Melodrama vs. formalismo
Yoo Ah-in — impulsos melodramáticos em cenários coreanos

Cannes 2018  

Melodrama "vs." formalismo

Parece ser uma tendência dos nossos dias: há filmes que se vão desinteressando das peripécias das suas histórias para privilegiarem uma certa ostentação formalista — o sul-coreano "Burning" é mais um exemplo disso mesmo.

Uma nova moda formalista?... De facto, parece que a "modernidade" está marcada por filmes que investem muito numa certa ostentação de linguagem (nomeadamente nos maneirismos visuais), ao mesmo tempo que se desinteressam por elementos vitais de qualquer história como são, como não podem deixar de ser, as personagens. Em Cannes, já tinhamos tido o exemplo do americano "Under the Silver Lake", de David Robert Mitchell.

Agora, algo de semelhante acontece em "Burning", de Lee Chang-dong. Adaptando um conto de Haruki Murakami, o cineasta sul-coreano constrói uma teia dramática polarizada numa personagem feminina, Haemi (Jun Jong-seo), e no modo como a sua existência (e desaparecimento...) envolve dois homens: Jongsu (Yoo Ah-in) e Ben (Steven Yeun). Dir-se-ia um drama romântico que se transfigura em enigma policial.


Estamos perante um objecto executado com exigente requinte técnico, com destaque para a direcção fotográfica de Hong Kyung-pyo. O certo é que, a certa altura, começamos a sentir que Lee Chang-dong se interessa mais pela exibição desse requinte do que pelos caminhos que unem, ou separam, as personagens.

Dir-se-ia que este é um cinema à procura dos ecos de um certo património melodramático, afinal disperso por todos os continentes cinematográficos. Atitude interessante, sem dúvida, capaz de gerar alguns momentos de discreta intensidade emocional — resta saber como superar as barreiras de um formalismo demasiado ocupado a contemplar as suas próprias proezas.

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publicado 23:53 - 17 maio '18

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