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Agitação, ruído e nenhum cinema

Não há muito a acrescentar às questões que têm envolvido a relação dos filmes com os video-jogos: "Assassin's Creed" é mais uma ilustração penosa da instrumentalização do cinema... sem ideias de cinema.

Agitação, ruído e nenhum cinema
Michael Fassbender em viagem à Inquisição espanhola — a arte de desperdiçar talentosos actores
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 Agitação, ruído e nenhum cinema
Assassin`s Creed Através de uma tecnologia revolucionária que desvenda suas memórias genéticas, Callum Lynch (Michael Fassbender) revive as aventuras do seu antepassado, Aguilar, na Espanha do século XV. Callum descobre que é descendente de uma misteriosa sociedade secreta, os Assassinos, e que reúne conhecimentos e habilidades extraordinárias para controlar a opressiva e poderosa organização Templários no ...

Será que, mesmo para os fãs de video-jogos, já não se passa mais nada a não ser isto?... A saber: uma linha narrativa em que, inevitavelmente, esquematicamente, dir-se-ia preguiçosamente, o mundo vai acabar... E, depois, imagens tão rápidas (?) quanto possível em que a única "ideia" recorrente consiste em multiplicar os voos rasantes sobre cenários mais ou menos em ruínas...

Apesar de tudo, perante "Assassin's Creed", seria possível colocar a questão num plano que é (ou poderia ser) mais interessante. A saber: algures no nosso tempo, Callum Lynch é levado a explorar, ou melhor, a "habitar" as memórias do seu antepassado Aguilar — desse modo, vê-se conduzido ao final do século XV e, mais especificamente, ao contexto de perseguições e violência em que se consolida o poder da Inquisição espanhola...

Que fazer com isto? Digamos, para simplificar, que o realizador Justin Kurzel não tem nenhum programa (temático, estético, o que se quiser) para fazer o que quer que seja... A não ser alternar cenas de pueril especulação "filosófica" com outras em que o passado histórico não passa de um labirinto de imagens aceleradas e sons agressivos.

Em boa verdade, Kurzel parece seguir o mesmo método que já aplicara em "Macbeth" (2015), desse modo provando que não há "boas" nem "más" inspirações — Shakespeare ou video-jogo, vai tudo dar à mesma confusão... Arrastando, aliás, os mesmos actores: é penoso ver o talento de Michael Fassbender e Marion Cotillard reduzido à condição de um gadget sem importância. Ainda há por aí alguém que goste de cinema? Da singularidade dos corpos e dos gestos? Da descoberta de um mundo não parasitado pelo maniqueísmo tecnológico?

Crítica de João Lopes
publicado 00:12 - 06 janeiro '17

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