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Amores e desamores da Nova Vaga francesa

Emmanuel Laurent fez um documentário para redescobrirmos o papel histórico de Jean-Luc Godard e François Truffaut. E também a figura fundamental do actor que circulou pelos respectivos filmes: Jean-Pierre Léaud.

Amores e desamores da Nova Vaga francesa
Godard e Truffaut: nas décadas de 1950/60, a modernidade passou por eles
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 Amores e desamores da Nova Vaga francesa
Os 2 da (Nova) Vaga Celebrando os 50 anos da Nouvelle Vague, o documentário relembra a apresentação de "Os Incompreendidos", de François Truffaut, no Festival de Cannes em 1959, e a criação de "Acossado", de Jean-Luc Godard, mostrando assim o nascimento do movimento que mudou a forma de se fazer cinema na França e revelou ao mundo dois dos maiores cineastas de todos os tempos, Truffaut e Godard. Retrata também a ...

Há uma visão simplista, pueril mesmo, que confunde a cinefilia (isto é, à letra: o amor do cinema) com a fabricação de grandes consensos. Ora, não precisamos de concordar em tudo, nem sempre sobre os mesmos filmes: a cinefilia vive, não apenas dos filmes, das suas histórias e estéticas, mas sobretudo das formas plurais da cumplicidade humana.

É por isso que a cinefilia quase não existe na Internet: os sites e blogs que insultam os que têm outras visões dos filmes, e do próprio cinema, são mesmo instrumentos quotidianos de assassinato de qualquer hipótese de solidariedade cinéfila.

Vem isto a propósito de um documentário que celebra, justamente, a cinefilia e, por assim dizer, os seus limites: "Godard/Truffaut: os 2 da Nova Vaga" evoca o trabalho e as alianças de Jean-Luc Godard e François Truffaut, para desembocar na sua aparatosa ruptura, indissociável das convulsões ideológicas e políticas da França pós-Maio 68. É um filme sobre uma época fascinante do cinema francês, já que a Nova Vaga, em grande parte desencadeada por aqueles que, como estes dois protagonistas, escreviam nos "Cahiers du Cinéma", foi um movimento determinante na configuração do cinema moderno, ou melhor, da modernidade no cinema.

O mérito maior do filme dirigido por Emmanuel Laurent, com a colaboração de Antoine de Baecque (autor de uma monumental biografia sobre Godard), decorre da sua preocupação em recordar, não apenas filmes e estéticas, mas sobretudo pessoas. Só desse modo é possível entendermos o fulgor criativo dos autores da Nova Vaga e, no limite, o estrondo da ruptura entre Godard e Truffaut.

Por isso mesmo, a personagem "central" de "Godard/Truffaut: os 2 da Nova Vaga" acaba por ser, não um dos autores, mas... o actor Jean-Pierre Léaud. Descoberto por Truffaut para a sua primeira longa-metragem, "Os 400 Golpes" (feita no mesmo ano em que Godard se estreava com "À Bout de Souffle/O Acossado"), Léaud transformou-se num símbolo vivo do universo da Nova Vaga, circulando pelos filmes de Godard e Truffaut como um filho dilecto. Face ao corte de relações dos seus "pais" artísticos, Léaud perdeu, afinal, algo da sua identidade cinematográfica: o filme é também sobre essa orfandade cinéfila.

Crítica de João Lopes actualizado às 23:35 - 10 março '11
publicado 20:09 - 10 março '11

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