A cruel intimidade da droga

Retomando uma linguagem próxima de "Assassinos Natos", Oliver Stone filma agora os labirintos da droga: "Selvagens" tem tanto de crueldade como de nostalgia do paraíso perdido.

A cruel intimidade da droga
Blake Lively e Benicio del Toro: a América do presente, a nostalgia do passado
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 A cruel intimidade da droga
Selvagens O galardoado realizador Oliver Stone, regressa aos grandes ecrãs com o entusiasmante e arrebatador “Selvagens”, um thriller que reúne um elenco de estrelas em ascensão (Taylor Kitsch, Blake Lively e Aaron Johnson) e de atores consagrados (John Travolta, Benicio Del Toro e Salma Hayek). Baseado no best-seller de Don Winslow, o filme conta a história de dois amigos – Ben (Johnson), um Budista ...

Dizer que "Selvagens" é um filme sobre a droga, os seus circuitos e as suas estruturas de poder é uma evidência incontornável. Trata-se, aliás, nesse aspecto, de um objecto particularmente contundente, uma vez que descreve, com obsessiva atenção ao detalhe, os sistemas de produção, as estratégias de distribuição e, acima de tudo, os mecanismos de violência entre "cartéis", com a sua teia de assalariados e assassinos.

Dito isto, convém acrescentar também que se trata de um filme invulgarmente intimista, ou melhor, profundamente desconcertante no seu cruel intimismo. Isto porque, sem por um momento ocultar ou glorificar a violência de tudo isto, Oliver Stone faz também um filme marcado por uma estranha e envolvente pulsão romanesca: afinal de contas, esta é a história de um triângulo, Chon, Ben e Ophelia (ou apenas "O"), cujas atribulações no mundo da droga se enredam com a nostalgia do paraíso perdido.

Em boa verdade, Stone reencontra aqui a peculiar tensão do magnífico "Natural Born Killers/Assassinos Natos" (1994), com Woody Harrelson e Julette Lewis, elaborando uma história que tem tanto de crónica desencantada sobre o presente made in USA, como de fábula primitiva sobre uma América ideal ou idealizada. A tragédia de Chon, Ben e Ophelia confunde-se, afinal, com a aventura dos filhos que já não têm casa paterna (ou materna...) onde possam regressar.

Mais do que nunca, importa valorizar aquilo que, no cinema de Stone, decorre de um complexo trabalho com os actores. Taylor Kitsch (que vimos no papel principal de "John Carter"), Aaron Johnson (intérprete de John Lennon, em "Nowhere Boy") e Blake Lively (uma das excelentes secundárias de "As Vidas Privadas de Pippa Lee" ou "A Cidade") são os magníficos protagonistas. Mas importa não esquecer Salma Hayek, na figura de líder de um cartel, Benicio del Toro, como seu violento braço direito, e sobretudo o incrível John Travolta, compondo um polícia corrupto num desconcertante misto de realismo e distanciamento irónico.

Crítica de João Lopes actualizado às 00:54 - 06 setembro '12
publicado 00:51 - 06 setembro '12

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