Fassbinder, antigo e moderno

Começou por ser uma mini-série televisiva, já lá vão quase 40 anos. Agora, "O Mundo no Arame" foi restaurado, está nos cinemas e permite-nos redescobrir o fulgor criativo de Rainer Werner Fassbinder.

Fassbinder, antigo e moderno
Alemanha, 1973: uma história de ficção científica que resistiu à passagem do tempo
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Fassbinder, antigo e moderno
O Mundo no Arame Algures num futuro indefinido, Henry Vollmer (Adrian Hoven), engenheiro informático, cria um projeto chamado Simulacron, que pretende ser um simulador de uma realidade paralela. Misteriosamente, o mentor do projeto morre. O seu sucessor, o Dr. Fred Stiller (Klaus Löwitsch), experiencia um fenómeno bizarro: o seu amigo Guenther Lause (Ivan Desny) desaparece subitamente a meio de uma conversa e uma ...

Espantosa surpresa. Mas não exactamente uma revelação... Assim é "O Mundo no Arame", de Rainer Werner Fassbinder, uma grande estreia nas salas de cinema que, afinal, tem a sua produção datada de 1973. E, para mais, em televisão.

Na altura, Fassbinder (1945-1982) já não era um desconhecido. Longe disso: o seu nome destacava-se em todo um movimento de renovação do cinema alemão onde também podíamos encontrar Werner Herzog, Wim Wenders ou Hans-Jurgen Syberberg. Tinha já dirigido título emblemáticos da sua obra, incluindo o fabuloso "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant" (1972).

Agora, em notável cópia restaurada, compreendemos que "O Mundo no Arame" lhe permitiu experimentar uma variante insólita: uma mini-série televisiva, em duas partes (totalizando 205 minutos), tendo por base o romance "Simulacron-3", de Daniel F. Galouye. Mais do que isso: "O Mundo no Arame" aventura-se nos domínios da ficção científica, encenando um mundo assombrado em que o poder está naqueles que controlam os computadores capazes de gerar poderosas simulações da realidade -- em boa verdade, o tema nuclear de filmes tão importantes como "Matrix" (1999) estava aqui.

Fassbinder encena o futuro a partir de uma desconcertante colagem ao presente. Dito de outro modo: são os cenários da Alemanha do começo da década de 70, tal e qual, que servem de pano de fundo a uma história que tem tanto de macabro como de irónico. Como se ele documentasse um tempo que já contém os fantasmas do seu futuro.

Daí o sentimento de um filme antigo, pela produção (para mais rodado nas cores tão peculiares, e tão fascinantes, da película de 16 mm), mas exemplarmente moderno pelos temas e pela narrativa. No fundo, Fassbinder coloca em cena, não apenas o poder crescente das máquinas, mas sobretudo o apagamento das fronteiras tradicionais entre "realidade" e "simulação". Nesse processo, é a própria identidade humana que se contempla nos seus impasses.

Crítica de João Lopes
publicado 01:08 - 18 novembro '11

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes