Ouvir
Mezza-Voce
Em Direto
Mezza-Voce André Cunha Leal / Produção: Susana Valente

Argumentos de Óperas, Obra


Tamerlano

Ópera em três atos

Libreto Nicola Francesco Haym

Estreia 31 de outubro de 1724, no The King's Theatre em Haymarket

AntecedentesHandel iniciou a composição de Tamerlano a 3 de Julho de 1724. O libreto é uma adaptação de Nicola Haym do Tamerlano de Agostino Piovene, Tragedia per musica composta por Francesco Gasparini e executada em Veneza em 1711. Quando Handel datou a última página do original, no dia 23 de Julho de 1724, a obra parecia estar completa, contudo nos três meses que antecederam à estreia no King´s Theatre em Haymarket em 31 de Outubro, tinham sido feitas tantas alterações e revisões que se teve que escrever uma nova partitura.

O primeiro motivo para a revisão foi uma mudança no elenco: o papel original de Irene foi originalmente pensado para soprano, o que levou Handel a ter que o adaptar para a contralto Anna Dotti; uma revisão ainda mais radical foi motivada pela chegada a Londres, em Setembro de 1724, do tenor Francesco Borosini, que foi escalado para cantar Bajazet. Ele deve ter trazido consigo o libreto e a partitura original de uma segunda série da história de Tamerlano, Il Bajazet, Dramma per musica, que Gasparini escreveu para Reggio Emilia em 1719, na qual Borosini cantou o papel de Bajazet. Para esta versão, o libreto original de Piovene havia sofrido mudanças bem radicais por Ippolito Zanella e outros escritores, embora haja evidências de que, a magnifica cena da morte de Bajazet, que é a melhoria mais impressionante sobre o libreto anterior, foi inspirada pelo próprio Borosini. Foram então feitas alterações importantes na ópera de Handel, de modo a incluir partes do libreto de Piovene alteradas da sua versão original por Haym. Foi então necessária nova música, especialmente para o início do primeiro acto e para o final do terceiro. Mas o trabalho de Handel não terminou por aqui, em muitas partes já escritas para Bajazet ele viu-se obrigado a rever a tessitura da parte vocal pois, tendo ouvido Borosini cantar, chegou à conclusão que algumas passagens eram muito altas para o cantor.

As duas versões ainda convivem pois, de acordo com os cantores, uma ou outra voz pode encontrar mais facilidade para interpretar esta ou aquela versão.

Resumindo, a ópera sofreu uma turbulenta gestação enquanto o seu autor ia fazendo as modificações que julgou necessárias.

Handel concentrou-se em fazer o final do terceiro acto mais dramático e bem compacto, baseando-se no libreto de Piovene. A morte de Bajazet tem lugar fora do palco e era meramente constatada pelos demais presentes em cena. Então, à vista da literatura e das sugestões, Handel acrescentou novo material, inspirado no libreto de 1719 e em parte das marcações de Gasparini mantendo-se, contudo, o final original. Foi então em cima da data de estreia que Handel resolveu remover esse final substituindo-o por um recitativo "Barbaro! Or manca solo", e vai directamente para o Coro final, o efeito dramático é óbvio, a cena de morte de Bajazet passa para o palco e é a cena que encerra a ópera, qualquer outro final seria uma anti-climax.

Tarmelano foi estreado a 31 de Outubro de 1724. Foram feitas doze récitas entre a estreia e 8 de Maio de 1725. Handel repôs a ópera em 1731 para mais três récitas, para as quais voltou a rever a partitura, efectuando alguns cortes e alguns recitativos.


Resumo


A ação passa-se em 1402 na Prusa, capital da Bitínia.

I. Acto

A abertura conduz-nos, carregada de presságios, ao palácio de Tamerlano onde Bajazet está preso. Por ordem de Tamerlano, Andronico desacorrenta-o mas o turco rejeita a demonstração de clemência, que lhe soa a falso. Bajazet afirma que só o amor da sua filha Astéria o impede de se suicidar. Entretanto Tamerlano encarrega Andronico de defender a sua causa junto de Bajazet e Astéria e oferece-lhe, como recompensa, em caso de êxito, o trono da Grécia, a mão de Irene e, para Bajazet, o perdão e a liberdade.

Andronico encontra-se em difícil situação. Foi ele quem aproximou Astéria de Tamerlano, na esperança de abrandar o coração do tirano, mas o resultado foi que este se apaixonou. O próprio Andronico ama perdidamente Astéria. Mas Tamerlano decide ir pessoalmente ao encontro da filha de Bajazet, revelando-lhe ao mesmo tempo o seu ardor amoroso e o acordo que julga ter selado com Andronico. Astéria mostra-se triste e indignada com a aparente traição de Andronico.

Bajazet despreza a liberdade oferecida pelo inimigo e reage vigorosamente à atitude aparentemente ambivalente de Astéria, que não lhe parece rejeitar com a necessária determinação os avanços de Tamerlano. Sozinha, Astéria revela no entanto, que por mais ferida que se sinta com a aparente traição de Andronico, o seu sentimento em relação a ele permanece inalterado.

A situação complica-se com a chegada de Irene, que é informada por Andronico de que Tamerlano mudou de planos a seu respeito: ela já não vai casar-se com o monarca tártaro, mas com o próprio Andronico. Este propõe um plano para salvar a situação: ainda desconhecida de Tamerlano, Irene pode apresentar-se como uma sua confidente, de forma a demovê-lo da decisão em casar-se com Astéria. Ela concorda.


II. Acto

Tamerlano comunica a Andronico que Astéria aceitou ser sua imperatriz e que a boda será celebrada em breve, juntamente com a de Andronico e Irene. Por seu lado Astéria finge garantir a Andronico, após uma cena de mútuo desentendimento, que deverá ser a mulher de Tamerlano. Sozinho, Andronico expressa sua dor.

Disfarçada, Irene é levada por Leo à presença de Tamerlano. A defesa dos interesses da verdadeira Irene é recebida com surpreendente equanimidade pelo tirano. Depois, quando Irene e Astéria se encontram, revelam uma à outra os seus verdadeiros sentimentos. Ao contrário de Leo, que se limita a comentar a irresistível força do amor, para o bem ou para o mal, a infeliz mas imperturbável Irene divisa um raio de esperança no que acaba de ouvir.

Entretanto, ao ser informado de que Astéria subirá ao trono com Tamerlano, Bajazet decide impedi-la. Também Andronico ameaça vingar-se de Tamerlano e, num acesso de fúria, suicidar-se.

Astéria decidiu casar-se apenas para matar o tirano. Mas no momento em que está prestes a subir ao trono de Tamerlano, Bajazet intervém vigorosamente. Tamerlano tenta forçá-lo a prostrar-se em reverência. Lançando olhares significativos ao pai e a Andronico, Astéria aproxima-se do estrado para subir ao trono, mas Bajazet interpõe-se em protesto. Sacando de um punhal, Astéria, desesperada, afirma que seria este seu presente de núpcias a Tamerlano. O tirano ordena a execução de Astéria e Tamerlano. Astéria pergunta sucessivamente ao pai, ao amante e a Irene se tem sido infiel ou indigna. Em breves árias sem da capo e começando com a palavra "Não!", cada um dos três reconhece a pureza dos votos de Astéria. Sentindo-se justificada, ela rejubila, lamentando apenas ter fracassado na tentativa de assassinato. Mas, embora cheia de grandeza e caracterizando-se como uma heroína trágica, Astéria mostra dar mais importância à felicidade perdida do que à vingança planeada.

 

 

III Acto

Astéria e Bajazet decidem suicidar-se com o veneno que ele tem escondido, e a jovem, que ganha em grandeza humana à medida que se agrava o seu sofrimento, lamenta, agora sozinha, ter de deixar o pai e o amante. Tamerlano que revelou seu lado mais tirânico na recente tentativa de humilhar Bajazet, mostra agora outro lado do seu carácter, mais uma vez tentando conseguir que Andronico convença Astéria do seu amor e mesmo de sua decisão em perdoar Bajazet. Andronico reúne toda a sua coragem para desafiar Tamerlano e declara seu amor por Astéria, que afirma correspondê-lo. A disposição conciliadora de Tamerlano desaparece e exprime a sua fúria, jurando vingança. Bajazet tenta recobrar o ânimo dos amantes cujo único consolo é poderem enfrentar juntos o destino cruel.

E Irene? Ela apenas espera poder dar todo o seu amor a Tamerlano. Numa passagem cheia de optimismo, Leo manifesta a esperança de que o amor triunfe sobre o ódio.

Tamerlano está decidido a liberar sua raiva humilhando suas vítimas e, convoca sucessivamente Bajazet e Astéria à sua presença. Andronico protesta contra semelhantes actos de injustiça e implora por clemência. Inflexível Tamerlano ordena Astéria que lhe sirva vinho, como uma escrava. Ela verte no copo o veneno que seu pai lhe entregara, mas, Irene, que a observava, denuncia a tentativa, ao mesmo tempo revelando a Tamerlano a sua verdadeira identidade. Então Tamerlano ordena a Astéria que ofereça o vinho ao pai ou ao amante antes de entregar-lhe o copo. Astéria faz menção de beber, ela mesma, o conteúdo do copo mas Andronico arranca-lhe o copo da mão. Furioso, Tamerlano ordena a prisão de Astéria: ela será conduzida ao serralho das escravas e Bajazet será testemunha de sua vergonha! Insultado até a sua última geração, o imperador turco jura, que o seu fantasma retornará para assombrar o tirano. Tamerlano e Irene celebram antecipadamente os prazeres que os esperam, fruto de todo o sofrimento causado por Tamerlano.

Anunciada por Leo e seguida de Bajazet, Astéria chega à presença de Tamerlano. Bajazet surpreende todos com a sua aparente serenidade, mas não demora a revelar que tomou veneno e que logo estará livre do seu carrasco. Despede-se dolorosamente da filha e começa caluniar Tamerlano - as palavras vão-se tornando cada vez mais incoerentes e, ele arrasta-se para fora, expirando nos braços de Astéria e Andronico. Astéria regressa a implorar que lhe seja dada a morte, pois Tamerlano jamais conseguirá a sua submissão. Irene e Andronico procuram impedir Astéria de se suicidar mas Tamerlano, movido por piedade ante o horror dos acontecimentos e a dignidade das súplicas de Irene, perdoa os seus antigos inimigos. Tamerlano e Irene trocam juras e o coro anuncia que as tochas do amor dissiparam as trevas da noite, embora em tom mais consentâneo com os sombrios acontecimentos da ópera do que com o habitual final feliz da opera seria.