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Como regressar a Shakespeare?

Julie Taymor aposta em revisitar "A Tempestade", mudando o sexo da personagem central. Infelizmente, é o gratuito tecnológico que triunfa.

Como regressar a Shakespeare?
Helen Mirren: "Próspero" é, agora, uma mulher, mas o cinema está afogado em... efeitos especiais
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Crítica "A Tempestade"

Como lidar, cinematograficamente, com as palavras do teatro? Ainda o ano passado, com o filme "Dúvida", John Patrick Shanley, mostrou que tal relação (afinal antiquíssima na génese das narrativas cinematográficas) pode ser dinâmica, inventiva, mobilizadora.

E, no entanto, nem sempre o mais óbvio é o mais seguro. Que é como quem diz: não basta recorrer a um texto de William Shakespeare para garantir uma automática consistência cinematográfica.

No caso desta adaptação de A Tempestade, realizada por Julie Taymor, trata-se de revisitar a odisseia poética e fantástica de Próspero, o Duque de Milão que, graças à magia e ao saber dos seus livros (lembremos Os Livros de Próspero, notável versão de 1991 assinada por Peter Greenaway) tenta reconquistar o seu poder. Ora, que significa transformar Próspero numa mulher, atribuindo agora o papel de "Próspera" a... Helen Mirren?

Claro que Helen Mirren é uma grande senhora da representação. Claro que o filme oferece um elenco de gente muito talentosa, incluindo Alfred Molina e Chris Cooper. Mas porquê (e, sobretudo, para quê?) resolver tudo à força de efeitos especiais tão aparatosos e redundantes? O resultado é, estranhamente, uma indiferença pelo essencial. A saber: as palavras de Shakespeare.

Dir-se-ia que a saturação tecnológica de algum cinema contemporâneo, particularmente sensível no gratuito "espectacular" de alguns blockbusters, está a contaminar outros domínios da expressão fílmica. Lembremos, por contraste, a célebre trilogia shakespeareana de Laurence Olivier: Henrique V (1944), Hamlet (1948) e Ricardo III (1955). Mesmo considerando que se trata das versões mais "tradicionais" de Shakespeare, há em tais filmes uma paixão pelo texto e uma reverência pelo trabalho dos actores que, agora, infelizmente, se perderam.

Crítica de João Lopes
publicado 16:52 - 07 março '11

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