou a fazer sombra?", pergunta-lhe Kitty. Animado, Oppenheimer responde usando versos pomposos e fantasiosos de Baudelaire, um de seus poetas favoritos. Por uns breves momentos, eles são transportados pelo clima intoxicado do poema; logo é hora de Robert ir para o trabalho. "Aqueles que mais desejam paz precipitam agora as suas vidas na guerra," diz Kitty, sozinha. "O mundo é para ser pelejado, cantado e edificado: o amor deve sonhar o mundo".

"Trinity", o local de testes em Almagordo, Novo México. 15 de Julho de 1945.É a noite de teste da primeira bomba atómica. Truman está em Potsdam a negociar os espólios da Europa com Churchill e Stalin. A pressão sobre Oppenheimer e o General Groves para realizar um teste bem sucedido é intolerável: os americanos precisam de uma arma nuclear para usá-la como trunfo contra os russos.
Como prognosticado meses antes, um poderoso temporal eléctrico assola o local de testes. A bomba, içada numa alta torre e quase pronta para detonação, pode ser atingida por um raio. O meteorologista-chefe Frank Hubbard diz a Groves que é extremamente perigoso conduzir um teste em tais condições e o general, fora de si, frustrado e ansioso, repreende-o. O capitão Nolan, do Corpo Médico do Exército, tenta explicar a Groves as propriedades tóxicas do plutónio que só agora começam a ser compreendidas. Um acidente no local de testes poderia deixar centenas de militares e cientistas fatalmente debilitados por envenenamento radioactivo. O pânico começa a dominar o ambiente e muitos dos homens alistados precisam ser removidos sob o efeito de sedativos. Groves dispensa todo o seu pessoal para consultar a sós Oppenheimer. "Oppie" carinhosamente brinca com o general, com o seu peso crónico, e Groves confessa as suas tentativas falidas em controlar a dieta. Groves sai para descansar por um par de horas. A sós no deserto, Oppenheimer enfrenta a sua própria crise interna, relembrando um do sonetos sacros de John Donne "Golpeia meu coração, Deus das três pessoas." É este poema que o inspira a nomear o local dos testes de "Trinity" (Trindade).

 

 

II Acto

A Casa dos Oppenheimer. São duas da manhã, de 16 de Julho. A duzentas milhas do local de testes, Kitty e a sua criada Tewa, Pasqualita, observam o céu, aguardando um sinal da explosão (as mulheres não têm acesso à Alamogordo). Pasqualita de vez em quando checa na criança dos Oppenheimer. Kitty, num longo solilóquio, canta sobre a guerra, a morte, e a ressurreição do espírito. "A paz que o espírito necessita é paz, não ausência de guerra, mas uma incessante chama ardente."

Chove sobre as montanhas Sangre de Cristo. A pequena Katherine Oppenheimer, de sete meses, desperta e chora. Pasqualita agarra a bebé e conforta-a com uma canção de embalar.
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O local de testes ‘Trinity'. Meia noite, 16 de julho de 1945.A bomba de plutónio está montada no topo da torre de detonação e todo o pessoal foi evacuado das proximidades. Robert Wilson precisa subir à torre uma última vez para acoplar um instrumento de medição na bomba. Desde o topo da torre, vento e chuva esbofeteiam sua cara e ele vê lampejos de raios à distância. Jack Hubbard está aos pés da torre, a medir a velocidade do vento, como Groves exigiu. Wilson confessa a sua ansiedade por estar próximo à bomba durante uma tempestade elétrica. Para Hubbard, um teste em tais condições atmosféricas, era uma "asneira de primeira categoria,". Segundo ele, os ventos fortes poderiam espalhar o entulho radioactivo letal por milhas. Enquanto Wilson e Hubbard estão na torre, Groves, Oppenheimer e outros aguardam ansiosos o fim do temporal na casamata de observação da base.

Os cientistas voltam a discutir com uma inquietude preocupante: será que a detonação poderia causar uma reacção em cadeia que acarretaria na destruição da atmosfera? "Será que não estamos a iniciar uma reacção em cadeia que poderia mergulhar o mundo num mar de chamas?", reflecte Teller. Circulam rumores de que Enrico Fermi, um dos cientistas mais respeitados da altura, tem apostado na possibilidade de tal calamidade. Oppenheimer, resoluto, afirma que tal resultado é impossível, mas isso não ajuda a afastar a morbidez que toma conta do centro de testes. Ainda chove, mas Groves ignora o conselho de Hubbard sobre a tempestade. Oppenheimer ordena que sua equipe se prepare para a detonação às 5:30 da manhã.

A contagem regressiva tem início às 5:10 da manhã. Groves, temendo sabotagem, queixa-se ao tenente Bush sobre o comportamento de indivíduos que causaram intermináveis problemas de segurança: "Desde o começo, este programa foi infestado por certos cientistas de prudência duvidosa e lealdade questionável."

Oppenheimer, que já é magro por natureza e está ainda mais magro, está num estado de extrema exaustão nervosa. Todos aguardam, cada um absorto em seus próprios pensamentos. "Memórias, Arrependimentos, Espasmos, Aflições, Pesadelos, Fúrias e Neuroses" preenchem minutos que mais se assemelham a horas. Pasqualita tem as suas visões: "Na geada, chegaram as notícias: ‘Os mortos estão à caminho!'"

Na Base, fazem-se apostas. Cada um tenta adivinhar as consequências da bomba. Oppenheimer surpreende todos com um prognóstico pessimista de três quilotoneladas. - "um chiado", diz Teller. Nem mesmo Groves consegue esconder sua descrença. Teller goza da timidez de todos e prediz uma explosão de 45 quilotoneladas.

O céu nocturno é subitamente preenchido por uma assustadora visão de Vishnu como descrita no Bhagavad Gita. "Ao ver tua grande forma, com teus vários rostos, olhos, braços, coxas, pernas, ventres e teus vários dentes terríveis... Ó Vishnu omnipresente, ao te ver, com tuas bocas escancaradas e teus grandes olhos reluzentes - toda a minha paz se vai; sinto-me confuso" (Vishnu, o preservador, em oposição a Shiva, o destruidor. Na mitologia indiana Vishnu é também conhecido como o deus universal, o preservador da obra de Brahmã, o criador. Sempre que a humanidade necessita de auxilio, aparece Vishnu, um deus benevolente que surge como um avatar ou reencarnação. É muitas vezes representado pela cor azul).

Quando faltam exactamente dez minutos, Groves preocupa-se que Oppenheimer, "o nosso Director hipersensível", tenha um ataque nervoso. Um rastro luminoso de alerta cruza o céu e uma sirene é disparada. Todos correm para seus lugares nas trincheiras. Então o temporal passa e o céu abre-se sobre a Zona Zero.

Quando faltam dois minutos, outro rastro de alerta é disparado, mas apaga-se antes do tempo. Faltando um minuto, aparece um terceiro rastro luminoso sobre o céu matinal, sinalizando o início da contagem regressiva de sessenta segundos. A Base assemelha-se a um campo de concentração: cientistas e militares deitados em fila, com a cara para baixo, em valas rasas. Não se ouve um único suspiro nem se regista um unico movimento, somente uma rítmica contagem regressiva através dos altifalantes. Aos 45 segundos, um engenheiro aperta um interruptor. Os circuitos começam a disparar com uma precisão lancinante. "Dois, Um, zero." Um silêncio lúgubre e o começo de uma nova e assustadora era.