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Filmando a "ausência" de João Gilberto

O "pai" da Bossa Nova faleceu em 2019 — investigando a sua pessoa e o seu legado, "Onde Está Você, João Gilberto?" é um documentário que tenta superar a resistência do próprio João Gilberto à exposição mediática e jornalística.

Filmando a ausência de João Gilberto
Georges Gachot no Rio de Janeiro, "à procura de João Gilberto"
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A proximidade da notícia da morte de João Gilberto (6 de Julho de 2019, contava 88 anos) pode levar-nos a ler o documentário "Onde Está Você, João Gilberto?" como uma espécie de balanço, vida e obra. Na verdade, o filme assinado pelo francês Georges Gachot foi feito com o "pai" da Bossa Nova ainda vivo (estreado em 2018, no Festival de Locarno).

O motor dramático do filme é mesmo uma obstinada procura de João Gilberto, pessoa sistematicamente resistente à exposição mediática e jornalística, sobretudo nos anos finais da sua existência. Gachot retoma, aliás, uma demanda já desenvolvida por Marc Fischer, registada no livro "Ho-ba-la-lá - À Procura de João Gilberto" (2011).


Que faz, então, Gachot? Pois bem, deambula pelo Rio de Janeiro, ocupando a banda sonora com as suas reflexões filosóficas (não muito interessantes, convenhamos) sobre a "ausência" de João Gilberto. É pena que assim aconteça numa parte significativa do filme, já que não se entende como e porquê tal opção enriqueça qualquer perspectiva sobre João Gilberto e a sua música.

Sobram, apesar de tudo, os momentos genuinamente documentais, como as conversas com Miúcha (do seu casamento com João Gilberto nasceu a cantora Bebel Gilberto) e João Donato (pianista e compositor, aliado de João Gilberto na criação de muitas canções). Ou ainda essa visita a uma casa de velhos discos de vinyl cuja dona, em todo o caso, não vende as edições originais de João Gilberto... Enfim, são situações de verdadeira emoção cinematográfica no interior de um objecto a que falta uma estrutura coerente de filmagem e montagem.

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Estes são os sons do álbum "Chega de Saudade" (1958), tradicionalmente aponta como o capítulo 1 da história da Bossa Nova.

Crítica de João Lopes
publicado 01:38 - 03 agosto '19

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