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Memórias cruéis de Versalhes

Depois de autores como Renoir ou Rossellini, Benoît Jacquôt propõe a sua visão de Maria Antonieta em "Adeus Minha Rainha": um belo exercício de cinema que desafia, ponto por ponto, os clichés históricos.

Memórias cruéis de Versalhes
Nos salões de Versalhes, ou o filme histórico para além da norma televisiva
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 Memórias cruéis de Versalhes
Adeus, minha Rainha Versalhes, Julho de 1789. A turbulência está a crescer na corte do Rei Luís XVI. O povo está a manifestar-se e a revolução está iminente. No palácio real, toda a gente está a pensar em fugir, incluindo a Rainha Marie Antoinette e a sua «entourage». Entre as damas de companhia encontra-se Sidonie Laborde que é quem lê para a monarca e se tornou muito íntima dela, e que vai viver com grande ...

Que faz com que o reinado trágico de Maria Antonieta e Luís XVI seja tão frequentemente abordado pelo cinema? Pois bem, antes do mais, é inevitável evocar o fascínio exercido pelas convulsões da Revolução Francesa (1789-1799) e pelos tempos que a antecederam; depois, importa sublinhar as contradições internas da época: é o fim de toda uma classe altamente privilegiada e o emergir dessa entidade, ao mesmo tempo política e mítica, que é o povo.

Os exemplos são muitos e muito variados: "La Marseillaise" (1938), de Jean Renoir; "A Tomada do Poder por Luís XIV" (1966), de Roberto Rossellini; "Marie Antoinette" (2006), de Sofia Coppola, etc., etc. Agora, através de "Adeus, Minha Rainha", de Benoît Jacquôt, deparamos com um insólito retrato de Maria Antonieta (Diane Kruger), elaborado a partir do olhar da sua aia para a leitura, Sidonie (Léa Seydoux).

Deslocando, com o subtileza, o peso dramático do filme para a figura de Sidonie, Jacquôt como que inverte a hierarquia tradicional destas narrativas. Em vez de um filme sobre um universo que se alimentava todos os dias do seu imaginário transcendental (afinal de contas, Luís XIV definia-se como o "Rei Sol"), "Adeus, Minha Rainha" nasce no espaço dos criados, não poucas vezes tocados por uma lucidez pragmática que faltava aos elementos da aristocracia.

Jacquôt consegue essa proeza invulgar (porque contrária à norma televisiva) que consiste em evitar os clichés da "reconstituição" histórica, dando-nos a ver um imenso labirinto de relações e interdependências em que todos, por certo com estados de espírito diversos, pressentem o fim de um tempo, a decomposição metódica de um mundo. Daí o desconcertante efeito de transparência: em certos momentos, a história confunde-se com um jogo de crueldade. É, além do mais, uma excelente oportunidade de retormarmos contacto com a obra de um cineasta com uma presença irregular nas salas portuguesas.

Crítica de João Lopes
publicado 00:44 - 28 setembro '12

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