Ben Affleck e Rosamund Pike: onde está a verdade das coisas?


joao lopes
2 Out 2014 22:14

A propósito do novo filme de David Fincher, "Em Parte Incerta" — título original: "Gone Girl" —, muito se tem escrito e especulado sobre a decifração do mistério do desaparecimento de Amy (Rosamund Pike) e da implicação, ou não, do seu marido Nick (Ben Affleck). Escusado será dizer que o esclarecimento de tal mistério é fulcral no filme, tal como já o era no excelente romance de Gillian Flynn. Em todo o caso, seria francamente inadequado reduzir um tão brilhante objecto cinematográfico a um corrente enigma "quem, como, onde".

Fincher, convém recordá-lo, é também um sistemático viajante das fronteiras do real. Ou melhor: dessa vacilação (exterior e interior) em que o reconhecimento da verdade das coisas se aproxima de uma perturbação em que nada parece poder fazer sentido. Lembremos o exemplo de "O Jogo" (1997), com Michael Douglas e Sean Penn, e o modo como nele Fincher explorava, nesse caso em tom paródico, a contaminação da vida vivida por uma vida completamente encenada.
O mistério do desaparecimento de Amy coloca-se, assim, em dois planos fundamentais: por um lado, a sua ausência (e as pistas que levam, de imediato, a suspeitar de Nick) desencadeia um perverso processo de interrogação do espaço conjugal e dos valores familiares; por outro lado, a apropriação dos acontecimentos pelas formas mais grosseiras e manipuladoras da televisão faz com que o drama suspenso de Amy seja também vivido como a saga moral de toda uma comunidade.
Fincher, convém dizê-lo sem ambiguidades, não faz filmes para aquietar o espectador — a inquietação é mesmo a matriz mais visceral do seu cinema. Assim, "Em Parte Incerta" é, de uma só vez, uma crónica implacável sobre as aparências cultivadas no quotidiano social e um desencantado ensaio sobre os horrores mediáticos do mundo em que vivemos — num certo sentido, a descoberta da verdade de Amy envolve um jogo de espelhos em que o espectador é levado a questionar a sua própria percepção do(s) outro(s).
Valerá a pena referir que, na invulgar filmografia de Fincher, "Zodíaco" (2007) será o objecto mais próximo de "Em Parte Incerta". É certo que o primeiro se baseia no caso verídico de uma série de crimes. Ainda assim, ambos lidam com a mesma perturbação. A saber: o modo como a inscrição das personagens numa determinada realidade define os respectivos papéis sociais, numa dinâmica de aceitação e resistência de que nem sempre essas mesmas personagens têm consciência.
Da fotografia de Jeff Cronenweth à música de Trent Reznor e Atticus Ross, "Em Parte Incerta" é mais um produto exemplar de uma pequena "tribo" de colaboradores que Fincher tem sabido consolidar e valorizar. Resta dizer que Ben Affleck e Rosamund Pike são prodigiosos na representação de uma vertigem de desejos e medos que não deixa ninguém incólume — não custa acreditar que ambos estarão nas nomeações para os Oscars; e, sobretudo no caso dela, uma estatueta dourada é uma probabilidade muito transparente.

+ críticas