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Notas Finais
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Notas Finais João Pedro

Argumentos de Óperas, Obra


Ruslan e Lyudmila

Ópera em cinco atos

Libreto Baseado no poema do mesmo nome de Alexander Pushkin
(libreto russo escrito, entre outros, por Valerian Shirkov, Nestor Kukolnik e N. A. Markevich)

Estreia S. Petersburg em 27 novembro de 1842

AntecedentesMikhail Ivanovitch Glinka nasceu em Novospasskoie, Smolensk (Rússia), a 1 de Junho de 1804. Filho de um oficial da reserva, pertencia a uma família de ricos fidalgos da província e foi criado no campo, no ambiente musical das canções e danças rurais, que marcaram profundamente a sua sensibilidade.

A sua vida foi uma série de empreendimentos inacabados: estudos fragmentados com uma multidão de professores (entre eles, Field), numerosas viagens a Itália (onde conheceu Bellini e Donizetti), amizades de pouca duração, entusiasmos dispersos.

Todavia, com a criação em 1836 de A vida pelo Czar, o mundo assistia ao nascimento da escola musical russa. Glinka morreu em Berlim, a 15 de Fevereiro de 1857.


Ao longo do século XVIII, especialmente durante os reinados das imperatrizes Ana (1730-1740), Isabel (1741-1762) e, em particular, Catarina "a Grande" (1762-1796), a Rússia empenhou-se na contratação de artistas oriundos de vários cantos da Europa, o que se traduziu numa efectiva influência e domínio dos estilos musicais italiano, francês e alemão nesse país.

Porém, no decorrer do século XIX, a cultura musical (e não só) foi alimentada na Rússia pelo espírito de um nacionalismo que, embora transversal a toda a cultura romântica, assumiu uma configuração mais radical, visto que não nasceu entrelaçada com a reivindicação de uma independência política (como no caso boémio), mas essencialmente como a procura e construção deliberada de uma identidade cultural enquanto factor distintivo.

Nesse sentido, Mikhail Glinka, compositor pertencente à mesma geração que, na literatura, impulsionou o movimento romântico russo, desempenhou um papel crucial. Em Glinka reconhece-se o papel de fundador de uma consciência nacional na cultura musical do seu país, sobretudo através da exploração do património folclórico como via de afirmação dessa identidade.

Tendo em conta o intenso desenvolvimento da música russa a partir da segunda metade do século XIX, não é de estranhar que Glinka tenha sido associado à ideia da fundação do nacionalismo musical russo, embora seja sempre necessário ter presente que os alicerces da sua música são, de facto, as estruturas musicais centro-europeias da transição do séc. XVIII para o XIX.

A ausência de estruturas académicas e escolásticas na Rússia - fruto da perpetuação de um sistema feudal e que gerava também uma educação musical baseada numa aprendizagem empírica mais do que naquela institucional -, teve como consequência uma prática generalizada do diletantismo que se manifestou num posicionamento consciente e determinado de oposição face à tradição didáctica e profissional que entretanto se ia procurando impor, mas que se reconhecia como estranha e, em última instância, hostil.

É justamente esta prática diletante que se encontra na origem da produção musical bastante irregular e desigual de Glinka.

Nascido numa família de pequenos proprietários rurais, este compositor foi educado em São Petersburgo. Embora não tenha tido propriamente uma educação musical, compôs uma série de boas canções e peças para piano, que executava enquanto músico amador nos salões musi¬cais da cidade, e partilhava o gosto generalizado dos russos pelas ópe¬ras francesa e italiana, assim como pelas temáticas mais românticas da história, da magia e do fabuloso.

Por volta de 1830, a ópera italiana tinha-se tornado o principal foco de interesse de Glinka e assim este empreendia nesse mesmo ano uma viagem a Itália, país no qual permaneceu três anos. Aí conheceu Bellini e inseriu-se na tradição italiana. No entanto no final da sua estada começava já a procurar afastar-se desse modelo, alimentando a ideia de escrever ópera "à maneira russa". É assim que, aquando do seu regresso à terra natal, Glinka se lança na escrita de uma ópera de forte conteúdo histórico e político intitulada Uma vida pelo Czar (1836) na qual, embora se possam observar de forma nítida, tal como em Ruslan e Ludmila (1842), os moldes italianos e franceses, emerge também de maneira muito clara o cuidado do compositor em utilizar as peculiaridades rítmicas e harmónicas do material folclórico russo que conhecia.

Uma vida pelo Czar, com os seus coros grandiosos e secções de bailado, chega a uma síntese, por vezes notável, das características melódicas italianas e russas, tendo o compositor idealizado um novo idioma de arioso com recitativo para a narrativa e o diálogo, que se tornaram um elemento fundamental em muitas óperas russas.

Foi o bom acolhimento de Uma vida pelo Czar, aquando da estreia em 1836, que estimulou o compositor a encetar outro projecto operático em 1837. A escolha temática recaiu, desta vez, sobre a história efabulatória do folclore russo Ruslan e Ludmila (1820) tratada em verso por Pushkin - A linguagem rica e melódica e, por vezes coloquial, deste autor russo, foi considerada por Glinka como o alicerce adequado para uma linguagem musical especificamente russa, tendo chegado a encomendar um libreto ao autor.

ResumoI Acto

O primeiro acto passa-se na sala de banquetes de Svetozar, o Grande Principe de Kiev, onde o príncipe festeja o casamento da sua filha Lyudmila com o cavaleiro Ruslan. Os convidados são entretidos pelas canções de Bayan, um bardo que prevê momentos de aflição para os noivos, superados pelo verdadeiro amor e, consequentemente, pela felicidade. Lyudmila está dividida entre o sentimento de alegria gerado pela união, e o sentimento de melancolia por ter que abandonar a vida que sempre conheceu e o seu pai. Para além do pai e dos seus amigos, estão também presentes, tal como mandava a tradição, os pretendentes rejeitados por Lyudmila, Farlaf e Ratmir, naturalmente não muito satisfeitos. Contudo Lyudmila tem também uma palavra de consolação para estes dois cavaleiros.

Quando a festa está a chegar ao seu auge, ouve-se um grande trovão e tudo fica negro. As pessoas ficam paralisadas por um poderoso feitiço enquanto Lyudmila é levada por dois monstros. Quando a luz volta e todos recuperam, gera-se o pânico pelo desaparecimento de Lyudmila. Svetozar promete metade do seu reino bem como a mão da sua filha a quem a encontrar e trouxer de volta. Para Ruslan é a aflição que o faz partir de imediato à procura da sua noiva. Para Farlaf e Ratmir é a oportunidade de reconquistar a mulher que desejam.


II Acto

Os três cavaleiros partiram então á procura de Lyudmila. Ruslan chegou a uma gruta onde vive o eremita Finn. O eremita acredita ter sido Chernomor, um poderoso feiticeiro, o autor do sequestro de Lyudmila. Acrescenta que Ruslan deve ir á procura do feiticeiro para o destruir. Ruslan, intrigado com tudo aquilo, pergunta a Finn porque é que ele vive naquele lugar desolado. Então Finn conta-lhe a história de um amor antigo, dos tempos em que ele ainda era um pastor na sua pátria distante e se apaixonou por uma jovem de uma beleza transcendental e cujo nome era Naïna; de como, depois de ter sido rejeitado por ela, se alistou no exército, na esperança de que a glória militar o tornasse digno do amor da jovem; e de como, mesmo assim, ela continuou a rejeitá-lo. Foi por causa de tudo isto que ele resolveu estudar magia para, pelo menos assim, poder conquistar aquela por quem estava tão loucamente apaixonado. Os anos passaram e ele tornou-se num grande feiticeiro, foi então que deu de caras com velha mulher, corcunda e com os cabelos completamente brancos - era Naïna. Agora, era ela que estava completamente apaixonada por ele, acontece que os anos não lhe foram mesmo favoráveis e tornou-se numa mulher tão feia que Finn fugiu dela. Foi por isso que foi para aquele lugar inóspito onde se encontrava escondido de forma a nunca mais ter que encarar Naïma. Por sua vez, Naïna, por ter sido abandonada tornou-se numa mulher amargurada e com sede de vingança e o seu coração, acrescenta, só poderá ser amolecido por alguém como Ruslan. Eis a história do velho Finn. Assegurando a Ruslan que nada de mal acontecerá a Lyudmila, o eremita manda-o para norte e os dois separam-se em direcções opostas.

Entretanto, na cena seguinte, vamos para outra região, onde Farlaf procura Lyudmila. Quando está quase a desistir, dá de caras com Naïma que se aproxima dele. Ela ouve a história e promete ajudá-lo a encontrar Lyudmila mas, para isso, ele tem que afastar Ruslan do caminho. Naïma desaparece e Farlaf rejubila com o sucedido.

Na terceira cena Ruslan, tendo atravessado um denso lençol de nevoeiro vai dar com um campo cheio armas caídas e restos mortais. Encontra-se sem dúvida no lugar de uma batalha passada que o tempo ainda não apagou. Impressionado com aquele cenário, Ruslan pergunta-se se aquele não poderá também ser o seu destino. Apanha um escudo e uma lança do chão e atira com as suas armas partidas para longe. No entanto não encontra uma espada suficientemente pesada e digna de um cavaleiro como ele. Quando se prepara para ir embora, no momento em que o nevoeiro começa a levantar, aparece uma cabeça gigante que com a força do seu sopro desencadeia uma tempestade e faz recuar Ruslan. Como reflexo de defesa Ruslan atira a sua nova lança contra a cabeça monstruosa acertando-lhe em cheio. A cabeça cai para trás, revelando debaixo dela uma espada. Ele retira a espada e depois pergunta à cabeça de onde vem e o que faz ali. A Cabeça, moribunda, explica-lhe que já pertencera a um gigante e que o seu irmão é o duende e feiticeiro Chernomor. A espada que ali se encontra é uma espada encantada, destinada a destruir ambos os irmãos, o gigante e o duende. Um dia, Chernomor aproveitou o seu irmão desprevenido e através de magia separou-lhe a cabeça do corpo atirando-a para aquele local de forma a esconder a espada. Agora que Ruslan está na posse da arma encantada, o gigante pede-lhe que o vingue e que mate Chernomor.


III Acto

Às portas do castelo encantado de Naïma, jovens donzelas seduzem os viajantes que por ali passam, convidando-os a entrar naqueles domínios.

Aparece-nos agora uma nova personagem: Gorislava, uma jovem que já pertencera a Ratmir e que depois fora abandonada por ele. Também ela se encontra às portas do castelo na esperança que passe por ali o cavaleiro que a seduziu e depois a abandonou. E realmente Ratmir passa por ali, mas num momento em que Gorislava se ausenta. Então as donzelas chamam-no e seduzem-no através das suas danças. O último viajante a entrar no castelo é Ruslan, seduzido por Gorislava e esquecendo-se completamente da sua missão e de Lyudmila. É nesse momento que aparece Finn. O eremita pronuncia um final feliz para Ratmir e Gorislava e, também, para Ruslan e Lyudmila. Depois, desfaz-se o feitiço e o castelo dá lugar a uma densa floresta.

Como que acordados de um sono profundo, resolvem partir de novo em busca de Lyudmila.


IV Acto

Lyudmila está presa nos jardins encantados de Chernomor. Ela anseia pela chegada de Ruslan e resiste aos encantamentos daquele espaço. Chega Chernomor e são preparadas danças em sua honra. Depois ouve-se um trompete que anuncia Ruslan. Chernomor lança um feitiço a Lyudmila e parte ao encontro de Ruslan. Durante a batalha cumpre-se a profecia e Ruslan trespassa o duende com a espada que encontrou debaixo da cabeça do gigante. Quando entra em cena, Ruslan traz à volta do seu elmo as barbas do duende como símbolo da sua vitória. Mas nem tudo está como devia ser: Lyudmila ainda está sob o feitiço de Chernomor. Então decidem voltar para Kiev na esperança de encontrarem ajuda para Lyudmila junto dos mágicos locais. Os escravos de Chernomor seguem voluntariamente os quatro heróis, Ruslan e Lyudmila e Ratmir e Gorislava.


V Acto

A primeira cena tem lugar num vale iluminado pela lua cheia onde os quatro heróis decidiram pernoitar. Ratmir, que ficou de guarda, expressa sentimentos de preocupação por Ruslan, e de felicidade por Gorislava. É interrompido dos seus pensamentos por um dos ex-escravos de Chernomor que lhe vem dizer que Lyudmila fora novamente raptada e que Ruslan fora no encalço do raptor. Entretanto aparece Finn. O eremita dá um anel mágico a Ratmir e diz para ser colocado no dedo de Lyudmila quando ela for levada novamente para Kiev. Esse anel vai resgatá-la do feitiço de Chernomor.

Na segunda cena voltamos à sala de banquetes de Svetozar. Lyudmila está deitada sobre as mesas e o grande príncipe de Kiev não sabe o que fazer. Ao seu lado está Farlaf que, com a ajuda de Naïna, raptou Lyudmila para a levar para Kiev, de modo a dar a entender ter sido ele o salvador da princesa. Mas também Farlaf não sabe o que fazer perante a letargia de Lyudmila. Nesse momento chegam Ruslan, Ratmir e Gorislava. Ruslan coloca o anel no dedo de Lyudmila e ela acorda. Assim se prova ser ele o seu verdadeiro salvador. A ópera termina com o povo de Kiev a aclamar o jovem casal.