Estreia  

Da Roménia, com realismo

O cinema romeno continua a revelar uma vitalidade invejável: "Aurora" é uma metódica desmontagem de um complexo universo familiar.

Da Roménia, com realismo
Cristi Puiu em "Aurora": actor & realizador
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 Da Roménia, com realismo
Aurora Tudo começa com uma discussão entre um homem e uma mulher sobre o Capuchinho Vermelho, numa cozinha de um apartamento em Bucareste. O homem é Viorel, 42 anos, que, perturbado, atravessa a cidade de carro, vagueando entre pensamentos obscuros e sombrios. O destino? Só ele sabe. Pelo caminho observa silenciosamente, como um fantasma sob um comportamento paranóico, o que lhe parece ser uma família ...

Na edição do Festival de Cannes de 2010, "Aurora", de Cristi Puiu, surgiu como um eco da vitória de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu, no certame de 2007 (foi Palma de Ouro). E por uma razão incontornável: são dois momentos emblemáticos de uma cinematografia, a da Roménia, que tem revelado uma vitalidade invejável.

Com Cristi Puiu na dupla condição de actor e realizador, o filme é um tour de force admirável que vai expondo os mecanismos internos de um universo familiar verdadeiramente assombrado. Porquê assombrado? Porque sob as aparências mais banais se oculta um labirinto de tensões a que, em boa verdade, ninguém se pode subtrair.

Estamos, afinal, perante um cinema que se mantém fiel a uma opção realista que resiste, em tudo e por tudo, à catalogação de personagens e situações. Dito de outro modo: este não é o espaço da formatação televisiva, mas sim um universo atento à extrema complexidade das relações humanas. Mais concretamente: há aqui uma desmontagem de um universo familiar que vai para além de clichés e preconceitos.

Mais do que isso: o trabalho de Puiu (tal como o de Mungiu) mostra que é possível trabalhar com meios relativamente escassos, sem abdicar de uma admirável coerência dramática e estética que distingue, afinal, um olhar empenhado e exigente. Não é preciso copiar seja o que for. Mas é uma pequena lição de pedagogia.

Crítica de João Lopes
publicado 00:59 - 06 maio '11

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