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A odisseia das palavras inglesas

"O Professor e o Louco" evoca a história fascinante de Sir James Murray e do nascimento do Dicionário Inglês de Oxford — infelizmente, as atribulações de produção limitam as qualidades do resultado...

A odisseia das palavras inglesas
Mel Gibson — evocando a odisseia linguística de Sir James Murray em meados do século XIX
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Há filmes que, quer queiramos, quer não, nos contam também a história do que poderiam ter sido... Descobrimos personagens e situações fascinantes e, de alguma maneira, percebemos que os resultados (cinematograficamente) rotineiros se devem a atribulações que ninguém conseguiu superar. Assim é "O Professor e o Louco", de Farhad Safinia, evocação da odisseia de Sir James Murray (1837-1915), coordenador da primeira edição do Dicionário Inglês de Oxford.

Digamos, para simplificar, que Mel Gibson, intérprete de Murray e produtor (através da sua empresa Icon), se desentendeu com a produtora associada (Voltage Pictures). Em causa estava o não cumprimento do contrato, em particular na utilização de determinados cenários. O caso acabou em tribunal, as reivindicações de Gibson não foram reconhecidas... e o filme aí está, tão sugestivo quanto desconjuntado — o próprio realizador decidiu assinar com o pseudónimo P. B. Shemran.


O que está em cena é qualquer coisa de épico. Nada mais nada menos que sistematizar todas as palavras da língua inglesa, labor tanto mais peculiar, insólito e desconcertante quanto Murray teve como um dos principais colaboradores William Chester Minor, médico do exército dos EUA a ser tratado num asilo em Inglaterra, na sequência de um crime que cometeu — enfim, a interpretação "barroca" de Minor por Sean Penn também nem sempre ajuda...

É pena deparar, assim, com um objecto à deriva. E tanto mais quanto na sua origem está a saudável atitude de procurar histórias realmente humanas, bem distantes da pueril agitação audiovisual de super-heróis e afins... Mel Gibson é, por certo, o mais desiludido, já que alimentava o sonho de concretizar este projecto há cerca de vinte anos (desde a edição do livro de Simon Winchester em que se baseia), tendo mesmo chegado a pensar na hipótese de assumir também as funções de realizador — Safinia tinha já colaborado com Gibson na qualidade de argumentista de "Apocalypto" (2006).

Crítica de João Lopes
publicado 14:32 - 03 maio '19

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