Histórias e famílias portuguesas

Muito ligada ao registo melodramático no interior do cinema português, Solveig Nordlund apresenta "A Morte de Carlos Gardel", um filme sobre as tensões internas do espaço familiar

Histórias e famílias portuguesas
Um filme sobre um tempo português, com personagens tiradas do nosso quotidiano
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 Histórias e famílias portuguesas
A Morte de Carlos Gardel “A Morte de Carlos Gardel” é a história de Nuno, um jovem toxicodependente em coma, a morrer num hospital. Durante os dois dias em que se encontra entre a vida e a morte, cada um dos familiares evoca junto a ele uma teia de recordações do passado, através das quais percebemos o presente de Nuno. Álvaro e Cláudia, os pais divorciados e as suas novas relações disfuncionais, Graça, a tia médica que ...

Nascida em Estocolmo, em 1945, Solveig Nordlund é um nome incontornável da história do cinema português. Desde logo, pelo seu envolvimento no trabalho colectivo "A Lei da Terra" (1977), um dos títulos marcantes do pós-25 de Abril. Depois porque, na sua trajectória, trabalhou na montagem de projectos tão importantes como "Brandos Costumes" (1975), de Alberto Seixas Santos, e "Amor de Perdição" (1979), de Manoel de Oliveira. Finalmente porque, como realizadora, desde muito cedo tentou explorar as regras do melodrama para abordar as tensões internas do espaço familiar: lembremos o caso exemplar de "Nem Pássaro Nem Peixe" (1978).

Agora, através de "A Morte de Carlos Gardel", reencontramo-la nesse registo melodramático, desta vez colhendo inspiração no romance de António Lobo Antunes (é a primeira adaptação de uma obra do escritor ao cinema).

Centrando-se na personagem de um jovem, Nuno (Carlos Malvarez), cujos problemas de droga o colocam em coma, o filme mergulha num universo em que as relações (pais/filhos) são tanto mais decisivas quanto se encontram drasticamente abaladas: entre a norma que reflectem e a realidade prática de muitos desencontros afectivos, deparamos com uma paisagem rasgada por dúvidas e interrogações.

"A Morte de Carlos Gardel" consegue, assim, uma visão desencantada, mas plena de ternura, de um conjunto de personagens que sentimos sempre como muito próximas, porque muito verosímeis. Ao mesmo tempo, o filme evita qualquer peso normativo ou moralista, desse modo demarcando-se dos clichés telenovelescos que, infelizmente, dominam o nosso espaço audiovisual.

Com uma equilibrada direcção de actores (destaquemos a composição de Rui Morisson, na personagem do pai), e ainda com um rigoroso labor de fotográfico (com assinatura de Acácio de Almeida), este é um filme que corresponde, afinal, a uma vontade muito positiva: a de observar o mundo (português) em que vivemos, contemplando as forças e fraquezas do nosso quotidiano.

Crítica de João Lopes
publicado 23:53 - 23 setembro '11

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