Crítica: "72 Horas"  

Foi você que disse Paul Haggis?

Paul Haggis, o realizador de "Colisão", está de volta com "72 Horas", um belo exercício cinematográfico enraizado na tradição do "thriller". Ironia cruel: ficou fora da corrida para os Oscars.

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Russell Crowe e Elizabeth Banks: aventura romanesca no labirinto do "thriller" clássico
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"72 Horas" de Paul Haggis Entrevista conjunta com o realizador e o actor Russell Crowe

O mercado continua a obedecer a lógicas, no mínimo, bizarras... No que, há que reconhecê-lo, é muitas vezes acompanhado por alguma imprensa, não exactamente "ao seu serviço" (não é uma questão moral que aqui se coloca), mas indisponível para contemplar e pensar a diversidade interior do fenómeno cinematográfico.

Falo de quê? Da secundarização a que, desde a origem, tem sido sujeito um filme como "72 Horas/The Next Three Days", de Paul Haggis.

Temos, assim, um realizador oscarizado (o seu "Colisão/Crash" foi melhor filme de 2004), também ligado a um dos mais belos filmes de Clint Eastwood: foi Haggis, recorde-se, que escreveu o argumento de "Million Dollar Baby" (2004). Temos ainda um magnífico par de actores: Russell Crowe, nem sempre bem servido pelas personagens de "duro" que assume, aqui num registo de admirável tensão emocional; e Elizabeth Banks, sem qualquer dúvida uma das melhores actrizes americanas contemporâneas.

Temos, sobretudo, um "thriller", muito clássico nos dispositivos que coloca em jogo, mas enraizado numa singular aventura romanesca: a odisseia de um homem que, por todos os meios (literalmente: todos), aposta em libertar a sua mulher, presa por um crime de homicídio. Haggis consegue criar um ambiente que vive tanto da expectativa do que vai acontecer, como de um hábil trabalho sobre a percepção do mundo: afinal de contas, o que significa ver a inocência (ou a culpa) daquela mulher?

Ora, é um filme destes, para mais alicerçado em regras muito populares do espectáculo cinematográfico, que chega algo "demonizado" à Europa (depois de uma carreira comercial mediana nos EUA). E chega, sobretudo, com o selo de um "falhanço" pouco mediático: nas nomeações para os Oscars, ficou a zero...

Seria uma pena que a percepção do próprio cinema resultasse apenas das manchetes fixadas na "quantidade" de nomeações ou Oscars. Não que menosprezemos o glamour com que Hollywood, melhor ou pior, vai gerindo a sua própria produção. O certo é que, para lá das evidências, há mais mundos... Ou, pelo menos, outros filmes.

Crítica de Crítica, 2011 actualizado às 16:42 - 01 fevereiro '11
publicado 11:58 - 29 janeiro '11

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