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Raízes Inês Almeida

Argumentos de Óperas, Obra


A Representação da Alma e do Corpo

Oratória ou Ópera com prologo e três atos

Libreto Agostino Manni

AntecedentesMais do que dissecar a história do libreto de "La Rappresentatione di Anima e di Corpo" de Emílio Cavalieri, que à boa maneira renascentista se pode resumir, mesmo por alto, a um exercício de cariz filosófico dramatizado, neste caso sobre os assuntos da alma e do corpo, importa com esta obra sublinhar a importância desta no contexto da música florentina do séc. XVI e desta na história da música, em particular da música para fins dramáticos.

A música teve sempre um lugar de destaque no ceio da actividade devocional do Oratório de São Filipe de Neri, em Roma. No entanto, o que parece ser completamente excepcional é o facto de aí ter sido posta em cena "La Rappresentatione di Anima, e di Corpo" do compositor Emílio de Cavalieri.

Dançarino gracioso, coreógrafo, encenador, produtor de espectáculos, um perfeito cortesão renascentista, Cavalieri era em Florença o principal animador da Camerata Corsi, cujos serões musicais tomaram o lugar da família Bardi. Estes reuniam à sua volta grandes intelectuais para se discutir todo o tipo de assuntos: Política, Ciência, Arte e Música. Todo este ambiente de ampla discussão das formas e dos conteúdos, integrados no espírito que distingue o renascimento e mais tarde o maneirismo em Itália, proporcionou a cada um dos participantes oportunidades quase únicas de poderem fazer história. Cavalieri foi um desses nomes que iria marcar a história, neste caso a história da música.

O nome de Cavalieri tornou-se assim numa referência para a Florença cultural do último decénio do século XVI. Uma referência confirmada pela representação de duas pastorais completamente musicadas: "Satiro e la Disperazione di Fileno" e "Gioco della cieca". Nestas, Cavalieri foi o primeiro a demonstrar que a música do seu tempo podia perfeitamente ser usada para fins dramáticos: não apenas como função ornamental, mas também para acompanhar a acção e decifrar os sentimentos das personagens. Apesar destes dois exemplos ainda se assemelharem mais a um ballet ou a uma pantomina e do estilo da musica ainda ser muito próximo do das cançonetas estróficas, Cavalieri reivindicou a paternidade deste novo género dramático com a edição da sua "Rappresentatione" no momento em que em Florença se preparavam as festividades para a boda real e para a qual se pensa que Cavalieri tenha colaborado como director musical.

Numa carta datada de Novembro de 1600, Cavalieri lamentava-se do facto de Rinuccini, o libertista de "Euridice", na dedicatória que precede o libreto, ter-se autodeclarado como inventor do novo modo de representar em música. A verdade é que Caccini e Peri, em "Euridici", foram os primeiros que para fins dramáticos, empregaram um estilo que para Cavalieri era completamente estranho. Estes foram os primeiros a escrever e a pôr em cena uma "rappresentazioni" complectamente em música, na qual sons, danças e melodias cantadas eram o fulcro do interesse dramático. Também a expressão "recitar cantando" e enunciada por Peri e Caccini era povavelmente conhecida de Cavalieri. No entanto, para o autor da "Rappresentatione di Anima e di Corpo" tal expressão indicava apenas uma acção contínua em música, sem que isso indicasse um significado mais profundo e inovador em relação ao estilo empregue. É exactamente isso que podemos observar no prefácio de Cavalieri que antecede o libreto da sua "Rapprasentatione" e que se intitula de "Advertimento para qualquer um que a interprete em "Recitar Cantando". Este advertimento consiste sobretudo em indicações cénicas e dramática, sublinhando a visão de Cavalieri da técnica do recitar cantando. Assim, com a adopção do novo estilo florentino, a ordem que era o fundamento das leis musicais perde importância em relação à expressão; A música torna-se falante; ela tem a vocação de imitar os movimentos da alma - aí encontramos cromatismos, modulações súbitas e os ornamentos expressivos que mais tarde serão utilizados por Monteverdi.

Por todos estes motivos, torna-se obvio a importância desta obra para a história da música e, particularmente para a história da ópera, no sentido em que esta é assim o primeiro drama inteiramente musicado que chegou até aos nossos dias, sendo considerado por alguns como a primeira oratória da história, pela maioria como a primeira ópera, visto estarmos perante um melodrama religioso.