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À procura do drama histórico

Com "A Favorita", reencontramos um certo gosto (melo)dramático de revisitar a história, neste caso o reinado de Ana de Inglaterra, no começo do século XVIII — resta saber como é possível recriar essa tradição narrativa e os seus valores de espectáculo.

À procura do drama histórico
"A Favorita": um filme sobre a teatralidade de comportamentos e instituições
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 À procura do drama histórico
A Favorita Início do século XVIII. A Inglaterra está em guerra com França. No entanto, as corridas de patos continuam a prosperar e comem-se ananases ostensivamente. Uma frágil rainha Anne (Olivia Colman) ocupa o trono e a sua amiga mais próxima, Lady Sarah (Rachel Weisz), governa o país por ela e ao mesmo tempo cuida da saúde precária de Anne e gere o seu temperamento imprevisível. Quando a nova criada ...

Em 2018, será que faz sentido fazer um filme sobre a Rainha Ana de Inglaterra (1665-1714) tentando imitar os momentos de pompa e circunstância da filmografia de Peter Greenaway?

A formulação da pergunta, é verdade, apresenta-se em si mesma discutível. De facto, quem pode garantir que, ao realizar "A Favorita", o realizador Yorgos Lanthimos quis citar Greenaway, imitá-lo ou inspirar-se nas suas narrativas?

Ironicamente ou não, podemos recordar que o filme que projectou internacionalmente o nome de Greenaway, "O Contrato" (1982), aborda um período imediatamente anterior, no reinado de Guilherme III. Fiquemo-nos, ainda assim, pelo mais básico: tal como em Greenaway, encontramos em "A Favorita" um gosto de abordagem das convulsões da história — e, em particular, do poder político — em que a teatralidade de comportamentos e instituições desempenha um papel fundamental.

Acontece que Lanthimos tem uma concepção da (chamada) reconstituição histórica que se vai esgotando numa mera acumulação de fragmentos (são quase videoclips, na verdade) em que o esquematismo psicológico das personagens é compensado (?) pelo investimento no esplendor da cenografia e do guarda-roupa — e até no requinte, francamente admirável, do trabalho de caracterização (rostos, cabelos, etc.) de todas as personagens.

Não vem grande mal ao mundo por causa disso. Podemos até observar "A Favorita" como uma simpática demarcação em relação a um cinema virtual (?) que se compraz na multiplicação de heróis e super-heróis mais ou menos digitais, quase sempre inscritos numa "aceleração" visual que, de facto, só consegue exibir a lentidão do seu pensamento.

Nesta perspectiva, a história das duas mulheres que disputam os favores da Rainha, tendo como pano de fundo uma complexa conjuntura de guerra, não deixa de ser bem servida pelo talento das três actrizes principais: Olivia Colman, no papel de Ana, Emma Stone e Rachel Weisz, respectivamente como Abigail Masham e Sarah Churchill — estão, aliás, as três nas nomeações dos Oscars (a primeira como melhor actriz, as outras duas na categoria de actriz secundária).

Dir-se-ia que "A Favorita" acaba por ser um sintoma exemplar de um momento crítico de avaliação dos próprios modelos que a indústria tem privilegiado: por um lado, o filme procura reencontrar uma certa tradição de (melo)drama histórico presente nas memórias cinéfilas de Reino Unido e EUA; por outro lado, revaloriza o contributo das interpretações contra os automatismos do digital. 

Formulemos, por isso, um voto: esperemos que haja descendentes de "A Favorita" — com ou sem influências de Greenaway...

Crítica de João Lopes actualizado às 19:23 - 07 fevereiro '19
publicado 19:20 - 07 fevereiro '19

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