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Entre realismo e metafísica

Com o filme "Besta", o argumentista e realizador Michael Pearce expõe-nos as tensões internas, familiares e sociais, de uma pequena ilha — o resultado é uma variação original e sugestiva sobre o modelo do "thriller" psicológico.

Entre realismo e metafísica
Jessie Buckley e Johnny Flynn — um magnífico par central num filme-revelação
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 Entre realismo e metafísica
Besta Numa pequena ilha, Moll, uma jovem problemática, apaixona-se por Pascal, um homem misterioso que a encoraja a escapar da opressão da sua família. Quando Pascal se torna o principal suspeito numa série de homicídios que estão a acontecer na ilha, Moll defende-o a todo o custo, e ao fazê-lo, descobre do que é realmente capaz.

De que é feita a tradição do cinema britânico? Pois bem, não será possível falar dessa tradição sem citar uma fundamental relação com o universo teatral e, em particular, com a tradição shakespeariana. Descubra-se o par central do filme "Besta" — Jessie Buckley e Johnny Flynn — e poderemos reencontrar tal força tradicional a funcionar em pleno: a sua formação passou, de facto, de modo decisivo, pelos palcos.

O filme tem sido descrito como um "thriller"psicológico e, em boa verdade, não há razão para renegarmos tal classificação, também ela tradicional. Deparamos, assim, com uma teia mais ou menos policial gerada pelo encontro da rebelde Moll (Buckley), em conflito com a família, e o estranho Pascal (Flynn), personagem que chega do exterior e sobre quem recaem suspeitas relacionadas com um crime cometido na pequena ilha em que tudo acontece [Jersey, próximo da costa da Normandia].

Evitando revelar as atribulações do argumento — da responsabilidade do próprio realizador, Michael Pearce —, digamos que a relação de Moll e Pascal, marcada por uma sexualidade carregada de medos e fantasmas, vai evoluir através de uma crescente clivagem do par com o conservadorismo da família de Moll e do seu espaço social: no limite, a "bestialidade" que o título refere decorre do conflito que desse modo se anuncia.

Mesmo considerando que Pearce nem sempre gere da forma mais eficaz os tempos dramáticos do seu filme, há na sua narrativa um apelo enigmático, à beira do metafísico, que, paradoxalmente ou não, se enraiza numa vibração carnal devedora da grande tradição realista britânica. Certamente também por isso, ele recebeu com este filme o prémio BAFTA de revelação de 2018.

Crítica de João Lopes
publicado 20:00 - 04 abril '19

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