Estreia  

A poesia segundo Miranda July

Cineasta experimental, por excelência, a americana Miranda July regressa com um filme sobre um casal em crise: "O Futuro" surpreende pela sua liberdade criativa, por vezes tentada por uma insólita dimensão fantástica.

A poesia segundo Miranda July
Miranda July no filme de Miranda July: uma magnífica "esquizofrenia" artística
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 A poesia segundo Miranda July
O Futuro Quando um casal decide adoptar um gato abandonado, a perspectiva de vida de ambos muda radicalmente. Uma mudança que vai alterar literalmente o curso do tempo e do espaço ao mesmo tempo que testa a sua confiança no outro e em si mesmos.

Quando tentamos classificar determinados cineastas, há casos em que, num misto de hesitação e espanto, não podemos deixar de os reconhecer como... inclassificáveis. Miranda July é um desses casos. Que é como quem diz: uma criadora multifacetada, evoluindo da música à performance teatral, passando pela Internet, que se expõe como alguém sempre à procura de novas linguagens.

Já era assim na sua longa-metragem de estreia, "Eu, Tu e Todos os que Conhecemos" (2005), uma comédia de costumes (classificação também muito discutível...) que se transfigurava em desconcertante desmontagem dos pressupostos do próprio género cómico. Volta a ser assim em "O Futuro", filme que demorou mais de um ano a cá chegar (passou no Festival de Berlim de 2011...), mas ainda bem que chegou.

Em termos simples, podemos defini-lo como um típico melodrama conjugal, com o par Jason/Sophie (interpretado por Hamish Linklater e a própria realizadora) a viver uma também típica crise romântica, tentando apimentar a sua existência... Como? Comprando um gato!

O certo é que não estamos perante um mero retrato "social" ou "sociológico", mais ou menos tentado pela caricatura. Não que "O Futuro" não seja um filme atravessado pelas mais insólitas formas de humor, mas é acima de tudo um objecto de fascinante liberdade criativa, oscilando da observação mais ou menos realista para uma ambiência mais fantasiosa que fantástica que, à falta de melhor, podemos considerar onírica.

Há, enfim, em Miranda July uma permanente tentação poética. Não no sentido banal, telenovelesco, da mera reconfiguração ideal(izada) do quotidiano. Antes como descoberta de uma dimensão alternativa que não está para além dos objectos desse quotidiano, antes nasce da sua mais básica materialidade e sedução. Talvez possamos concluir dizendo que Miranda July é uma genuína cineasta experimental: em jogo estão também novas relações com o espectador.

Crítica de João Lopes
publicado 14:55 - 16 agosto '12

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