Crónica sobre um país de telenovelas

Alberto Seixas Santos volta a abordar o quotidiano português e as suas gerações: "E o Tempo Passa" tem como pano de fundo a produção de uma telenovela.

Crónica sobre um país de telenovelas
Nos bastidores de uma telenovela: um labirinto de muitas solidões
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 Crónica sobre um país de telenovelas
E o Tempo Passa Teresa é uma actriz de telenovelas. O reencontro de uma velha paixão traz-lhe memórias que ela própria julgava perdidas, levando-a a questionar não apenas a sua vida afectiva, mas também as suas opções profissionais. No estúdio onde decorrem as gravações, o labor quotidiano é pontuado pela agitação de um grupo de jovens actores. Afinal, todos perguntam: onde está a felicidade?
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Critica " E o Tempo Passa "

Não é todos os dias que podemos deparar com um filme que aposta em lidar, não apenas com o quotidiano português, mas também com a forma dominante de ficção no interior desse quotidiano. A saber: a telenovela.

É o que acontece em "E o Tempo Passa", por certo um dos títulos mais brilhantes do mais recente cinema português: uma crónica sobre as bastidores de produção de uma telenovela que se transforma em retrato dos (des)entendimentos das gerações.

Afinal de contas, Alberto Seixas Santos não tem filmado outra coisa: as convulsões da identidade portuguesa, quase sempre encenadas a partir das atribulações internas da(s) família(s). Lembremos os exemplos modelares de "Brandos Costumes" (1975), "Paraíso Perdido" (1995) ou "Mal" (1999).

Com uma diferença que, agora, está longe de ser secundária: os jovens de "E o Tempo Passa" são seres em que sentimos o desamparo próprio de quem já não encontra a estabilidade tradicional do espaço familiar. Este é, afinal, um labirinto de muitas solidões.

Alberto Seixas Santos apresenta-se como um relator desencantado, testemunhando os sinais de um tempo, o nosso, em que a banalização da telenovela ilustra o esvaziamento das relações humanas. Encontramos personagens dilaceradas, imperfeitas, contraditórias, encontramos sobretudo pessoas que vivem numa deriva, quase sempre dramática, por vezes atravessada por um inesperado humor.

Um pouco à maneira de Jean Renoir, mestre do realizador, "E o Tempo Passa" é um drama habitado pelos contrastes da comédia. Ou talvez uma comédia ferida pelo dramatismo do nosso tempo português.

Crítica de João Lopes
publicado 23:43 - 11 março '11

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