Gus van Sant entre realismo e fantástico

"Inquietos" tem como personagem central um jovem que gosta de frequentar... funerais. É um filme sobre a morte mas, sobretudo, sobre a pulsão de viver, confirmando a originalidade do olhar do realizador Gus van Sant.

Gus van Sant entre realismo e fantástico
Mia Wasikowska e Henry Hopper: Gus van Sant continua a filmar os temas da juventude
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 Gus van Sant entre realismo e fantástico
Inquietos Esta é a história de um encontro com um fim anunciado. Um rapaz (Henry Hopper – Enoch Brae) cujos pais morreram num acidente de viação e de quem nunca teve oportunidade de se despedir, cria o hábito de ir assistir a funerais de desconhecidos. Num deles encontra uma rapariga (Mia Wasikowska – Annabel Cotton) com quem acaba por criar amizade. Mas Annabel tem um cancro e a vida a prazo curto. ...
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Critica "Inquietos"

É sabido que Gus van Sant se distingue por uma notável agilidade de produção. Que é como quem diz: o seu trabalho oscila, sem preconceitos, entre as áreas típicas dos independentes e os grandes estúdios, sem que isso implique qualquer limitação criativa. Mais ainda: sem que isso ponha em causa o tema transversal do seu universo. A saber: as alegrias e dores da juventude.

"Inquietos" (título original: "Restless") é um filme que retoma temas, componentes e emoções que, de uma maneira ou de outra, marcam títulos como "O Bom Rebelde" (1997), "Elephant" (2003) ou "Paranoid Park" (2007). Acima de tudo, trata-se de colocar em cena um certo desamparo das personagens mais jovens, tentando compreender como é que tais personagens lidam com a vida -- e também com a morte.

Nesta perspectiva, o filme coloca o tema da morte da forma mais inusitada e, à sua maneira, irónica: Enoch (interpretado por Henry Hopper, filho de Dennis Hopper) é um jovem cujo passatempo consiste em frequentar... funerais. Mais do que isso: há uma figura fantasmática de um piloto kamikaze da Segunda Guerra Mundial que o visita regularmente (sem que, para além do próprio Enoch, mais ninguém o veja).

Filme fantástico, então? Filme, por certo, atravessado por uma espécie de pulsão fantástica, mas em boa verdade ancorado num paradoxal gosto realista pelo quotidiano que se traduz numa atenção minuciosa aos gestos mais banais e, afinal, ao seu significado profundo.

A relação de Enoch com Annabel (Mia Wasikowska, a "Alice" de Tim Burton) acaba por confrontar este comovente anti-herói com a morte, já não como um acontecimento dos outros, mas sim como algo muito próximo, intimista mesmo. Daí que "Inquietos" seja também uma crónica invulgar sobre o amor e a sua descoberta, com a marca de um cineasta que não se cansa de procurar novas linguagens e novas formas para lidar com as perplexidades do mundo contemporâneo.

Crítica de João Lopes
publicado 22:41 - 11 novembro '11

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