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Antecedentes e resumoLisboa, 1755
Um Terramoto Entre Dois Mundos

Texto de Viriato Soromenho-Marques,
Publicado num Suplemento especial da Revista Visão, 27 de Outubro de 2005


A catástrofe que atingiu Lisboa na manhã de 1 de Novembro de 1755 - a parte mais dramática de uma convulsão natural que também não poupou Cádiz e muitas cidades do Norte de África, como Rabat e Fez - manifestou-se através da conjugação de três factores mortíferos: o movimento telúrico, propriamente dito; o maremoto resultante do facto de o epicentro do sismo estar situado no mar; o fogo que depressa se expandiu pelo ferido tecido medieval da cidade, abundante em madeira, transformando os escombros em cinzas.

Em poucos minutos desapareceram, por entre os destroços, as Igrejas, os palácios, os sinais da memória construída daquele que era o terceiro maior porto da Europa e a capital de um vastíssimo império comercial e colonial. O cômputo das vítimas - desse evento que doravante ficaria consagrado no imaginário português e europeu como o paradigma da catástrofe natural - embora impossível de determinar com precisão, ter-se-á situado entre os dez e os trinta mil mortos, o que significa, em termos relativos, uma elevadísima percentagem da população lisboeta da época. Por outro lado, a área e os edifícios devastados, ainda numa óptica comparativa de consideração, apresentam um índice superior ao das cidades europeias mais martirizadas por bombardeamentos convencionais, no decurso da Segunda Guerra Mundial. Com a agravante de o caos causado durante anos de guerra, ter sido, no caso de Lisboa, obra de alguns terríveis minutos da Natureza em fúria.


Uma onda de choque europeia

Enquanto os portugueses, aturdidos, faziam o trágico balanço e lançavam as mãos ao trabalho da reconstrução, o terramoto continuou a exercer o seu efeito de choque por entre as cortes, as academias e os centros culturais e científicos da iluminista e aristocrática Europa setecentista.

Pode bem dizer-se que o quadro das consequências espirituais do terramoto de Lisboa se manifestou como um autêntico mosaico policromático, um arco-íris intelectual, tal foi a riqueza e diversidade dos comentários e interpretações por ele suscitadas.

Houve interpretações sobrenaturalistas e providencialistas. Immanuel Swedenborg, essa fascinante personalidade de místico e visionário, viu no holocausto de Lisboa, o sinal esperado para lançar, na sua distante Suécia, as pedras basilares de uma nova Igreja. Na Alemanha, Johann Gottlob Krüger num estudo orientado por um desígnio moralizador descreve as poderosas forças da Natureza como um obediente exército ao serviço da vontade divina. Do mesmo modo, o ainda jovem Johann Friedrich Jacobi, num texto onde se mistura curiosidade empírica, e piedoso proselitismo, encara a destruição de Lisboa como um convite para que todos os cristãos encarem a sua existência como um contínuo exercício preparatório para o Juízo Final. Em Portugal, de entre quase duas dezenas de autores com textos significativos e diversos, o padre jesuíta italiano, Gabriel Malagrida, que
viria a sucumbir no processo dos Távora, destaca-se pela sua recusa em conferir qualquer significado ao terramoto para além da tese sobrenatural do castigo divino lançado como expiação dos pecados humanos.

Registaram-se também contribuições explicativas de recorte dominantemente naturalista e científico, embora de valor, alcance e durabilidade muito diversos. Gottfried Profe, professor em Altona, numa interpretação maximalista e caricatural da teoria newtoniana da gravitação universal, tornaria o sismo de Lisboa no efeito da conjunção, natural e fatídica, das forças de atracção dos maiores planetas, ao longo do seu movimento de translação em torno do Sol. Por seu turno, Kant, ainda na condição de jovem e quase desconhecido pensador, dedicaria ao tema do terramoto, logo em 1756, nada menos do que três publicações. Kant, que assevera desde início estar interessado apenas numa descrição "do trabalho da Natureza" (die Arbeit der Natur), estabeleceria o carácter complexo das anomalias sísmicas, relacionando o desditoso acontecimento de Lisboa com outras perturbações telúricas ocorridas antes e depois de 1 de Novembro de 1755. Embora ainda longe da actual teoria explicativa dominante, baseada no movimento das placas tectónicas, Kant relacionava, penetrantemente, os sismos com a composição e densidade dos materiais interiores do planeta, ensaiando uma curiosa ligação com o fenómeno vulcânico, segundo a qual, talvez a eventual existência de um vulcão na Serra da Estrela pudesse servir como válvula de segurança para evitar as piores consequências dos terramotos... Na mesma linha de rumo se encontra o naturalista Tobias Mayer, também ele decidido a separar as preocupações morais e filantrópicas da simples avaliação, se possível de modo rigorosamente quantitativo, das forças naturais envolvidas nos fenómenos sísmicos e vulcânicos. Até porque em 18 de Fevereiro de 1756, toda a região compreendida entre Frankfurt e Amsterdão havia sido sacudida violentamente...


Dor e condição humana

A mais profunda e significativa consequência da catástrofe de Lisboa foi, contudo, sentida no plano da mudança de mentalidades. Aí podemos falar numa verdadeira transição entre dois mundos, de que o principal protagonista foi o arguto e penetrante espírito crítico de Voltaire.

Para Voltaire, que poucos meses depois do terramoto publicou o seu famoso Poema Sobre o Desastre de Lisboa, o desaparecimento brutal de uma grande capital europeia, a morte de milhares de vítimas inocentes, a explosão cega das forças da Natureza, mostravam o erro das correntes optimistas que eram preponderantes na Europa do seu tempo.

Na verdade, os meios intelectuais europeus viviam ainda sob a poderosa influência das concepções desenvolvidas pelas duas obras mais influentes da primeira metade do século XVIII: Os Ensaios de Teodiceia, de Leibniz (1710); e Um Ensaio sobre o Homem, de Alexander Pope (1733-4). Essas duas obras, complexas e ricas como os seus autores, eram repercutidas pelo eco tão magnificante como simplificador da numerosa multidão dos seus epígonos.

Os partidários da teodiceia e do optimismo procuravam conciliar a bondade e o poder infinitos de Deus, com a existência das diferentes modalidades de mal no mundo. Eles procuravam mostrar, colocando-se com ousadia no lugar inaugural da mente divina ao criar o cosmo, que mesmo as catástrofes faziam parte da economia do "melhor dos mundos possíveis", que é este mundo que todos habitamos.

Ao contrário dos optimistas, que insistiam na tese de que o mal e o sofrimento particulares contribuíam para a completude e a harmonia de todo o universo, que em última instância resultara da melhor escolha que Deus pudera realizar, Voltaire defendia a existência dolorosamente real do mal e do sofrimento como componentes sombrios e irredutíveis da experiência humana. Nenhuma teoria poderia consolar os lisboetas sofredores, ou dar-lhes uma razão válida para que, de entre todas as cidades do mundo, a desgraça os tivesse visitado a eles.

Em Agosto de 1756, também Rousseau entrou no debate através de uma polémica carta a Voltaire. Apesar de algumas divergências, algo imprecisas, Rousseau já é devedor da própria atmosfera pós-teodiceia, que Voltaire contribuíra decisivamente para abrir. Quando Rousseau aconselha os lisboetas a construírem edifícios baixos para respeitar as leis da Natureza, o que, no fundo, se insinua é o mesmo que com ironia genial será reafirmado no Cândido de Voltaire (1759): na grande solidão da condição humana, cabe ao homem através da sua acção criadora - e não na vã e especulativa procura de um oculto desígnio divino - encontrar as razões e as causas de uma felicidade à sua altura, isto é, sempre possível e efémera. "É preciso trabalhar no nosso jardim"...


O novo mundo da razão

Depois de décadas de hegemonia, o terramoto de 1755 esfumou como por magia a mentalidade europeia dominada pela atmosfera barroca do optimismo. Doravante, a razão desistiria da vaidade de tentar colocar-se no lugar de Deus. Com a crítica kantiana a racionalidade humana assumiu a sua finitude, mas com enorme eficácia. Tornou-se dominantemente prática, como as obras de Fichte, Hegel, Schopenhauer, Marx, Nietzsche, entre outros, o confirmariam claramente. Os atributos de Deus foram silenciados. Em vez da teodiceia entrámos na era da "filosofia da história", um termo que foi cunhado, ignificativamente, por Voltaire.

No século XVIII a humanidade assumia-se como vítima perante catástrofes naturais como o terramoto de Lisboa. Hoje é a Natureza que parece vacilar perante a ameaça de uma humanidade seguramente com mais poder do que sabedoria. Não estaremos a esquecer alguma coisa, algum perturbante detalhe, nesta narrativa do poder humano que ocupa todos os focos de luz da reflexão contemporânea?

Os 300 000 mortos do tsunami de Novembro de 2004, e do terramoto de Outubro de 2005 aí estão, com o seu comovente testemunho, a assinalar que a Natureza continua a dar as cartas num jogo cujas regras, apesar da nossa insuportável arrogância, nos continuam a escapar no que é essencial.

A Ode do trovão

Georg Philipp Telemann trabalhava em Hamburgo por altura do grande terramoto que destruiu Lisboa. Nessa altura Telemann detinha uma série de cargos de responsabilidade musical, passando pela supervisão da ópera e a direcção musical em cinco igrejas da cidade. Tal como todos os seus contemporâneos Telemann era apanhado desprevenido pelo grande terramoto que também se fizera sentir na Europa Central. Perante as descrições que chegavam de Lisboa toda a Europa, fortemente impressionada, procurava fazer chegar a ajuda possível à capital portuguesa, numa acção sem precedentes, precursora das grandes operações humanitárias actuais. Hamburgo não foi excepção, enviando dois navios carregados com provisões para Lisboa. Para além disso, as autoridades municipais de Hamburgo ordenaram que se respeitasse um dia de penitência pelas vítimas do terramoto, a 11 de Março de 1756 e, para tal, foi pedido a Telemann que compusesse uma obra que servisse a oração durante esse dia. Essa obra é a "Ode do Trovão".

Em vez de uma ode fúnebre, na ode de Telemann canta-se, louva-se e glorifica-se Deus, "cuja voz, como um trovão, é capaz de fazer colapsar toda uma montanha", lembrando-nos "da imensa grandiosidade de Deus e da imensa pequenez do homem". Se no texto não há nenhuma referência óbvia ao terramoto, a sua leitura está perfeitamente enquadrada com a ampla discussão sobre a condição humana que, há luz deste terrível acontecimento, atravessava a Europa.