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Como pertencer a uma comunidade?

A obra de Jia Zhang-ke continua a ser uma referência importante na actualidade do cinema chinês. Chega agora às salas portuguesas "As Cinzas Brancas Mais Puras", título que integrou a secção competitiva do Festival de Cannes de 2018.

Como pertencer a uma comunidade?
Liao Fan (ao centro) é um dos talentosos intérpretes dirigidos por Jia Zhang-ke
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É bem verdade que um festival de cinema como o de Cannes funciona como palco fascinante para a descoberta de filmes. Ao mesmo tempo, somos, por vezes, levados a perguntar se não há filmes que, pelas suas peculiaridades, tendem a ser algo secundarizados num contexto de tanta e tão contrastada oferta.

Provavelmente, em Cannes/2018, "As Cinzas Brancas Mais Puras", de Jia Zhang-ke, terá sido, nesse aspecto, um dos mais penalizados (e falo por mim, antes do mais). Uma coisa é certa: a obra de Jia Zhang-ke continua a edificar um impressionante painel sobre a história moderna da China. Mais exactamente, ele consegue contar histórias em que há personagens que se distinguem pelas suas radicais singularidades, ao mesmo tempo que nos vão encaminhando para a revelação de detalhes subtilmente sintomáticos das dinâmicas colectivas.

Assim acontecia em "Plataforma" (2000), em que os ecos da Revolução Cultural surgiam filtrados pela experiência de uma banda rock, ou em "24 City" (2008), expondo as contradições do crescimento urbano de Pequim em vésperas dos Jogos Olímpicos. Assim volta a acontecer em "As Cinzas Brancas Mais Puras", narrando a história da paixão de uma mulher por um homem que se move em terrenos mafiosos, ao mesmo tempo desenhando um discreto, mas incisivo, fresco histórico dos primeiros anos do século XXI.

A presença de Zhao Tao no papel principal (ela que é casada com Jia Zhang-ke e presença regular dos seus filmes) revela-se decisiva na definição de uma personagem paradoxal: por um lado, podemos, talvez, defini-la a partir de uma matriz romântica; por outro lado, a sua relação com um homem (Liao Fan, outro excelente intérprete) enraizado num sistema de muitas formas de violência vai desenvolver-se como um conto trágico sobre a própria pertença a uma comunidade.

Deparamos, assim, com as virtudes mais tradicionais de uma forma de entender o cinema em que o particular e o universal se combinam de forma exemplar — "As Cinzas Brancas Mais Puras" é uma história visceralmente chinesa, capaz de encontrar ecos simbólicos, afectivos e políticos, nos mais diversos contextos.

Crítica de João Lopes
publicado 21:48 - 28 fevereiro '19

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