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Musica Aeterna João Chambers

Argumentos de Óperas, Obra


Il Guarany

Ópera em quatro atos

LibretoAntonio Scalvini

EstreiaTeatro Scala de Milão, em 19 de março de 1870

AntecedentesAntónio Carlos Gomes nasceu no dia 11 de julho de 1836 na vila de São Carlos (actual cidade de Campinas), Estado de São Paulo. O seu pai, Manuel José Gomes, era músico e maestro numa banda local, sendo conhecido entre os conterrâneos pelo apelido de Maneco Músico.

António Carlos (ou Tonico, como lhe chamavam todos os amigos) tinha apenas oito anos de idade quando passou a fazer parte da banda do pai. Passado pouco tempo, já estava em condições de tocar qualquer instrumento da banda. Ao mesmo tempo, começava a produzir pequenas composições, algumas das quais tornaram-se bastante conhecidas em sua cidade.

Pouco depois de completar 23 anos, Carlos Gomes viajou para o Rio de Janeiro, onde conseguiu ser apresentado a D.Pedro II. Este, que sempre se interessou pela carreira dos artistas e intelectuais brasileiros, fê-lo matricular-se no Conservatório Nacional de Música, cujo director era o compositor Francisco Manuel da Silva. Iniciou os seus estudos com o professor Gioacchino Giannini, um italiano radicado no Rio de Janeiro desde 1846.

Carlos diplomou-se com louvor. Logo após a formatura, apresentou a primeira ópera de sua autoria, A Noite do Castelo (Setembro de 1861). O sucesso da estreia foi tão grande que D.Pedro II, presente ao espectáculo, condecorou o compositor no próprio teatro, com a Ordem da Rosa. Dois anos depois, Carlos Gomes repetiu o êxito com a ópera Joana de Flandres, que foi considerada superior à primeira.

Em 1864, com uma bolsa de estudos concedida pelo Imperador, António Carlos Gomes viajou para a Itália, a fim de se aperfeiçoar na cidade de Milão. Ali completou em três anos um curso que normalmente se fazia em quatro, obtendo o diploma de Maestro Compositor.

Interessado em compor uma ópera que tratasse de um assunto verdadeiramente brasileiro, Carlos Gomes escolheu como tema de sua próxima ópera o romance O Guarani, de José de Alencar. A ópera, que recebeu o mesmo nome, foi estreada a 19 de Maio de 1870 no Teatro alla Scala de Milão.

O sucesso foi enorme. Os mais exigentes críticos musicais compararam o músico brasileiro aos grandes mestres europeus, como Rossini e Verdi. O Rei da Itália, Vítor Manuel II, concedeu uma condecoração ao criador de tão bela ópera.

Carlos Gomes, porém, apressou-se em regressar ao Brasil, para apresentar O Guarani a seu patrono, o Imperador. Lançada no Rio ainda em 1870, a obra alcançou o mesmo sucesso que obtivera na Itália.

 

Resumo

I Acto

Esplanada diante do castelo de Don António de Mariz, a pouca distância do Rio de Janeiro, no ano de 1560. Ao levantar-se o pano o palco está vazio, começam a atravessar a cena, grupos carregando animais abatidos durante a caçada, cujos sons se ouvem ainda. O sol começa a enfraquecer e os caçadores, reúnem-se e falam das peripécias da caçada.

Gonzales, um aventureiro espanhol, diz ironicamente a Álvaro que chegaram à casa que lhe faz bater mais forte o coração. Álvaro pergunta se ele agora se dedica a contar os suspiros do coração, e pede a Rui e Alonso (companheiros de Gonzales) para o deixarem em paz, pois está apaixonado por Cecília, filha do velho fidalgo português, D. António. Isso só faz aumentar os ciúmes de Gonzales que, secretamente, também a ama. Entra Don António e conta-lhes que, enquanto caçavam, aconteceu um grave acidente: em represália por um português ter ferido acidentalmente uma jovem da tribo dos aimorés, os portugueses foram atacados pelos índios, sendo Cecília salva das mãos dos selvagens por um outro índio, Peri. O próprio Don António apresenta Peri como um amigo, e este declara ser da tribo dos guaranís, advertindo que os aimorés, que acamparam a curta distancia, tramam alguma vingança. Ouve-se a voz de Cecília, para alegria de Don António, felicidade de Álvaro e ciúmes de Gonzales. Peri, perturbado, afasta-se. Don António apresenta à filha o esposo por ele escolhido, Álvaro. Confusa, ela diz obedecer ao pai. Prostram-se todos e rezam uma "Ave Maria". Peri, por respeito, põe-se de pé, ficando perto de Gonzales, cujas atitudes lhe haviam chamado a atenção. E é justamente durante a "Ave Maria" que Gonzales, à parte, convida Rui e Alonso para um encontro à noite.

Don António convida os presentes para se refugiarem, por precaução, no castelo, o que é feito por todos menos Cecília e Peri, que ficam sós. Ela pergunta-lhe porque pretende ele deixar o castelo. Peri diz não ser digno de estar em casa dela. Cecília lembra-lhe que ele a salvou e indaga por que tanto se preocupa ele por ela. Peri diz que sente uma força irresistível que o atrai para ela, mas não a pode exprimir. Cecília confessa que lhe acontece o mesmo. Interrogado para onde vai, ele diz: para onde os três malvados estão a tramar uma traição. Cecília pede que volte e viva para ela, pois é o seu defensor. Peri promete e parte.


II Acto

Primeira Cena

Uma gruta selvagem na floresta. Peri chega a tempo de presenciar o encontro combinado pelos três aventureiros.

Entram Gonzales, Rui Bento e Alonso. Gonzales diz ter descoberto onde fica uma mina de prata nas terras de Don António, e que precisa de mais homens para dela se apossar. Em troca quer um pacto: Cecília será sua. Peri, de seu esconderijo grita: "Traidores!" Os conspiradores fogem, excepto Gonzales, que vê Peri sair do esconderijo. Lutam e Gonzales, vencido, é obrigado a jurar que abandonará o local e seus sonhos de riqueza, o que faz no firme propósito de perjurar. Peri, satisfeito por ter salvo a sua amada, embrenha-se na floresta.


Segunda Cena

Na pousada dos aventureiros, onde Rui e Alonso lhes dizem que serão conduzidos na conquista das minas por Gonzales, ouve-se um coro enaltecendo o ouro. Com a chegada de Gonzales, juram fé ao espanhol, que entoa uma das árias mais conhecidas da ópera, a "Canção do aventureiro", apologia da vida que levam. Ao soar a meia-noite, todos se afastam para se colocarem nos seus postos, de acordo com o plano preestabelecido de se apoderarem das terras de Don António.


Terceira Cena

O quarto de Cecília. Uma grande janela aberta por onde penetra o luar. Em cima de um móvel, um bandolim. Cecília, encantada com a natureza e a calma reinante, entoa uma balada na qual deixa entrever os seus sonhos de amor, deitando-se logo depois. Segue-se um longo silêncio após o qual Gonzales entra pela janela e vai contemplar a adormecida. Cecília acorda e, assustada, grita. Ele declara-lhe seu amor. Cecília repele-o, ele ameaça-a e, quando vai agarrá-la, é ferido por uma flecha disparada através da janela. Corre para ela e detona a sua arma. Gritos de alarme ressoam pela casa. Acorre Don Álvaro, Cecília protege-se junto do português que desembainha sua espada contra Gonzales mas, a casa, é invadida pelos aventureiros de espada em punho. Entra Don António que quer saber a razão da revolta. Ele pergunta quem é o traidor e Peri, entrando pela janela, aponta Gonzales. Num grande concertante, Don António clama vingança. Gonzales treme, Cecilia, Peri e Álvaro amaldiçoam o traidor enquanto os aventureiros defendem Gonzales e os portugueses, Don António. São interrompidos pelos instrumentos selvagens que anunciam a invasão dos aimorés, confirmada por Don Pedro. Face ao inimigo, todos juram unir-se na defesa do interesse comum.


III Acto

O campo dos aimorés, vendo-se ao fundo o castelo. As mulheres curam as feridas da batalha do dia anterior e executam outros serviços. Os guerreiros preparam as suas armas. À direita, a tenda do cacique. À esquerda, numa grande árvore, Cecília amarrada e coberta por um véu.

O coro dos aimorés relembra a batalha do dia anterior, jurando vingança contra os portugueses. Todos se retiram e aparece o cacique, a dizer que o canto do seu povo é de vitória. Pergunta pela prisioneira. Levantando-lhe o véu, fica extasiado com a sua beleza. Quando os guerreiros dizem que ela deve morrer, ele detém-nos e, dirigindo-se a ela, convida-a a ser rainha da tribo.

No meio ao tumulto que se segue, chega Peri preso. Ele traz consigo apenas o seu arco. Explicam ao cacique que foi o acaso que fez aquele tigre cair prisioneiro. O cacique pergunta o que vinha ali ele fazer, e Peri diz-lhe que vinha matá-lo, mas que a sorte o traiu. Só Cecília percebe a verdade. Os aimorés querem liquidá-lo ali mesmo mas o cacique ordena que se cumpra primeiro o ritual e só depois então seja Peri dado em banquete aos anciões. Cecília tenta interceder e o cacique elege-a noiva da morte de Peri para confortá-lo na hora extrema. Inicia-se uma grande cerimonia com baile.

Peri é amarrado a uma árvore. O cacique manda oferecer frutas e vinhos ao prisioneiro, que os recusa. Deixa também cair uma espada que lhe é ofertada. Guerreiros desafiam Peri. O cacique ordena que todos se retirem. Cecília pergunta pelo pai: está salvo. Pede a Peri que fuja. Este responde que se deixará matar para salvar a ela e ao pai. Peri bebe um veneno que traz consigo para, caso seja devorado, exterminar a tribo. Despede-se de Cecília e quebra o arco.

Entra o cacique. Dizendo que Peri só deve ser ferido por ele e convida a tribo a oferecer a vítima ao deus dos aimorés. No final da cerimónia, quando Peri diz que o firam, ouvem-se descargas de espingardas e Don António aparece, seguido pelos portugueses. A luta é geral, morre o cacique e Cecília cai nos braços do pai enquanto a batalha prossegue.

 

IV Acto

Subterrâneos do castelo iluminados por uma tocha numa pilastra. Ao fundo uma porta com uma escada que conduz aos aposentos. Há vários barris de pólvora e uma porta à esquerda. O coro espera por Gonzales, que ao chegar anuncia que Álvaro foi morto. Dom António não pode tentar novas proezas. Ele fica a saber que Cecília está ali e que Peri foi salvo. Gonzales diz que os aimorés se levantaram e pretendem que as portas do castelo sejam abertas e o dono entregue, vivo ou morto. O coro hesita e Don António, que tudo ouviu através de uma porta secreta, enfrenta todos eles sozinho. Gonzales fere Don António, mas o coro detém o espanhol e pede perdão, sendo Gonzales, finalmente, levado preso. Don António manda buscar a filha: Peri aparece e diz-lhe que Cecília lhe ordenou que vivesse, daí ter tomado o antitudo do veneno. Don António diz-lhe que fuja. Peri diz que apesar de cercado o castelo ele tem meios para salvar mais uma pessoa, que pretende ser Cecília. Alegria de Don António que, no entanto, diz não poder-lhe dar Cecília, dada a diferença de religiões. Peri renega seus deuses e Don António, invocando a Trindade e fazendo da espada uma cruz, faz o índio jurar a nova fé. Ouvem-se os coros dos aventureiros e dos aimorés, enquanto entra Cecília. Don António conta-lhe o ocorrido e como ela será salva. Despedem-se todos e Cecília é levada por Peri. Chegam os aventureiros, Don António barra-lhes os passos diante da porta. Empunhando o archote, avisa que todos vão morrer, lança-o aos barris, que explodem, derrubando o castelo. Vemos Cecília ser salva por Peri.