Estreias  

Filmar, reproduzir e reinventar

Teresa Villaverde fez uma curta-metragem, "Six Portraits of Pain", a partir de uma composição de António Pinho Vargas — um singular trabalho criativo que tem a sua estreia no CCB.

Filmar, reproduzir e reinventar
Fotograma de "Six Portraits of Pain" — o cinema envolvido com a música
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Eis um pequeno grande acontecimento: domingo, dia 24 (17h00), o CCB apresenta um inédito de Teresa Villaverde, filmado a partir de uma composição musical, "Six Portraits of Pain", de António Pinho Vargas. O filme, com o mesmo título, é uma curta-metragem de 25 minutos que parte da música para criar um objecto que tem tanto de contemplativo como de vertiginoso (no programa está também incluída uma nova sinfonia do compositor — filme e sinfonia são encomendas do CCB).

A peça "Six Portraits of Pain" tem como base vários textos poéticos sobre a dor humana. Dir-se-ia que, tal como a música recria as emoções da palavra, o filme se apresenta como uma nova conjugação formal das singularidades das notas musicais. O resultado é tanto mais envolvente quanto consegue projectar-nos numa experiência abstracta enraizada, afinal, na materialidade muito concreta dos objectos e sinais humanos.

Não há muito cinema português que, ao longo das décadas, tenha arriscado em registos deste género, por assim dizer entre o realismo mais básico e uma dimensão à beira do surreal (podemos lembrar como excepção das excepções a filmografia modelar de António Reis e Margarida Cordeiro). O filme de Teresa Villaverde consegue recordar-nos o valor primordial do cinema como gesto de reprodução do mundo e sua simultânea reinvenção — nos tempos que correm, eis um labor precioso e, à sua maneira, pedagógico.

Crítica de João Lopes
publicado 00:15 - 24 março '19

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