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A fragilidade das relações humanas

Cristian Mungiu, já vencedor de uma Palma de Ouro de Cannes, voltou a ser premiado nesse certame com "O Exame", uma crónica centrada numa teia de relações pai/filha — o realismo romeno continua bem vivo.

A fragilidade das relações humanas
"O Exame": o labirinto das relações entre pai e filha
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 A fragilidade das relações humanas
O Exame Romeo, médico numa pequena aldeia da Transilvânia, sempre fez tudo para que a sua filha, Eliza, pudesse estudar no estrangeiro quando terminasse o ensino secundário. O seu sonho está prestes a concretizar-se: Eliza ganhou uma bolsa para estudar psicologia numa universidade inglesa. Para isso, só precisa de passar nos exames finais com boas notas. Um dia antes do primeiro exame, Eliza sofre um ...

Cristi Puiu, Corneliu Porumboiu, Cristian Mungiu... Estes nomes entraram na nossa actualidade cinematográfica e, mais do que isso, têm podido simbolizar uma atitude criativa em que a exigência de realismo se dirige tanto à complexidade psicológica das personagens como ao labirinto das suas relações familiares e sociais — eles são, afinal, a expressão de uma notável renovação temática e formal do cinema da Roménia.

Mungiu será a referência mais forte, quanto mais não seja porque, entre os muitos prémios acumulados pela produção romena nos últimos anos, foi ele que arrebatou o mais sonante: a Palma de Ouro de Cannes, em 2007, com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias". Agora, ei-lo com outro filme magnífico, "O Exame", também premiado em Cannes, no passado mês de Maio (melhor realização, ex-aequo com Olivier Assayas, por "Personal Shopper").

Mungiu encena o drama de um pai e uma filha, (des)unidos pela urgência dela terminar o seu bacharelato, de modo a garantir uma bolsa de estudo numa universidade inglesa; tudo isso se baralha com elementos de uma violência quotidiana que, afinal, ninguém controla... No limite, Mungiu encena o modo como as relações humanas, mesmo as aparentemente mais seguras, se revelam tocadas por uma fragilidade perturbante.

Por isso mesmo, o realismo está longe de ser uma mera questão de acumulação de detalhes mais ou menos pitorescos. Nada disso. Mungiu é um cineasta que não abdica da irredutibilidade das suas personagens, como quem diz que, afinal, a sua complexidade não cabe no tempo específico de uma ficção cinematográfica — este é um cinema gerado por um olhar exigente, à procura de um espectador que recuse a frivolidade.

Crítica de João Lopes
publicado 01:22 - 27 novembro '16

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