As lendas, as fábulas e o cinema digital

A Escócia primitiva, com a sua exuberância cenográfica e também o seu património lendário, é a paisagem da nova produção com chancela da Pixar: "Brave/Indomável" celebra uma invulgar heroína feminina.

As lendas, as fábulas e o cinema digital
A Escócia das lendas: "Brave" ou o gosto primitivo das fábulas
Crítica de
Subscrição das suas críticas
135
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 As lendas, as fábulas e o cinema digital
Brave - Indomável (VO) Merida (Kelly McDonald) é uma princesa de um reino situado nas montanhas escocesas. Governado pelo Rei Fargus (Billy Connolly) e pela Rainha Elinor (Emma Thompson), o reino e os seus pais ficarão em perigo devido às escolhas erradas de Merida, que terá que lutar contra a magia, as forças da natureza e uma antiga maldição. Só o confronto com a tradição e o destino os poderão salvar. Produzido pela ...

Na visão mais corrente (e, a meu ver, mais redutora) do estado da animação cinematográfica, o digital surge como o elemento definidor das duas últimas décadas dos desenhos animados, digamos desde que a Pixar lançou o emblemático "Toy Story" (1995).

Ora, escusado será dizer que não é possível minimizar a importância do digital em tudo o que passou a acontecer desde a pré-produção até à difusão (na animação e não só, como é óbvio). Seja como for, isso não invalida que sublinhemos e valorizemos a importância fulcral de outra componente. A saber: a arte de contar histórias e, em particular, a persistência do gosto tradicional da fábula em muitos desenhos animados.

"Brave/Indomável", de Mark Andrews e Brenda Chapman, o novíssimo lançamento da Pixar, é um esclarecedor exemplo disso mesmo. Por um lado, é verdade que a sua sofisticação técnica é maior do que nunca, revelando-se em coisas tão "simples" como a exuberante cabeleira ruiva de Merida, a princesa que se revolta contra a obrigação de escolher um noivo entre os pretendentes oficiais; por outro lado, não é menos verdade que a história de "Brave", além de recuar no tempo (até à Escócia de há mil anos...), regressa também ao gosto das epopeias ancestrais enraizadas no património lendário.

Isto sem esquecermos que Merida (voz original: Kelly Macdonald, que vimos, por exemplo, em "Este País Não É para Velhos") surge como a primeira personagem feminina a protagonizar um filme da Pixar. Há nela, aliás, um desconcertante "feminismo" que lhe confere uma curiosa actualidade simbólica.

Não creio que "Brave" tenha a energia dramática de "À Procura de Nemo" (2005) ou a complexidade psicológica da trilogia de "Toy Story" (1995, 1999, 2010). Seja como for, é mais um exemplo modelar da forma como a Pixar, digitalmente, tem sabido retomar (e relançar) a herança de Walt Disney. Afinal, desde 2006, a Pixar é propriedade dos... estúdios Disney.

Crítica de João Lopes
publicado 18:56 - 15 agosto '12

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes