Estreias  

Nós, eles, a sua ilusão e nós outra vez

Dois anos depois de "Foge", Jordan Peele regressa à realização com um filme intitulado "Nós", colocando em cena uma família assombrada por outra família... Muito para além dos valores correntes do género de terror.

Nós, eles, a sua ilusão e nós outra vez
Lupita Nyong'o: e se "eles" formos "nós"?
Crítica de
Subscrição das suas críticas
145
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Nós, eles, a sua ilusão e nós outra vez
Nós Passado nos dias de hoje na zona costeira do norte da Califórnia, “ Nós ” , da Monkeypaw Productions, conta no elenco com a vencedora de um Óscar, Lupita Nyong’o, no papel de Adelaide Wilson, uma mulher que regressa à casa de praia onde passou a infância, com o marido Gabe (Winston Duke de “Black Panther”) e os dois filhos (Shahadi Wright Joseph e Evan Alex) para uma escapadela de verão idílica. ...

Eis um reencontro muito aguardado: Jordan Peele regressa à realização com "Nós", filme que corre o risco de ser asfixiado na noção omnipresente de cinema de terror. Claro que o trabalho de Peele não é alheio ao património mitológico do género, bem pelo contrário. Mas seria francamente simplista reduzi-lo a qualquer noção corrente em que a singularidade do género parece esgotar-se no número de cadáveres acumulados ou na ostentação dos efeitos especiais...

De facto, Peele não é, de modo algum, um banal funcionário de efeitos (técnicos ou dramáticos) mais ou menos na moda. Já o sabíamos desde "Foge" (2017). O seu cinema nasce de um visceral efeito de estranheza, de uma só vez físico e simbólico — e se "eles" formos "nós"? Ou ainda: e se a ilusão que os outros instalam no nosso espaço nos obrigar a questionar o que somos? Ou talvez aquilo que imaginamos ser?

Desde a difusão do trailer de "Nós", todos sabemos o essencial da sua premissa: uma família em férias, uma outra família que aparece à noite em frente à sua casa e um crescendo de violência que os "visitantes" instalam... Sendo "eles" iguais a "nós"...

A partir daí, vamos assistindo a um envolvimento que tem tanto de vertigem psicológica como de exuberante teatralidade. Aliás, a palavra é francamente sugestiva para nos ajudar a definir o crescendo emocional de "Nós", em particular o que acontece com a personagem da mãe (Lupita Nyong'o, magnífica), reencontrando inusitadas memórias da sua própria infância.

É, de facto, de um teatro do medo que se trata. Quando o espaço familiar se descobre "duplicado" noutro, quando esse efeito de espelho envolve a partilha de uma "alma", tudo vacila, a começar pela crença na estabilidade do próprio espaço comunitário em que todos se relacionam. No limite, talvez possamos definir "Nós" como um ensaio crítico sobre a vulnerabilidade das relações humanas — Jordan Peele tem esperança, mas não é um optimista.

Crítica de João Lopes
publicado 19:59 - 21 março '19

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes