HADEWIJCH, de Bruno Dumont  

Labirintos espirituais

Os temas espirituais estão na actualidade do cinema: desta vez, com "Hadewijch", descobrimos a personagem de uma jovem que não se entrega a ninguém, a não ser ao seu deus.

Labirintos espirituais
"Hadewijch": um filme em que o realismo se cruza com a transcendência
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 Labirintos espirituais
Hadewijch Hadewijch (Julie Sokolowski), uma jovem noviça obcecada e arrebatada pela sua fé, é expulsa do convento onde vive pela madre superiora. De regresso ao mundo para se reencontrar, Hadewijch, agora Céline, movida pelo seu amor a Deus e pela raiva que carrega dentro de si, perde-se por caminhos sinistros ao conhecer Yassine (Yassine Salime ) e Nassir (Karl Sarafidis), dois jovens aparentemente ...

Como vai a nossa vida espiritual? Mais do que isso: no século XXI, com todas as suas convulsões e inquietações, o que é isso de dimensão espiritual do ser humano?

Pois bem, o mínimo que se pode dizer é que o cinema não está (como nunca esteve) alheado de tal dimensão. Exemplo próximo e exuberante: o belíssimo filme de Terrence Malick, "A Árvore da Vida", além do mais com uma carreira invulgar que prova que o mercado pode (e, a meu ver, deve) apostar em objectos menos óbvios e estereotipados.

Agora, com "Hadewijch", do francês Bruno Dumont, deparamos com um filme bem diferente, mas marcado pela mesma drástica interrogação. A saber: como é que Céline (Julie Sokolowski), a noviça Hadewijch de um convento, consegue viver no interior desse labirinto em que quer descobrir tudo o que tem a ver com o factor humano, ao mesmo tempo que só aceita entregar-se a "Ele", o seu deus absoluto?

Infelizmente, não creio que a realização de Dumont consiga sustentar as próprias forças que coloca em movimento. Sobretudo a partir do momento em que, através do envolvimento de Céline com um grupo de muçulmanos radicais, tenta encontrar um registo de "parábola" filosófica que simplifica e esquematiza tudo aquilo que tinha sido lançado na ficção.

Seja como for, "Hadewijch" vale, acima de tudo, pela energia que se desprende da sua personagem central, sobretudo quando Dumont a filma através de um realismo seco, depurado e, face à transcendência dos temas, desconcertantemente paradoxal. É um filme, afinal, de uma grande actualidade temática que pode funcionar, pelo menos, como um sugestivo pretexto de reflexão e debate.

Crítica de João Lopes actualizado às 15:24 - 11 junho '11
publicado 11:59 - 11 junho '11

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