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A Internet como pesadelo político

Para abordar a complexidade do caso Edward Snowden, Oliver Stone constrói uma impressionante teia dramática — em jogo está, afinal, uma conjuntura em que as relações entre tecnologia e política estabeleceram novas e perturbantes relações.

A Internet como pesadelo político
Melissa Leo, Joseph Gordon-Levitt, Tom Wilkinson e Zachary Quinto — sob o signo de Snowden
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 A Internet como pesadelo político
Snowden Quando Edward J. Snowden desvendou o programa secreto de vigilância mundial da NSA (Agência de Segurança Nacional Americana), simultaneamente abriu os olhos do mundo e fechou as portas do seu próprio futuro - desistindo da sua carreira, da sua namorada de longa data, e da sua terra natal. O que levou Edward Snowden a perpetrar a maior divulgação de documentos classificados na história ...

Não há muitos filmes como "Snowden", de Oliver Stone. Por uma razão que é, antes de tudo o mais, genuinamente política. De facto, seria muito fácil encerrar o caso Edward Snowden numa qualquer definição panfletária de "herói" ou "anti-herói" — o certo é que, no filme de Stone, ele é o pivot que nos leva reflectir sobre a complexidade das relações contemporâneas entre os mais sofisticados recursos tecnológicos e o exercício do poder político.

Por certo consciente dessa complexidade, Stone fez um dos seus filmes mais tradicionalmente biográficos: desde a entrada na CIA, empenhado em contribuir para que o seu país "fizesse a diferença", até à decisão de, em 2013, divulgar programas de vigilância da NSA (National Security Agency), Snowden é, afinal, um peão do mundo global em que, de facto, passámos a viver — a Internet é, aqui, o "admirável mundo novo" que se transfigura em pesadelo político.

Em boa verdade, Stone reencontra, assim, um drama nuclear de todo o seu universo cinematográfico. A saber: a tensão, por vezes insolúvel, entre a organização do colectivo (país, instituição, etc.) e os valores individuais. E fá-lo através de um elaboradíssimo trabalho de narrativa — e, muito em particular, de montagem —, capaz de criar um filme plural e aberto em que, de facto, cada espectador é convocado para usar a sua inteligência, resistindo a qualquer estereótipo mais ou menos panfletário, pró ou anti-EUA.

E não é a menor das maravilhas que Stone confirme, assim, em particular, as suas qualidades de director de actores — para nos ficarmos por três exemplos elucidativos da sua filmografia de cerca de três dezenas de títulos, lembremos Tom Cruise em "Nascido a 4 de Julho" (1989), Anthony Hopkins em "Nixon" (1995) e Josh Brolin em "W." (2008). 

Em "Snowden", deparamos com um elenco brilhante em que, para além de Joseph Gordon-Levitt, como Snowden, surgem ainda: Shaileen Woodley (Lindsay Mills, namorada de Snowden), Melissa Leo (a cineasta Laura Poitras, que filmou a confissão de Snowden em "Citizenfour"), Rhys Ifans (Corbin O'Brian, chefe de Snowden), Zachary Quinto e Tom Wilkinson (os jornalistas Glenn Greenwald e Ewen MacAskill).

A composição de Joseph Gordon-Levitt na personagem de Snowden é um caso admirável de concisão e versatilidade, capaz de resistir a qualquer esquematização de um ser humano. Será preciso sublinhar que, em tempos de heróis digitais sem alma (nem corpo...), Stone é um dos derradeiros humanistas de Hollywood? E que Gordon-Levitt merece uma nomeação para o Oscar?

Crítica de João Lopes
publicado 23:46 - 22 setembro '16

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