Estreia  

George Clooney desmonta a política & os "media"

Encenando os bastidores de uma campanha eleitoral, George Clooney regressa à realização com "Nos Idos de Março": uma visão invulgar e subtil do mundo da política e também das suas componentes mediáticas.

George Clooney desmonta a política & os media
George Clooney, candidato a Presidente: actor/argumentista/realizador
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 George Clooney desmonta a política & os media
Nos Idos de Março Drama político centrado na campanha de um candidato democrata à presidência dos Estados Unidos. Sthephen Myers (Ryan Gosling) é um jovem e ambicioso director de comunicação que não olha a meios para promover o seu candidato, o governador Mike Morris (George Clooney).

Depois da época política de Ronald Reagan, a possibilidade de uma estrela de Hollywood assumir a presidência dos EUA deixou de ser uma ironia mais ou menos mitológica. Dir-se-ia que George Clooney decidiu tomar essa hipótese mitológica à letra, oferecendo-se a personagem de Mike Morris, um concorrente nas eleições primárias do Partido Democrático.

Mais do que uma personagem, é um filme que o actor/realizador assume por inteiro, nele investindo um olhar que tem tanto de clínico como de subtil: "Nos Idos de Março" confirma o empenho de Clooney em explorar os bastidores americanos da política e dos media, já patente no notável "Boa Noite, e Boa Sorte" (2005).

Em todo o caso, não se trata de olhar a política como um mero palco de confrontos mais ou menos "personalizados", de acordo com as rotinas da informação televisiva. Nada disso: "Nos Idos de Março" (expressão que alude à data lendária do assassinato do imperador Júlio César) dá-nos a ver as convulsões internas de um grupo de políticos, conselheiros, jornalistas, etc., por assim dizer assombrados por uma interrogação trágica: até que ponto a verdade ideal que proclamam pode ser sustentada na praça pública?

Sem querer desvendar minimamente os meandros de uma intriga habilmente sustentada por um notável argumento (do próprio Clooney, com Grant Heslov e Beau Willimon), importa referir que as atribulações de "Nos Idos de Março" passam, no essencial, por uma dicotomia masculino/feminino em que os papéis simbolicamente atribuídos nem sempre correspondem ao real funcionamento dos seus protagonistas. Raras vezes deparamos com esta lucidez face aos papéis reais de homens e mulheres.

Com um elenco de luxo, incluindo ainda, entre outros, Philip Seymour Hoffman, Ryan Gosling, Evan Rachel Wood e Marisa Tomei, "Nos Idos de Março" é um exemplo modelar de reinvenção de uma tradição política, cinematograficamente liberal, que tem marcado épocas muito diversas da produção de Hollywood. Ou seja: definir Clooney como a estrela mais ou menos vistosa que vemos nas passadeiras vermelhas é, pura e simplesmente, passar ao lado do seu trabalho e, sobretudo, da pluralidade do seu talento.

Crítica de João Lopes
publicado 19:44 - 09 novembro '11

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