Estreia  

Mia Wasikowska, actriz romântica

Depois de a termos visto em "Alice no País das Maravilhas" e "Os Miúdos Estão Bem", Mia Wasikowska confirma o seu talento numa nova versão de "Jane Eyre".

Mia Wasikowska, actriz romântica
De Alice a Jane Eyre, ou as boas relações entre cinema e literatura
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 Mia Wasikowska, actriz romântica
Jane Eyre Jane Eyre deixa Thornfield House, onde trabalha como governanta do abastado Edward Rochester. À medida que reflecte sobre as pessoas e emoções que a definiram, fica claro que essa vivência isolada e imposta – e a frieza de Mr. Rochester – foram um incrível teste à sua capacidade de recuperação, forjada anos antes quando ficou órfã. Terá agora de actuar decisivamente a fim de assegurar o seu ...

Que é, afinal, uma actriz romântica? E será que, hoje em dia, existem condições para o reconhecimento de uma verdadeira actriz romântica?

As perguntas justificam-se, quanto mais não seja porque a palavra "romantismo" surge frequentemente pervertida, servindo apenas para classificar a mediocridade dramática e o simplismo humano das telenovelas.

Lembremos, por isso, algo de muito simples: para além da sua óbvia relação com o romance, o romantismo cinematográfico envolve sempre um jogo de ambivalências entre a exuberância da vida e a pulsão da morte. Exemplo clássico? "Jane Eyre", de Charlotte Bronte,  romance fundamental de um tempo (meados do séc. XIX) em que a identidade feminina e o papel social da mulher estavam, de facto, a superar muitas barreiras herdadas de séculos anteriores.

A nova adaptação cinematográfica de "Jane Eyre", dirigida por Cary Fukunaga ("Sin Nombre"), é fiel a essa energia romântica, ao mesmo tempo confirmando-nos a admirável subtileza de Mia Wasikowska, uma actriz que, não tenhamos dúvidas, se vai impor como um talento realmente invulgar.

Contracenando com o também excelente Michael Fassbender (no papel de Edward Rochester), Wasikowska compõe uma Jane Eyre que se distingue pela luminosa lucidez com que encara a sua condição mais ou menos marginal e, em particular, as resistências que encontra para afirmar a singularidade dos seus sentimentos.

Depois de a termos visto em "Alice no País das Maravilhas", de Tim Burton, e "Os Miúdos Estão bem", de Lisa Cholodenko, compreendemos que há nela uma qualidade primitiva que, por certo, lhe vai permitir resistir à mera dissolução em universos dominados pelo gratuito dos efeitos especiais.

Fukunaga percebeu isso mesmo e faz um filme que renova as nossas esperanças no romantismo, ao mesmo tempo demonstrando que a relação com a literatura não tem que ficar presa das convenções que dominam muitas "reconstituições históricas" de raiz televisiva.

Crítica de João Lopes
publicado 01:47 - 21 abril '11

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