Estreias  

Elogio da psicologia

Foi o filme que serviu de abertura oficial ao Festival de Cannes de 2018: com "Todos Sabem", o iraniano Asghar Farhadi regressa à sua escrita melodramática, agora em cenários de Espanha.

Elogio da psicologia
Penélope Cruz e Ricardo Darín: melodrama em cenários espanhóis
Crítica de
Subscrição das suas críticas
135
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Elogio da psicologia
Todos Sabem Laura viaja com os filhos de Buenos Aires até à sua aldeia natal para assistirem ao casamento da sua irmã, mas eventos inesperados desencadeiam uma crise familiar que irá expor segredos do passado.

Que define um autor? Digamos, para simplificar, que deparamos com um autor quando podemos observar o retorno obsessivo de temas e referências, mesmo quando variam os lugares da sua afirmação. Os filmes podem ser "melhores" ou "piores"; o certo é que, através dessa dinâmica, definem um modo de trabalho e, no limite, uma visão do mundo.

É isso que, a meu ver, podemos observar em "Todos Sabem", filme que nos chega com quase um ano de atraso (foi abertura oficial de Cannes/2018), mas ainda bem que chegou. Aqui temos o iraniano Asghar Farhadi a construir uma narrativa familiar fundada num sistema de equívocos, logros e máscaras — tal como em "Uma Separação" (2011), "O Passado" (2013) e "O Vendedor" (2016).

Farhadi muda de paisagem e de língua: "Todos Sabem" é um melodrama amargo, rodado em Espanha, com personagens que falam espanhol — e duas vedetas internacionais como são Penélope Cruz e Javier Bardem. No seu cerne está uma questão que, em boa verdade, contamina todos os filmes anteriores de Farhadi. A saber: porque é que os humanos mentem, por vezes, desse modo, atraindo a sua própria infelicidade?

O reencontro de dois adultos que foram namorados na adolescência começa como uma antologia nostálgica para, a pouco e pouco, se transfigurar num enigma perturbante (agravado por um rapto). Farhadi relança, assim, uma dimensão psicológica do cinema, tanto mais interessante quanto, para além de não estar na moda (onde está a psicologia dos super-heróis?...), se impõe através da subtileza das suas contradições internas.

Em última instância, este é um filme de revalorização do labor específico dos actores. E para além de Cruz e Bardem, não esqueçamos a presença de Ricardo Darín, actor argentino que aprendemos a admirar (por exemplo, em "O Segredo dos seus Olhos", 2009) pelas ambivalências emocionais que sabe integrar nas suas personagens.

Crítica de João Lopes
publicado 23:47 - 15 fevereiro '19

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes