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A melancolia de Alice Rohrwacher

A italiana Alice Rohrwacher continua a praticar um cinema em que o apelo poético começa no mais estrito realismo — é desse paradoxo que nasce "Feliz como Lázaro", distinguido em Cannes com o prémio de argumento.

A melancolia de Alice Rohrwacher
Alice Rohrwacher — não esquecendo a herança de Pasolini
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 A melancolia de Alice Rohrwacher
Feliz Como Lázaro Esta é a história do encontro entre Lázaro, um jovem camponês tão bondoso que é muitas vezes confundido com um tolo, e Tancredi, um jovem nobre amaldiçoado pela sua imaginação. A vida na isolada aldeia pastoral Inviolata é dominada pela terrível Marquesa Alfonsina de Luna, a rainha dos cigarros. Um elo de lealdade é selado quando Tancredi pede a Lázaro para o ajudar a orquestrar o seu próprio ...

Em que pensamos quando pensamos em Pier Paolo Pasolini (1922-1975)? Qual a herança de títulos tão singulares, e também tão fascinantes, como "Accattone" (1961), "Mamma Roma" (1962) ou "O Evangelho Segundo São Mateus" (1964)?

Podemos pensar em qualquer coisa de tão preciso como inomeável. A saber: um sentido da narrativa que evoluiu, em ziguezague, num misto de experimentalismo e ironia, entre um realismo muito cru e uma permanente disponibilidade para transfigurações mais ou menos fantasiosas ou fantásticas.

Simplificando, diremos que Alice Rohrwacher, italiana como Pasolini, é uma legítima herdeira do seu labor e, sobretudo, da sua dimensão poética. Vimos tal relação a funcionar num filme como "O País das Maravilhas" (2014); voltamos a reconhecê-la em "Feliz como Lázaro", vencedor do prémio de argumento no último Festival de Cannes.

Tudo acontece em torno (e, num certo sentido, por causa) de Lázaro (Adriano Tardiolo), jovem inocente e incauto que vive num mundo rural em que a realidade crua do dia a dia não exclui, antes parece atrair, um paciente desejo de utopia. Até que, por uma série de circunstâncias mais ou menos bizarras, Lázaro é impelido para a grande cidade...

Dir-se-ia que Rohrwacher trabalha a partir de uma delicada melancolia. Num duplo sentido: melancolia de um mundo primordial, separado das atribulações da vida urbana (mesmo quando nele predominam ancestrais formas de exploração); e de um cinema capaz de celebrar esse mundo para além de qualquer naturalismo simplista.

Infelizmente, "Feliz como Lázaro" não consegue a consistência de "O País das Maravilhas", sobretudo na sua segunda parte (citadina) em que a liberdade de associação da primeira parte dá lugar a um tom demonstrativo algo simplista. Fica, em qualquer caso, a marca de um cinema italiano que sabe preservar as suas memórias mais íntimas.

Crítica de João Lopes
publicado 02:17 - 13 outubro '18

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