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Ficção científica & psicodrama

Habitualmente dedicada aos domínios do melodrama, a francesa Claire Denis experimenta, em "High Life", as linguagens da ficção científica. Apesar de uma sugestiva premissa, o filme vai-se perdendo em alguma inconsistência dramática e simbólica.

Ficção científica & psicodrama
Scarlett Lindsey e Robert Pattinson — perdidos numa aventura espacial
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 Ficção científica & psicodrama
High Life Nos confins do espaço, muito além do nosso sistema solar, Monte (Robert Pattinson) e Willow, a sua filha pequena, vivem juntos a bordo de uma nave espacial, em isolamento total. Monte, um homem solitário cuja severa autodisciplina é uma proteção contra o desejo – o seu e o de outros – tornou-se pai contra a sua vontade. O seu esperma foi usado para inseminar Boyse (Mia Goth), uma jovem que deu ...

Para além dos formatos (mais ou menos) interessantes que existem na actual "ficção-científica-no-cinema", será que ainda há espaço para alguma invenção? Ou reinvenção? "High Life" é um filme crente nessa possibilidade. E convenhamos que a história de Monte (Robert Pattinson) e da sua filha bebé (Scarlett Lindsey) teria as componentes necessárias e suficientes para que tal acontecesse...

Tudo se passa numa nave a caminho de uma missão tanto mais enigmática quanto a sua tripulação de condenados a diversas penas parece obedecer aos desígnios, no mínimo inquietantes, de uma médica (Juliette Binoche) pouco calorosa... Dir-se-ia que o filme aposta menos no esclarecimento da situação do que no seu bizarro prolongamento, porventura procurando os efeitos típicos de um psicodrama.

Nenhum cineasta é obrigado a "repetir" o que fez em anteriores trabalhos, mas a francesa Claire Denis, aqui a assinar o seu primeiro título em língua inglesa, não se mostra muito à vontade no interior das coordenadas que escolheu. O filme parece querer sustentar um mistério mais ou menos policial (?), ao mesmo tempo que vai procurando um simbolismo sobre a "origem da vida" cuja problematização é, no mínimo, pouco consistente...

Bastará recordarmos o anterior filme de Denis, o magnífico "O Meu Belo Sol Interior" (2017), também com Binoche, para sentirmos as diferenças. Como se houvesse no olhar da realizadora uma ânsia da vibração dos corpos que nunca encontra correspondência na frieza glacial dos espaços de "High Life", aliás sustentada por uma cenografia com alguma sobriedade. Com uma excepção: as breves cenas em que Pattinson coexiste com a sua bebé...

Crítica de João Lopes
publicado 22:13 - 13 junho '19

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