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A redenção segundo Abel Ferrara

Figura emblemática da produção independente americana, Abel Ferrara regressa com uma parábola sobre o fim do mundo: chama-se "4.44 Último Dia na Terra" e confronta um par com o apocalipse...

A redenção segundo Abel Ferrara
Willem Dafoe e Shanyn Leigh: antes que a Terra acabe...
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 A redenção segundo Abel Ferrara
4:44 Último Dia na Terra Num enorme e muito alto apartamento de Nova Iorque vive o nosso casal. Estão apaixonados. Ela é pintora, ele um actor de sucesso. Esta é apenas uma tarde normal – excepto pelo facto de não ser uma tarde normal, nem para eles nem para ninguém. Porque amanhã, às 4:44, mais segundo menos segundo, o mundo irá chegar ao fim, muito mais rapidamente do que o pior profeta do apocalipse poderia imaginar. ...

De que falamos quando falamos do fim do mundo?...

Parece uma pergunta de ficção científica. E é-o, pelo menos até certo ponto. Afinal de contas, o novo filme de Abel Ferrara (de facto, já apresentado há quase um ano, em 2011, no Festival de Veneza) chama-se "4.44 Último Dia na Terra" e parte de um pressuposto sem equívocos: o nosso querido planeta vai acabar na "próxima" madrugada, exactamente às 4 horas e 44 minutos...

Há neste dispositivo uma evidente nostalgia dos tempos remotos da ficção científica, em particular de parábolas apocalípticas como "Invasion of the Body Snatchers/A Terra em Perigo" (1956), de Don Siegel. Aliás, convém lembrar que um dos remakes deste título, "Body Snatchers/Violadores: A Invasão Continua" (1993), foi dirigido por... Abel Ferrara.

Seja como for, Ferrara está menos interessado em qualquer processo linear de citação do que nas potencialidades dramáticas do seu dispositivo. No limite, "4.44 Último Dia na Terra" não se inscreve em nenhuma variante de ficção científica, pertencendo antes às galeria de tragédias íntimas que Ferrara tem encenado com diversos pares (sendo inevitável lembrar o extraordinário "Dangerous Game", de 1993, com Madonna e Harvey Keitel).

Nesta perspectiva, a odisseia privada de Cisco (Willem Dafoe) e Skye (Shanyn Leigh) evolui como um apocalipse que ecoa na aniquilação iminente do próprio planeta... ou o contrário. Não por acaso, regressa o tema bíblico da redenção, já que a pergunta nuclear do cinema de Ferrara persiste no seu fascínio obsessivo: de que modo um homem e uma mulher podem encontrar um terreno comum de revelação?

Crítica de João Lopes
publicado 01:23 - 09 agosto '12

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