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Basquiat & Nova Iorque

Na sua vida breve, Jean-Michel Basquiat foi um artista invulgar e também um símbolo das convulsões da grande metrópole nova-iorquina: o filme de Sara Driver, "Boom for Real", evoca o contexto em que tudo aconteceu.

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Imagem de Jean-Michel Basquiat em "Boom for Real" — memórias das convulsões dos anos 70
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É bem provável que alguns espectadores se sintam algo frustrados face ao volume de informação que encontram no documentário "Boom for Real: A Adolescência Tardia de Jean-Michel Basquiat", de Sara Driver. De facto, ao coligir elementos sobre os anos em que Basquiat era uma figura (quase) anónima do underground artístico novaiorquino, talvez tivesse sido útil integrar mais dados sobre a obra posterior, já em período de fama, do próprio Basquiat.

Enfim, tal questão não pode deixar de ser encarada no seu imenso relativismo, quanto mais não seja porque Basquiat teve uma existência curta (faleceu a 12 de Agosto de 1988, contava apenas 27 anos), de tal modo que a sua idade adulta terá sido mesmo qualquer coisa como uma "adolescência tardia". Seja como for, este é menos um filme sobre uma pessoa e mais um painel sobre um contexto muito particular da vida de Nova Iorque.


Poderemos, talvez, recordar que o período da década de 70 em que Basquiat procurava vias para mostrar e desenvolver a sua arte figurativa corresponde àquele em que, por exemplo, um cineasta como Martin Scorsese criava o emblemático "Taxi Driver" (1976). Que é como quem diz: as manifestações artísticas mais marginais, plenas de invenção e desafio, nascem numa grande metrópole marcada por muitas formas de violência e também por uma significativa degradação do seu tecido urbano — recorde-se também o retrato desse período feito por J. C. Chandor no magnífico "Um Ano Muito Violento" (2014).

Escutando testemunhos de muitas personalidades que, directa ou indirectamente, lidaram com Basquiat, Sara Driver consegue um fresco de imagens e ideias que, em últimas instância, nos leva a descobrir as subtis relações entre um artista e uma cidade. Nesta perspectiva, talvez se possa dizer que este trabalho documental pode ser visto como um sugestivo complemento do filme "Basquiat", assinado por Julian Schnabel em 1996, com Jeffrey Wright no papel central.

Crítica de João Lopes
publicado 23:49 - 15 setembro '18

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