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Sol Maior
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Sol Maior Pedro Rafael Costa

Argumentos de Óperas, Obra


O Espírito de Contradição (Lo Spirito di contradizione)

PersonagensCondessa Flaminia (Baronesa do Castelo, espírito de contradição e amante de D. Cesarino)
Don Cesarino (Um impostor)
Lisetta (Donzela de condição e amante de D. Cesarino)
O Governador Asdrubale (homem ignorante, pretendente à mão da Condessa)
Cecchina (Rica camponesa, moradora no burgo e amante de D. Cesarino)
Orazio Capocchio (químico e amante de Lisetta)
Agabito (notário do burgo)

AntecedentesA 30 de Setembro de 1741, nasce em Lisboa na freguesia de Nossa Senhora da Ajuda Jerónimo Francisco de Lima.

Aos 10 anos entra para o Seminário da Patriarcal, tendo já por essa altura alguns conhecimentos musicais.

Em 1760, por ordem de sua Majestade, o Rei D. José I, parte para Nápoles para se aperfeiçoar na arte do contraponto. Um ano depois entra para o Conservatório de Santo Onofrio a Capuana, em Nápoles, conjuntamente com João de Sousa Carvalho e com seu irmão Braz Francisco de Lima.

De regresso a Lisboa, assina o livro de entradas para a Irmandade de Santa Cecília em 1767, ano em que é nomeado professor do Seminário da Patriarcal, acumulando estas novas funções, com as de cantor.

Em 1798 sucede a João de Sousa Carvalho no cargo de Mestre de Capela da Patriarcal.

Jerónimo Francisco de Lima morre a 19 de Fevereiro de 1822.

A música de Jerónimo Francisco de Lima era bastante apreciada na corte, e muitas vezes escolhida para ocasiões especiais.

Prova disso são algumas representações de obras suas por ocasião de diversos aniversários, como por exemplo a apresentação efectuada em 1779 no Palácio da Ajuda da serenata "Gli orti esperidi", com libreto de Metastásio, para celebrar o aniversário da Rainha-Mãe, D. Maria Vitória.

Dois anos mais tarde, também no Palácio da Ajuda estreia-se a serenata "Enea in Trácia", com libreto de Martinelli, esta para celebrar o aniversário de D. Maria I.

Em 1783 representa-se no Palácio de Queluz a serenata "Teseo", com libreto também de Martinelli, para celebrar agora o aniversário do Príncipe D. José, filho de D. Maria I.

O drama giocoso em 3 actos "Lo Spirito di contradizione" com libreto de Gaetano Martinelli foi estreado no Carnaval de 1772 no Teatro de Salvaterra.


1.º ActoNa sala de audiências do Governador Asdrubale, encontram-se reunidos Agabito (o notário), Lisetta (donzela de condição), Cecchina (uma rica camponesa), e Orazio Capocchio, (químico e namorado de Lisetta).

Lisetta, Cecchina e Orazio querem todos ser ouvidos pelo Governador do burgo, mas cada um deles acha que tem o direito de falar primeiro, instalando-se grande confusão. O Governador perante tamanha desordem ameaça terminar a audiência.

Finalmente Lisetta toma a palavra e queixa-se de que Orazio a quer obrigar a casar-se com ele contra a sua vontade, já que ela ama outro.

Asdrubal pede em segredo ajuda ao notário, mas perante o silêncio deste abandona a audiência. O notário sugere aos dois namorados um entendimento amigável, mas estes saem da sala sem se entender.

A sós com Cecchina, Agabito declara-lhe o seu amor, mas esta confessa-se apaixonada por Don Cesarino.

Numa praceta da vila, Don Cesarino sai de casa de Lisetta, acompanhado por esta, e a quem promete casamento, revelando-lhe no entanto não ter dinheiro para as despesas matrimoniais. Lisetta põe de imediato à sua disposição o seu dote de 1.000 escudos em ouro e Don Cesarino promete regressar em breve com um notário.

Entretanto aparece Agabito, que se dirige para o porto ao encontro da barca que traz a Condessa.

Quando Don Cesarino pretende segui-lo surge Cecchina, que lhe diz já ter arranjado 500 sequins para pagar o contrato nupcial.

No porto, o Governador Asdrubale dá instruções quanto ao modo como todos devem receber a Condessa. Quando esta desembarca, recebe desabridamente os cumprimentos, e ordena a todos que a aguardem no tribunal.

Todos partem excepto Don Cesarino, a quem a Condessa lembra que se deverá casar com ela naquele dia, e a quem promete dar 1.000 dobras depois da assinatura do contrato.

Numa sala do Palácio da Condessa destinada ao tribunal, Don Cesarino renova as promessas de casamento junto de Lisetta, de Cecchina e da Condessa, mas aparte ele afirma que tenciona enganar todas três.

Chega o Governador, que toma lugar no tribunal, para ler um requerimento de Orazio. O Governador decreta em latim que Lisetta terá de se casar com Orazio e que Don Cesarino será imediatamente expulso do burgo. A Condessa tira-lhe o decreto da mão e revoga-o, dizendo que está mal feito. No entanto, quando o governador concorda com ela, a Condessa, animada pelo seu espírito de contradição, ordena-lhe que o escreva novamente.

O acto termina na maior confusão, com a Condessa dando repetidamente o dito por não dito, unicamente para contradizer todos os outros.


2.º Acto

Na praceta da vila o notário tenta convencer o Governador a fazer com que Cecchina se case com ele, oferecendo-lhe em troca gratuitamente todos os actos e escrituras notariais que aquele lhe deve.

Aparece Cecchina, e Agabito corteja-a ajudado pelo Governador, no entanto esta rejeita-o e parte. Agabito lamenta-se, mas o Governador faz troça dele mandando-o embora ao ver aproximar-se a Condessa. Por seu turno o Governador tenta cortejar a Condessa, que o rejeita.

Don Cesarino aparece e fala com desprezo à Condessa. Agora o Governador tenta denegrir a imagem de Don Cesarino, mas a Condessa contradi-lo e ele acaba por partir, ao sentir-se ofendido.

A Condessa e Don Cesarino discutem sobre qual dos dois, o marido ou a mulher, deve mandar. A Condessa parte e Don Cesarino entra em casa de Lisetta. Aparecem Orazio, Agabito e o Governador, que discutem com qual das três mulheres Don Cesarino se vai de facto casar.

Este sai de casa de Lisetta e eles interrogam-no sobre as suas verdadeiras intenções matrimoniais. Don Cesarino segreda sucessivamente aos três que se irá casar com a mulher que cada um deles não pretende, e propõe que os três casamentos sejam celebrados com uma grande festa, que começa desde logo a ensaiar.

Depois de D. Cesarino partir, os três descobrem que ele disse uma coisa diferente a cada um deles, e Agabito e Orazio resolvem ir atrás dele.

Don Cesarino regressa com um notário. Aparece Lisetta, com quem ele combina encontrar-se na Conservatória, pedindo entretanto ao Governador que lhe sirva de testemunha do contrato nupcial. Don Cesarino parte, e Lisetta canta a sua alegria antes de se ir embora com o Governador. Don Cesarino volta com outro notário, sendo desta vez interpelado por Orazio.

Aparece Cecchina, e repete-se a cena passada com Lisetta e com o Governador. Orazio lamenta-se amargamente de se ver rejeitado por Lisetta.

Na Conservatória do Registo do burgo aparece Don Cesarino, o qual indica que marcou ali encontro com cada uma das suas três noivas a uma hora diferente. Agabito chega, seguido da Condessa. Quando se começa a lavrar o primeiro contrato nupcial, chega Cecchina com Orazio e com um outro notário, e logo a seguir Lisetta com um terceiro notário. No meio da confusão, Don Cesarino consegue assinar os três contratos e receber o dote prometido de cada uma das três noivas, explicando a cada uma delas que está a servir de testemunha nos contratos das outras duas.

Depois de ele partir a Condessa convida os outros para um baile, mas entretanto todos descobrem que Don Cesarino se desposou com as três mulheres ao mesmo tempo.

O Governador e Agabito decidem mandar prendê-lo, enquanto que a Condessa fica sozinha e se lamenta por ter sido enganada. Numa estrada Orazio encontra-se com o Governador e com Agabito, os quais na ausência dos esbirros resolvem eles próprios prender Don Cesarino. Quando este aparece, o Governador e Agabito tentam retê-lo com pretextos fúteis, enquanto Orazio parte para ir chamar as três noivas enganadas.

Aparecem sucessivamente Lisetta, Cecchina e a Condessa, a quem Don Cesarino é forçado a devolver o dinheiro dos dotes. Entretanto as três mulheres juntam-se para lhe bater.


3.º Acto

Numa sala do Palácio da Condessa, Agabito informa o Governador que Don Cesarino foi preso. O Governador quer mandá-lo para as galeras, mas Agabito informa-o que o réu não tem dinheiro para pagar as custas do processo.

Chegam Lisetta e Cecchina, as quais dão a entender ao Governador que o gostariam de tomar por marido. Este contudo encontra-lhes defeitos, e elas insultam-no e batem-lhe.

Chega Orazio, que faz nova declaração a Lisetta e que agora é aceite por esta. A Condessa aparece, e Don Cesarino é levado diante do tribunal constituído pelo Governador e pelo notário Agabito. Don Cesarino confessa que o seu verdadeiro nome é Taccognano de Taccone, ou seja "remendão", e que só teria ficado satisfeito com a riqueza e a beleza das suas três noivas.

Cada um propõe um castigo mais severo do que o outro para o impostor, mas a Condessa decide ela própria dar a sentença, e manda todos embora, excepto o réu. Quando Agabito pretende saber quem pagará as custas do processo ela dá-lhe uma bofetada como resposta. A Condessa fica só com Don Cesarino e debate consigo mesma se deve ou não castigá-lo, visto que está apaixonada por ele, acabando por decidir tomá-lo por marido.

Entretanto o Governador aceita casar com Cecchina e a Condessa convida todos para uma festa naquela noite.